Jornal Correio Braziliense

Brasil

Senado aprova criação de políticas para doenças raras no SUS

Cerca de 13 milhões de pessoas são afetadas por doenças raras no Brasil

Moradora de São Paulo, Camila Tapia, 35 anos foi diagnosticada em 2012 com Ataxia Friedreich. A doença considerada ultra rara causa degeneração muscular, problemas na locomoção, fala, visão e equilíbrio. Camila está aposentada e com o plano de saúde, consegue realizar alguns tratamentos de apoio como fisioterapia para atrasar os sintomas e se adaptar as nova condições que surgem com o passar do tempo. ;É uma doença progressiva que não tem cura, nem medicação. Tenho plano, mas tem gente com o mesmo problema que eu à deriva, sem orientação alguma;.

Ela acredita que muitos desses pacientes poderão ser beneficiados com a aprovação da Política Nacional para Doenças Raras no Sistema Único de Saúde (SUS), que aconteceu hoje (11) no Senado. Como o texto passou por modificações como a exclusão da possibilidade de registro automático de medicamento sem prévia deliberação da Anvisa. O PLC 56/2016 de autoria do ex-deputado Marçal Filho (MDB-MS) voltará à Câmara dos Deputados em caráter de tramitação de urgência. O relator do projeto na Comissão de Assuntos Sociais (CAS), o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO)

A ideia é que os portadores de doenças raras sejam identificados precocemente, no pré-natal ou ainda recém-nascidos, e que recebam o tratamento adequado desde a primeira infância. A política prevê também o suporte às famílias dos pacientes, com pelo menos um centro de referência.

Cerca de 13 milhões de pessoas são afetadas por doenças raras no Brasil, segundo a OMS. As enfermidades afetam até 65 pessoas em cada grupo de 100 mil indivíduos, sendo 80% causados por fatores genéticos. Uma doença é definida como rara quando afeta até 65 em cada 100 mil pessoas.

O PL 56/2016 determina que a política seja implantada em até três anos, nas esferas nacional, estadual e municipal. O Ministério da Saúde conta com uma política de atenção para esse tipo de doença desde 2014 e a intenção do projeto é fortalecer a garantia aos pacientes. A política reconhece também o direito de acesso dos pacientes diagnosticados com doenças raras aos cuidados adequados, incluindo a provisão de medicamentos órfão, visto com pouco interesse pela indústria farmacêutica por não ser vantajoso desenvolver remédios destinados a um grupo pequeno de doentes com custo de pesquisa elevado. Com o projeto, esse tipo de medicamento terá prioridade na análise para concessão de registro sanitário junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O texto cria também um núcleo com a capacidade de desenvolver no país os comitês para criar especialistas e pessoas reconhecidas no tratamento e no encaminhamento desses pacientes.

Lauda Santos, diretora-executiva da Associação Maria Vitória de doenças raras e crônicas do Distrito Federal (Amavi) criou a entidade após a morte da filha de 27 anos, em 2016. Ao nascer, ela foi diagnosticada com artrite reumatóide juvenil. ;Tudo começou quando vi a dificuldade de acesso à medicação. Tinha que comprar nos EUA, mas e quem não podia pagar?Também não existe um banco de dados unificado de doenças raras;, ressalta.

Ela afirma que o PL representa uma conquista, embora falte muito para que o público de doenças raras consiga um atendimento efetivo. ;O Ministério se comprometeu a publicar 47 protocolos clínicos de diretrizes terapêuticas, com consenso médico e linha de tratamento, o que ainda não aconteceu;, critica.

No geral, Lauda ressalta que o projeto vai reforçar e melhorar o serviço de atendimento. ;Dá tranquilidade de que o paciente com doença rara tenha o tratamento garantido, pois será obrigatório. Para acesso ao medicamento também, porque qualquer pedido para medicamento raro tem que entrar com pedido judicial, demora e é caro", finaliza.