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Correio Braziliense

Em 2017, só 8% dos casos de conflito no campo foram julgados no país

Relatório da Comissão Pastoral da Terra mostra que violência aumenta em relação a 2016 e que a "impunidade é um dos pilares da violência". No ano passado, houve o equivalente a uma tentativa de assassinato a cada três dias


postado em 05/06/2018 06:00 / atualizado em 05/06/2018 07:52

(foto: Evaristo Sa/AFp - 3/12/12)
(foto: Evaristo Sa/AFp - 3/12/12)

 

Ao menos 71 pessoas morreram em conflitos no campo em 2017, segundo relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Foi o mais alto índice de violência registrado desde 2003, quando foram notificados 73 assassinatos. Em 2016, foram 61 vítimas — 14% a menos que no ano passado. Ocorreram, ainda, 1.431 conflitos— por terra, por água e por trabalho —, 6,8% menor que em 2016, com 1.536. Apesar da queda, corresponde a um assassinato a cada 20 conflitos — no ano retrasado, equivalia a um assassinato a cada 25.

Mas não foi só o número de mortos que cresceu. Praticamente todas as demais formas de violência aumentaram ante 2016. As tentativas de assassinato passaram de 74 para 120 — alta de 63% — o que equivale a uma tentativa a cada três dias. As ameaças de morte subiram de 200 para 226. O número de pessoas torturadas passou de um para seis. E o de presos, de 228 para 263.

“Além dos dados de assassinatos que constam no levantamento, há muitos outros que acontecem na imensidão deste país e que só a dor das famílias é que os registra”, disse a organização sobre o balanço Conflitos no Campo Brasil 2017. Segundo o bispo emérito de Goiás, dom Tomás Balduíno, um dos fundadores da Pastoral, a publicação “é apenas uma amostra dos conflitos no Brasil”.

Massacres


Do total de mortos, 31 pessoas morreram em cinco massacres pelo país. É considerado massacre quando, em um único conflito, no mesmo dia, são assassinadas três ou mais pessoas. Em relação aos outros anos, em 1985, foram notificados 10 casos e seis em 1988 — desde então não se registrava, num único ano, mais do que dois massacres.

De acordo com Airton Pereira e José Batista Afonso, ambos integrantes da CPT, o que assusta é identificar o “grau de brutalidade e crueldade que os acompanharam”. “Cadáveres degolados, carbonizados, ensanguentados, desfigurados. Exemplos que deverão ficar marcados para sempre na alma de homens, de mulheres, de jovens e crianças do campo. Uma pedagogia do terror”, lamentou.

Para Carlos Walter, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG),  os números divulgados escondem a triste realidade de insegurança dos moradores do campo. Ao analisar o período de 2015 a 2017, que ele caracteriza como período de ruptura política, e compará-lo a anteriores, fica registrada a média de homicídios de 60,6. Entre os anos de 2011 a 2014, durante o governo Dilma, a média foi de 33,7.


Impunidade


Entre os 1.431 casos de conflitos no campo, que resultaram em 1.904 vítimas, apenas 113 (8%) foram julgados, com 31 mandantes e 94 executores condenados. Segundo a CPT, o baixo número de processos que tiveram continuidade mostra que a “impunidade ainda é um dos pilares da violência no campo”. Do total, 658 ocorreram na Região Norte — só no Pará são 466; em seguida, vem o Maranhão, com 157 casos e Rondônia, com 102 casos.

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