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Correio Braziliense

Lista dos animais ameaçados de extinção aumenta 87% em uma década

Em uma década, cresceu em 87% a lista de animais ameaçados de extinção no país. Mesmo assim, o problema segue negligenciado e nenhum dos planos de governo dos 13 presidenciáveis aborda especificamente o assunto


postado em 04/10/2018 06:00 / atualizado em 04/10/2018 12:59

A onça-pintada é uma das espécies afetadas na redução de mamíferos da Mata Atlântica: exploração sem limites(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 18/8/15)
A onça-pintada é uma das espécies afetadas na redução de mamíferos da Mata Atlântica: exploração sem limites (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 18/8/15)

O desaparecimento de animais afeta ecossistemas e interfere na vida humana, com desequilíbrios climáticos e escassez de água, por exemplo. O problema no Brasil tem aumentado, mas parece esquecido. Em uma década, cresceu 87% a lista de bichos ameaçados de extinção. Em 2008, o Ministério do Meio Ambiente lançou um catálogo com 627 animais em risco. Hoje, o número chegou a 1.173.

Esse é somente um dos exemplos do descaso com a fauna. A preocupação de especialistas é com a falta de políticas públicas de prevenção. Nenhum dos planos de governo dos 13 presidenciáveis registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aborda especificamente a questão. Nove trazem proposições genéricas, que não resolvem as questões existentes, segundo especialistas.

Os últimos mapeamentos mostram que a Mata Atlântica está em colapso. Há 15 dias, houve mais um ataque ao meio ambiente: deputados da Assembleia Legislativa de Rondônia votaram, por unanimidade, pela extinção de uma reserva florestal que equivale a mais de meio milhão de hectares de áreas protegidas na Amazônia.

Elaborada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a Declaração Universal do Direito dos Animais completou 40 anos em janeiro. Contudo, ambientalistas criticam a ausência de políticas públicas que implementem a cartilha.

Para o professor Reuber Albuquerque Brandão, do Departamento de Engenharia Florestal da UnB, existe um recrudescimento do assunto. “A maior parcela dos candidatos encara o meio ambiente como atraso para a economia, para a indústria, para a geração de empregos. Infelizmente, temos falta de ações de várias áreas, um grande conflito na questão fundiária e na falta de planejamento para áreas de conservação de biodiversidade”, critica.

O diretor do Departamento de Conservação e Manejo de Espécies do Ministério do Meio Ambiente, Ugo Vercillo, destaca que 25% das espécies ameaçadas de extinção não são cobertas por nenhuma medida de preservação. “Ampliamos as ações de conservação, como áreas de proteção e elaboração de planos nacionais de preservação de espécies consideradas ameaçadas de extinção. Estamos firmando um acordo que trará US$ 60 milhões para que 100% das espécies estejam protegidas. O lançamento deve ocorrer até o fim do ano”, promete.

Vercillo é um dos que criticam a falta de substância nos planos. “Infelizmente, temos um processo político em que as pessoas não pensam nos problemas que existem. São planos eleitoreiros.”

Os números divulgados pelo ministério fazem parte de um levantamento de 2014 — o mais atualizado. O grupo sob maior ameaça é o de peixes continentais (leia quadro). 

É possível, contudo, que esses números sejam maiores. Pesquisa divulgada na última edição da revista Plos One, publicação científica especializada, destaca que um “colapso” afeta a Mata Atlântica. Pressionada pela excessiva exploração humana, a população de mamíferos da floresta tropical foi reduzida pela metade desde o início da colonização, há cinco séculos. As principais vítimas são animais de médio e grande portes, como onças-pintadas e antas.

Os pesquisadores compararam inventários sobre a Mata Atlântica publicados nas últimas três décadas e dados sobre a biodiversidade da área na época do Brasil Colonial. A conclusão é de que a agricultura, a extração de madeira e os incêndios mitigaram drasticamente o tamanho do bioma.

As populações de mamíferos foram duramente penalizadas. Houve perdas de indivíduos em cerca de 500 espécies. “Esses hábitats estão severamente incompletos, restritos a remanescentes florestais insuficientemente grandes e presos num vórtice de extinção em aberto. Esse colapso é sem precedentes tanto na história quanto na pré-história e pode ser diretamente atribuído à atividade humana”, diz Juliano Bogoni, pesquisador de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP), que liderou o estudo.

O engenheiro florestal Cesar Victor do Espírito Santo, superintendente executivo da Fundação Pró-Natureza (Funatura), pondera que a ausência de propostas nos planos de governo é um reflexo da prioridade que a sociedade dá ao tema. “É lamentável a forma marginal que os planos de governo tratam a questão, mas a situação ambiental sempre esteve num plano secundário. Temos desafios grandes para a questão ambiental no Brasil. Historicamente, temos esforços aquém do necessário. Sempre investimos o mínimo necessário”, critica.


Projeto contra a natureza


Os 18 deputados da Assembleia Legislativa de Rondônia votaram, por unanimidade, pela extinção da reserva florestal Cujubim. Em 2017, Rondônia foi o terceiro estado da região amazônica que mais desmatou: 1.252km2, contribuindo com 19% dos desmatamentos na Amazônia Legal, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O projeto da extinção ainda precisa ser sancionado pelo governador Daniel Pereira (PSB). O secretário estadual de Desenvolvimento Ambiental, Hamilton Santiago, adiantou ao Correio que o texto será vetado.


Em risco: veja espécies ameaçadas


310 Peixes continentais
233 Aves
233 Invertebrados terrestres
110 Mamíferos
98 Peixes marinhos
80 Répteis
66 Invertebrados aquáticos
41 Anfíbios
Fonte: Ministério do Meio Ambiente


O que eles propõem

Ciro Gomes (PDT)

» Implantação das unidades de conservação já criadas no Brasil com as devidas indenizações e/ou reassentamentos e taxação à produção ilegal que reduz a sustentabilidade e piora as condições ambientais.

Eymael (Democracia Cristã)

» Proteger o meio ambiente e assegurar a todos o direito de usufruir a natureza sem agredi-la.

Geraldo Alckmin (PSDB)

» Perseguir o cumprimento das metas assumidas no Acordo de Paris.

Guilherme Boulos (PSol)

» Estabelecer princípios de atuação para empresas brasileiras no exterior, coibindo uma perspectiva puramente utilitária, predatória do meio ambiente e violadora de direitos.


Henrique Meirelles (MDB)

» Criar unidades de conservação nos arquipélagos de São Paulo e São Pedro (PE) e Trindade e Martim Vaz (ES). Programas de redução do desmatamento na Amazônia, de recuperação de nascentes e de revitalização do rio São Francisco.

João Amoêdo (Novo)

» Aumentar a coleta e o tratamento de esgoto.


João Goulart Filho (PPL)

» Rever o Código Florestal de forma que aumente a proteção do meio ambiente e garanta a produção agropecuária.


Marina Silva (Rede)

» Implementar políticas de bem-estar dos animais: os de produção, para consumo humano, de estimação, de trabalho, selvagens ou de laboratório.

Fernando Haddad (PT)

» Investir na gestão sustentável dos recursos hídricos, protegendo aquíferos e lençóis freáticos da contaminação e superexploração, recuperando nascentes, despoluindo rios e ampliando saneamento.


Não apresentam propostas: 

Alvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Jair Bolsonaro (PSL) e Vera Lúcia (PSTU).

Fonte: planos de governo registrados pelas candidaturas no TSE

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