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Correio Braziliense

Após 10 dias internado, morre jornalista Alberto Dines, aos 86 anos

Causa da morte foi insuficiência respiratória. Dines trabalhou nos principais veículos de comunicação do país


postado em 22/05/2018 10:19 / atualizado em 22/05/2018 17:47

Alberto Dines é fundador do Observatório da Imprensa(foto: Ana Paula Migliari/TV Brasil)
Alberto Dines é fundador do Observatório da Imprensa (foto: Ana Paula Migliari/TV Brasil)

 
"Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos". A "previsão do tempo" publicada pelo Jornal do Brasil em 13 de dezembro de 1968, quando houve promulgação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), foi uma sacada de Alberto Dines para driblar a censura numa das fases mais repressoras da ditadura militar. Nesta terça-feira (22/5), o jornalismo brasileiro perdeu uma dos seus nomes. Dines morreu aos 86 anos por insuficiência respiratória, em São Paulo, onde se tratava de uma forte pneumonia há 10 dias. O velório acontece nesta quarta-feira (23/5), em São Paulo. Nascido no Rio de Janeiro, Dines deixa viúva e quatro filhos. 

O padrão dos jornais impressos conhecido pelo leitor brasileiro foi reinventado por Dines no começo da década de 1960. Como editor do Jornal do Brasil, revolucionou a cobertura cultural com o Caderno B. A tendência se espalhou e virou modelo nas redações de todo país. Dines lançou, em 1998, o programa Observatório da Imprensa, da TV Brasil. A produção, que refletia o papel da imprensa e do jornalismo, ficou no ar até 2016. 

Com mais de 65 anos de carreira, o jornalista passou pelos veículos de comunicação mais importantes do Brasil. Estreou no jornalismo em 1952 na revista A Cena Muda e participou da fundação da revista Visão em 1953. Em 1957, trabalhou na revista Manchete. Dois anos depois foi diretor do segundo caderno do Última Hora. Em 1962 virou editor-chefe do Jornal do Brasil, onde permaneceu até 1973.  

Dines esteve no Correio Braziliense em novembro de 1968 e leu uma edição a cor — sistema que ainda estava em implantação no jornal à época. Ele foi recebido pelo colunista do diário Ari Cunha e pelo então repórter Ronaldo Junqueira. Durante dois anos, entre 1959 e 1962, Dines dirigiu o jornal carioca Diário da Noite, do Diários Associados, grupo de comunicação que o Correio também faz parte. 
 
Dines em 1968 lendo um teste a cor de um exemplar do Correio Braziliense(foto: Arquivo Cedoc/CB)
Dines em 1968 lendo um teste a cor de um exemplar do Correio Braziliense (foto: Arquivo Cedoc/CB)
 

Dines criou, ainda, dois institutos o Observatório da Imprensa e o Instituto para o Desenvolvimento para o jornalismo (Projor). Em 1994, fundou o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Entre os principais livros publicados por Dines estão Morte no Paraíso - A tragédia de Stefan Zweig, Diários Completos do Capitão Dreyfus, Por que não eu?, O papel do jornal e a profissão de jornalista e A imprensa em questão.

Para veteranos e focas — como são chamados os jornalistas recém formados — Dines deixou uma lição que não se fragmenta com o passar do tempo. "Jornalistas não podem se intimidar com o berro de um general, agressões de policiais ou de quem quer que seja, mesmo que vindo de um  presidente dos Estados Unidos", dizia. A frase se completa. "Todo jornalismo é investigativo, ou não é jornalismo. Donde se conclui que o que lemos, ouvimos e vemos todos os dias na imprensa não é jornalismo", dizia.

Duas qualidades disputavam o posto de mais característica de Dines: a coragem e a generosidade. Em mais um episódio de bravura, ele driblou a censura com uma primeira página do Jornal do Brasil sem manchete. Os militares proibiram a publicação de títulos sobre o golpe do general Augusto Pinochet que depôs o presidente chileno Salvador Allende, em setembro de 1973. Dines coordenou a edição de uma primeira página sem chamadas, mas com uma extensa reportagem contando o que aconteceu no Chile. 
 
Ver galeria . 9 Fotos Jornalista Alberto DinesMarcos Fernandes/CB/D.A Press
Jornalista Alberto Dines (foto: Marcos Fernandes/CB/D.A Press )
   

Repercussão

O jornalista Gilberto Menezes Côrtes trabalhou com Dines no Jornal do Brasil em meados da década de 1970. Para ele, o maior ensinamento é responsabilidade com a apuração. “Quando comecei no JB ele já era um lenda. Entrei em 1972. Me inscrevi no curso de jornalismo de aperfeiçoamento e trabalhei na economia. O jornalismo se modernizou muito na fase dele”, diz o profissional, que hoje é vice-presidente da publicação.  
 
O presidente Michel Temer usou as redes sociais para lamentar a morte de Dines. "O jornalismo brasileiro perde um dos pilares da ética e do profissionalismo. Alberto Dines passou pelos mais importantes veículos do país e criou uma geração de jornalistas comprometidos com a correção da informação", escreveu.

Em nota, ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, destacou o legado do jornalista. "Prócer da liberdade de expressão no Brasil, inclusive durante a longa noite do regime de exceção, Dines foi e seguirá sendo uma referência para todos que lutam pelas causas da democracia e de uma imprensa livre e de qualidade. Alberto Dines, cuja obra e exemplo de vida continuarão inspirando as atuais e futuras gerações na construção de um país mais próspero e justo, em que o jornalismo independente continuará sendo uma peça indispensável”, diz o texto. 

A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) ressaltou a resistência de Dines ao regime militar. “Trajetória de Alberto Dines no Jornal do Brasil marcou história ao se rebelar ironicamente contra a Ditadura. Seu legado é a busca incessante pela ética e o bom jornalismo. Que a atual e novas gerações de jornalistas possam seguir seus passos”, escreveu a parlamentar em uma rede social. Os deputados Alessandro Molon (PSB) e Chico Alencar (PSOL) também homenagearam Dines. 

O governador de São Paulo, Márcio França (PSB), afirmou que Dines foi “brilhante”. “Dines também compartilhou seu talento em sala de aula, quando lecionou em escolas de jornalismo no Brasil e nos Estados Unidos. Meus sentimentos à sua família e aos seus colegas do Observatório da Imprensa, onde, com bastante propriedade, dedicava-se a analisar o trabalho dos veículos de comunicação”, disse, em nota. 

Colegas de luto

Vários jornalistas contemporâneos e aprendizes de Dines usaram as redes sociais para lamentar a morte. Juca Kfouri era amigo de Dines e destacou as dificuldades do tratamento do colega. “(Ele) vinha sofrendo muito já faz tempo e sua morte interrompe dias que não lhe faziam justiça. É curioso. O descanso dele, pelo qual torci, não consola agora.”

O jornalista Caio Túlio Costa defendeu o legado de Dines. “Mestre de várias gerações de jornalistas, tb foi um grande amigo e colega de várias iniciativas. O país perde um de seus maiores jornalistas”, escreveu. “Herói da imprensa brasileira”, definiu a repórter Barbara Gancia, ex-colunistas da Folha de São Paulo. “Você nunca será esquecido”, emenda ela. 

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