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Correio Braziliense

Desertificação cresce e ameaça terras do Nordeste, Minas e Espírito Santo

Área afetada aumentou 482% nos últimos cinco anos devido ao desmatamento da caatinga e do cerrado, ao uso intensivo do solo, à irrigação inadequada e à mineração excessiva


postado em 20/05/2018 08:00

Ação para reverter a desertificação em Sergipe: compromisso do país é reduzir área vulnerável em 15% até 2030(foto: PauloAraujo/MMA - 28/4/18)
Ação para reverter a desertificação em Sergipe: compromisso do país é reduzir área vulnerável em 15% até 2030 (foto: PauloAraujo/MMA - 28/4/18)

Uma população de 35 milhões de pessoas está sujeita a experimentar fortes perdas agrícolas, assistir à escalada de doenças e, sem alternativa, ter de procurar outro lugar para viver. Os danos econômicos são incalculáveis. Essas pessoas moram em 1.488 municípios de 11 estados, incluindo todo o Nordeste, o norte de Minas Gerais e o do Espírito Santo. São vítimas da desertificação. Para ter ideia da gravidade do problema, há cinco anos o Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e o Ministério do Meio Ambiente calcularam que 230.000 km² estavam virando deserto. Hoje, a área passou para 1.340.863 km² — alta de 482%.

Atualmente, uma região maior do que o estado do Ceará já virou deserto. São 200 mil km². Bahia, Ceará e Pernambuco são os estados mais castigados, embora, proporcionalmente, a Paraíba seja o estado com maior extensão de área comprometida: 71% de seu território já sofrem perdas consideráveis.

Em 2013, foram mapeados seis núcleos propensos à desertificação. Hoje, a situação se alastrou para 70% do Nordeste. As causas são velhas conhecidas do brasileiro: o desmatamento da caatinga e do cerrado, uso intensivo do solo, a ocupação humana irregular, as práticas inadequadas de irrigação, a fertilização química do solo e a mineração excessiva. O fenômeno ameaça reduzir em 11% o Produto Interno Bruto (PIB) do Nordeste até 2050.

Em condições normais, a vegetação da caatinga renasce até 15 dias depois da chuva. Nas áreas em processo de desertificação, não importa o quanto chova, a vegetação não brota mais. A estiagem sempre influenciou o modo de vida no Nordeste. A falta d’água sempre existiu. A região viveu um período de seis anos consecutivos com chuvas abaixo da média, entre 2012 e 2017. O que está em jogo agora, porém, não é só a falta de chuva, mas a degeneração da terra.

Sobrevivência

Junior Aleixo, 30 anos, vive na zona rural de Prata, no sertão da Paraíba, um dos municípios afetados pela desertificação. Ele sabe como é sobreviver em áreas sem água e onde do chão nada brota. O criador de bode e cabras de leite já teve que deixar sua casa para trabalhar em outra cidade por não ter como alimentar os animais.

“O solo era infértil e não tinha como melhorar. Tínhamos dificuldade com água e pastagem. A gente tinha que vender os animais. Não tinha como manter os animais sem comida e água”, conta. O governo, por meio de programas de Unidades de Recuperação de Áreas Degradadas (Urad) e redução da vulnerabilidade, instalou uma barragem subterrânea para atenuar os problemas no local.

O Brasil, com outros 192 países, participa da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos das Secas – UNCCD na sigla em Inglês. No entanto, o processo de recuperação é complexo e demorado, já que exige ações de longo prazo e inclui conscientização política, econômica e social. Nos últimos quatro anos, o governo federal gastou R$ 28 milhões na recuperação dessas áreas. Somente em 2018, serão gastos US$ 5 milhões (R$ 18,7 milhões) do Fundo Global para o Meio Ambiente, Fundo Clima e da Agência Nacional de Águas.

O diretor do Departamento de Desenvolvimento Rural Sustentável e de combate à desertificação do Ministério do Meio Ambiente, Valdemar Rodrigues, explica que, para o Brasil atingir a meta de 2018 — 2030 da UNCCD, o país terá que reduzir de 15% das áreas degradadas. “Parte dos recursos obtidos com a conversão de multas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) serão empregadas em ações de combate à desertificação. O primeiro chamamento público contempla a caatinga, o bioma mais afetado”, adianta. O governo ainda discute o percentual a ser destinado ao setor.

A desertificação é um processo cumulativo de degradação ambiental, que afeta as condições econômicas e sociais do país, ao mesmo tempo em que reduz continuamente a superfície das terras habitáveis, alerta Aldrin Perez-Marin, pesquisador do Insa, uma das principais referências do setor. “As consequências se apresentam em âmbito local, regional, nacional e global, visto o empobrecimento da população, o declínio da qualidade ambiental, os processos migratórios, a perda de biodiversidade, perda de território produtivo e na elevação do risco social”, pondera.

O pesquisador é enfático. “O processo de desertificação deve ser encarado como um problema pangeoespacial. Espera-se que esses processos se intensifiquem e que a população desses locais ocupe novos territórios em busca de sobrevivência. Em muitos casos, as famílias fogem, migrando para grandes centros urbanos. Essas famílias, como refugiadas ambientais nesses novos territórios, sem condições financeiras e instrução adequada, se estabelecem em áreas periféricas, geralmente inadequadas para ocupação”, explica.

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