Publicidade

Correio Braziliense

Seis meses após assassinato de Marielle Franco, caso será discutido na ONU

Assassinatos da vereadora do Rio e do motorista dela, Anderson Gomes, ocorridos em março, seguem sem solução. Autoridades públicas se limitam a dizer que investigação está "sob sigilo"


postado em 14/09/2018 06:00 / atualizado em 14/09/2018 09:38

Marielle Franco levou quatro tiros na cabeça: Anistia Internacional fará manifestação hoje no Rio(foto: Mário Vasconcellos/AFP)
Marielle Franco levou quatro tiros na cabeça: Anistia Internacional fará manifestação hoje no Rio (foto: Mário Vasconcellos/AFP)

“O caso segue sob sigilo.” Nos últimos seis meses, as autoridades públicas fluminenses repetiram essa frase um sem-número de vezes para justificar a ausência de informações na investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista dela Anderson Gomes, no centro do Rio de Janeiro. Hoje, a execução completa seis meses e, até agora, ninguém foi responsabilizado pelos 13 tiros.

Na próxima semana, o caso será tema de debate no Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suíça. A viúva de Marielle, a arquiteta Mônica Benício, participará de uma comitiva formada por integrantes de ONGs para denunciar a demora nas investigações.

“A dor é, de certa forma, um combustível para poder se manter na luta. É motivador ver pessoas que falam que nossa luta está inspirando, que Marielle continua sendo um símbolo de esperança. É sempre “estamos trabalhando”, “estamos andando”, mas não tem consistência (a investigação)”, lamenta Mônica.

Aterrorizante e inaceitável é como o advogado João Tancredo, que representa as famílias de Marielle e Anderson, classifica a apuração. “É preciso que se jogue luz sobre a investigação. Sem transparência, não temos a mínima ideia dos caminhos dos investigadores. Até o momento, só se sabe qual foi o armamento utilizado para matá-los: uma submetralhadora HK MP5, da qual existem poucos exemplares no Brasil e cujo uso é exclusivo das mais altas forças de segurança”, critica.

Apesar de cinco suspeitos terem sido presos, João defende apurações mais amplas. “As suspeitas divulgadas sobre a autoria de milicianos me parecem infundadas — Marielle não tinha confronto com eles — e podem ter levado a investigação para um labirinto sem saída. É preciso ampliar o leque das investigações. Assim, ao menos, se eliminariam possibilidades”, emenda.

Uma petição que cobra celeridade na apuração conta com 165 mil assinaturas, sendo 97 mil, de brasileiros. Ao todo, pessoas de quatro países manifestaram apoio ao documento. Hoje, a Anistia Internacional vai levar um telão de LED 360°, de 5 metros, com o questionamento: “Quem matou Marielle Franco?” A mensagem passará em frente a algumas instituições estatais e do sistema de Justiça criminal no Rio de Janeiro.

Ontem, o Correio enviou perguntas para a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, para as polícias Civil e Militar do estado e para o Ministério da Segurança Pública, mas nenhum dos órgãos respondeu. Todos informaram que o crime continua em investigação pela Divisão de Homicídios, “sob sigilo”.

O Gabinete de Intervenção Federal garante que as apurações continuam sendo conduzidas pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio, sob controle do Ministério Público Estadual. “As investigações prosseguem sob sigilo, a fim de que possam ser obtidas as provas necessárias à elucidação do crime”, destaca o órgão, em nota.

Monitoramento

Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional, acredita que é preciso acompanhar de perto o andamento do caso. “É fundamental a constituição de um mecanismo independente para monitorar as investigações e prestar esclarecimentos à sociedade. As autoridades públicas responsáveis pelo caso têm o dever de resolver esse crime. Cada passo que se teve até agora só aconteceu por causa da pressão”, afirma.

Para ela, as autoridades responsáveis tiveram tempo para dar respostas contundentes. “Passou-se muito tempo, e é inadmissível que não tenhamos resposta neste momento. Impunidade não é resposta. As autoridades devem respostas a essas duas famílias”, critica.

A ativista ainda levanta uma suspeita. “Estamos diante de um cenário muito preocupante. O assassinato, muito provavelmente, contou com a participação de agentes do Estado”, afirma. 

165 mil
Total de assinaturas numa petição que cobra informações sobre o caso

Os suspeitos

Alan de Moraes Nogueira
» O ex-policial militar, conhecido como “Cachorro Louco”, foi preso em julho. Ele é acusado de ser um dos ocupantes do veículo onde estavam os assassinos de Marielle e de Anderson.

Orlando Curucica
» O ex-policial militar Orlando Oliveira de Araújo, conhecido como Orlando Curucica, é investigado como suspeito de participação na execução. Ele comandava uma milícia em Jacarepaguá.

Marcello Siciliano

» O vereador do PHS é apontado como o mandante do crime. Testemunha afirma que ele desejava a morte de vereadora por sua crescente influência na Zona Oeste do Rio.

Luís Cláudio Ferreira Barbosa

» O ex-bombeiro foi preso por crimes relacionados à milícia comandada por Orlando Curicica.  A polícia investiga a atuação dele na execução de Marielle.

Thiago Bruno Mendonça
» Conhecido como Thiago Macaco, foi citado por um delator como o responsável pela clonagem do carro usado pelos assassinos. Thiago está preso desde maio.

Todos os citados negam participação no crime

 

Ver galeria . 8 Fotos A vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, do PSOL, foi morta a tiros na noite de quarta-feira (14/3), dentro do carro em que seguia para casaMauro Pimentel/AFP
A vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, do PSOL, foi morta a tiros na noite de quarta-feira (14/3), dentro do carro em que seguia para casa (foto: Mauro Pimentel/AFP )
 

Entenda o caso

Perseguição e morte
Por volta das 19h de 14 de março, Marielle participou de um debate com jovens negras, na Lapa, no Rio de Janeiro. Às 21h, ela deixou o local. No trajeto, um veículo emparelhou com o de Marielle e dele foram disparados 13 tiros. A vereadora foi atingida por quatro balas na cabeça, e o motorista Anderson Gomes, por três nas costas. A munição pertencia a um lote vendido para a Polícia Federal de Brasília em 2006. A polícia recuperou nove cápsulas no local do crime. Parte das balas do lote tinha sido utilizada numa chacina em São Paulo, em 2015. O Ministério da Segurança afirmou que a carga foi roubada de uma agência dos Correios na Paraíba. Para a polícia, os assassinos observaram Marielle antes do crime, porque sabiam a posição dela no carro. Cinco das 11 câmeras de trânsito posicionadas no trajeto de Marielle estavam desligadas.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade