Jornal Correio Braziliense

Brasil

Problema crônico brasileiro, desigualdade vem crescendo desde 2014

Próximo presidente terá o desafio de conter o ciclo crescente da pobreza. Estudo do Ipea aponta que, entre 29 países pesquisados, o Brasil é o quinto com a pior distribuição: o 1% mais rico fica com até 23% da renda total


Acampada às margens do Eixão Norte, na altura da 102, Edjaine Loiala, de 37 anos, vive com doações que recebe das pessoas que passam para ajudar. ;É com isso que a gente consegue viver. Tem roupa, comida;, explicou. Para cumprir com as necessidades básicas, ela lava e vigia carros nos estacionamentos no centro de Brasília, no Plano Piloto. ;Com o dinheiro, dá para comprar só o essencial para sobreviver;, disse. Edjaine está em situação de rua há três anos, mas tem expectativa de, em breve, melhorar de vida. ;Eu não vou sair da minha cidade. Quero ter uma oportunidade aqui;, declarou.

Assim como Edjaine, há mais de 100 mil pessoas vivendo nas ruas do país, segundo o último levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Dividem espaço, inclusive, com pessoas de alta renda. Em 2019, o próximo presidente escolhido nas urnas terá de conter o maior ciclo de crescimento das desigualdades sociais do país. Entre o fim de 2014 e o terceiro trimestre deste ano, o índice Gini passou de 0,5636 para 0,5915, segundo cálculos da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Quanto mais próximo de 1, pior a desigualdade. Visivelmente, a pobreza atinge tanto os grandes centros urbanos quanto as periferias.

Segundo dados mais recentes, divulgado por um estudo do Ipea, o Brasil é o quinto país com mais desigualdade do mundo. O levantamento analisou 29 países ; entre desenvolvidos e em desenvolvimento ; e mostrou que a parcela mais rica da população brasileira recebe mais de 15% da renda nacional. O 1% mais rico do Brasil concentra entre 22% e 23% do total da renda do país, nível bem acima da média internacional. A proporção do total da renda recebida pelo 1% mais rico da população ficou entre 5% e 15% em 24 dos 29 países analisados, um grupo heterogêneo que inclui Holanda e Uruguai. Junto com o Brasil, onde a concentração da renda nas mãos do 1% mais rico é o dobro da média geral, estão África do Sul, Argentina, Colômbia e Estados Unidos.

O pernambucano Valdecir Henrique de Santos, de 48 anos, vive nas ruas há 18. ;Desde que perdi meu emprego como vigia de condomínio no Lago Sul, tive que ir para as ruas;, explicou. Hoje, ele mora acampado em um campo próximo à 907 Norte, a poucos metros de uma universidade particular de elite. ;Eu trabalhava no lixão da Estrutural. Quando fechou, vim para a Asa Norte. Tem muita gente rica aqui. Conseguimos doações e pego muito lixo para reciclar e trocar em dinheiro;, explicou. Ele lamenta a dificuldade de achar emprego. ;Nunca tem vaga, nunca tem espaço para a gente;, reclamou.

;Vizinho; de Valdecir, Jeferson Matos da Silva, de 22 anos, também se encontra em situação de rua. Com machucados nas mãos e nas pernas, ele cata papelão, latinhas e tudo que pode reciclar. ;É com isso que eu vivo. Sobra muito pouco para mim, porque também pago pensão para as minhas três filhas que moram com a minha ex-mulher;, contou. A vontade dele é ter uma casa fixa para morar, onde ele possa construir uma nova família. ;Aquela família, eu já perdi. Agora é tentar de novo. Já entreguei mais de 100 currículos, mas, até agora, nada;, disse.

O pesquisador Marcelo Neri, da FGV Social, afirma que, para conter a desigualdade, é preciso que o país invista em igualdade de possibilidades ; não apenas em transferir renda, mas em políticas ligadas ao trabalho, à saúde e à educação. ;O Bolsa Família custa apenas 0,5% do PIB do país, enquanto a Previdência custa 13%. Nos últimos 30 anos, o Brasil fez muito em termos de pobreza e extrema pobreza, mas voltou a aumentar a partir de 2014;, apontou.

Segundo Neri, além de projetos sociais, é preciso levar educação de qualidade a essa parcela da população. ;Eu defendo muito a educação, dado o quadro fiscal. A reforma da Previdência é fundamental, mas deve ser muito aprimorada, para preservar melhor os mais pobres. Com a crise financeira, o Estado tem que pensar não só em dar mais governo e mais mercado às pessoas. Mas também políticas de empreendedorismo, microcrédito e políticas na esfera público-privada;.

* Estagiário sob supervisão de Roberto Fonseca