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Correio Braziliense

Vanessa Neumann: Tríplice Fronteira tem esquema para beneficiar políticos

Em entrevista ao Correio, especialista em segurança afirma que há na Tríplice Fronteira um esquema desenhado para beneficiar um grupo específico


postado em 24/04/2018 06:00 / atualizado em 24/04/2018 07:55

Foz do Iguaçu — O Paraguai tem um novo presidente eleito, Mario Abdo Benítez, do Partido Colorado, que está no poder atualmente. Mais do que a continuidade política, o que deve se confirmar é a permanência de um sistema político que favorece diversos crimes na extensa fronteira do país como Brasil, especialmente na tríplice fronteiras que, além dos dois países, inclui a Argentina, segundo a especialista em segurança Vanessa Neumann. Presidente da consultoria de análise de riscos Asymmetrica, que subsidia o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), ela diz que a região de Foz do Iguaçu é uma das principais do mundo para a lavagem de dinheiro.

Não é à toa que foi usada pelo sistema de corrupção da Petrobras, descoberto na Operação Lava-Jato. A participação de operadoras da região no financiamento do grupo terrorista Hezbollah, do Oriente Médio, é antiga, mas crescente. A novidade é o crescimento das relações com o PCC, maior facção criminosa do Brasil. Isso não seria possível, diz Vanessa, sem que se tivesse criado uma sólida estrutura com sede em Assunção e ramificações entre os comerciantes do lado argentino da fronteira e, principalmente, do lado brasileiro. Nascida na Venezuela, ex-namorada do cantor britânico Mick Jagger, Vanessa está hoje baseada em Washington, onde faz trabalhos para várias empresas e entidades. O estudo mais recente de seu grupo, ainda não divulgado oficialmente, tem como foco a tríplice fronteira, que ela chama de hidra dourada com sede em Assunção. Parte do trabalho foi apresentado nesta semana em um dos encontros do Enecob, rede de jornalistas, que ocorreu em Foz do Iguaçu, com a participação do Instituto Etco, que defende o aumento do combate ao contrabando e à pirataria. Depois da apresentação, ela falou ao Correio.


No estudo realizado sobre a tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, a região é chama de hidra dourada com sede em Assunção. Por quê?
Depois da analisar todos os dados, chegamos à conclusão de que o centro de gravidade é esse, porque o que cruza a fronteira de um ponto a outro segue a um esquema desenhado para beneficiar um grupo de elite de empresários e políticos que está na capital paraguaia. O modo como a autoridade está estruturada não deixa margem à dúvida. Coloca-se o controle da fronteira nas mãos de pessoas que não têm um mandato para parar o contrabando. Isso não é um acidente. Assim como não é o fato de que a polícia não se reporta ao procurador-geral. Isso tem se construído ao longo das últimas quatro décadas, e vem crescendo. A tríplice fronteira opera de forma estável, balanceada, o que é preocupante. Mostra que não há conflito entre os vários grupos. Em outros lugares, como Pedro Juan Caballero, pode haver um pequeno transgressor que tem um embate com outro, por uma ou outra disputa. Aqui a coisa flui.

"O modo como a autoridade está estruturada não deixa margem à dúvida. Coloca-se o controle da fronteira nas mãos de pessoas que não têm um mandato para parar o contrabando. Isso não é um acidente" (foto: ENECOB/Divulgação)

Quais as implicações dessa centralidade em Assunção?
Tudo está ligado: a diferença de tarifas entre os países, a oferta de energia subsidiada para algumas empresas. Há um desenho, algo intencional, que permite ocorrer o que acontece na tríplice fronteira. Claro que há corrupção na Argentina e no Brasil, pelo menos na área de fronteira propriamente dita.

Pode-se falar em um Estado criminoso?
Algumas pessoas com quem trabalho dizem isso, sim. Muitos dos entrevistados no trabalho falam de um Estado falido, sequestrado pelo comércio ilícito. As baixas alíquotas de impostos são algo interessante, porque, a princípio, tratam-se de um mecanismo criado para produzir internamente e exportar. Cria desenvolvimento no país. Só que, no caso do comércio ilícito, não há nada que beneficie a população, por meio de educação e saúde públicas, por exemplo. Só há benefício para um grupo de elite, que está sempre se beneficiando, inclusive politicamente. Deixa-se a Presidência da República, e então se vai para o Senado. É uma estrutura para a continuidade.

Isso começou na ditadura militar paraguaia?

O conhecimento que tenho da história do Paraguai não é suficiente para que fale disso. Nas entrevistas, foi dito a integrantes da nossa equipe que isso também ocorria no governo do general Alfredo Stroessner. Mas depois é que se tornou institucionalizado.

O Brasil tem outras oito tríplices fronteiras. O que faz desta algo especial?
Ela é única exatamente pela força das instituições envolvidas. Quando há uma estrutura de lavagem de dinheiro tão eficiente, é algo que é usado por muita gente. Se você é um homem rico, você procura os melhores advogados, os melhores banqueiros e, se precisa lavar dinheiro, vai aonde se faz isso melhor. Este aqui é um. Dubai é outro. Panamá, Mônaco.

A tríplice fronteira está em que posição nesse ranking global?

Na América Latina, eu diria que é a maior.

Qual é a relação com o Hezbollah? É menor do que no passado?
O que ocorreu é que o comércio aqui na região é muito grande. Sabemos que o Hezbollah está se movendo progressivamente em direção ao comércio ilícito. Isso foi dito para mim por parte de pessoas do Exército Brasileiro, dentro da preocupação com a segurança da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Há 7 milhões de pessoas de origem libanesa no Brasil. Quase o dobro da população do próprio Líbano. Sempre se soube que havia a relação com o terrorismo, mas meio que se deixou solto. E, então, virou um monstro. Isso também está favorecendo o PCC, o que começa a preocupar mais as autoridades brasileiras. O financiamento do Hezbollah está crescendo na América Latina. Os libaneses são muito fortes no comércio. É claro que só uma parte vai para o Hezbollah, mas como o total é muito grande, isso ainda é um montante muito significativo. Meu país, a Venezuela, é um playground para o Hezbollah, mas as sanções impostas pelos Estados Unidos estão impondo problemas. O Hezbollah certamente está presente na Tríplice Fronteira, o que ajuda o local a ser tão forte em lavagem de dinheiro. Há, assim, muitos recursos a serem lavados. O coração do Hezbollah na América Latina, que é a Venezuela, tem se transferido progressivamente para a Tríplice Fronteira. A relação com o grupo está, portanto, aumentando aqui, não diminuindo. É um modo muito eficiente de evitar as sanções dos Estados Unidos.

Como evitar isso?
Com ações anticorrupção. As pessoas têm de exigir que o governo trabalhe para elas, não em seu próprio benefício. O comércio ilícito simplesmente não existe sem corrupção. É preciso vontade política para fazer isso. Não há problema com o comércio, o problema é que isso não está ajudando a população da fronteira. São 35 bilhões de euros por ano. É muito, levando em conta a população da região.

Qual o tamanho do PCC na área?
Muito grande. Estão se tornando os maiores distribuidores de drogas na região e os maiores receptadores de armas. E muito disso vem por meio de comerciantes de origem libanesa. As armas vêm da Bolívia, Venezuela e China, de onde chegam a Ciudad del Este aviões cargueiros gigantes, Boeing 747, maiores do que o próprio terminal do aeroporto.

Há quanto tempo o PCC está atuando na área?

É difícil dizer. Nem mesmo as autoridades brasileiras sabem. O problema é que essas coisas não são investigadas de modo mais amplo. As investigações se limitam às cargas que são apreendidas. Não há uma análise mais profunda das redes em questão. O padrão em contraterrorismo é investigar as redes. Não na investigação de crimes, infelizmente. O melhor modo de investigar é a velha frase: siga o dinheiro.

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