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Correio Braziliense

Rompimento da barragem de Mariana completa três anos com impasses

Pescadores formam um dos grupos mais prejudicados pela catástrofe


postado em 06/11/2018 06:00

O distrito de Bento Rodrigues, devastado pela lama de rejeitos da barragem de Fundão, da mineradora Samarco(foto: Tulio Santos/EM/D.A Press)
O distrito de Bento Rodrigues, devastado pela lama de rejeitos da barragem de Fundão, da mineradora Samarco (foto: Tulio Santos/EM/D.A Press)
Três anos após o rompimento da barragem de Mariana (MG), os danos causados pela tragédia ainda podem ser vistos e sentidos. O maior desastre ambiental da história do país continua mostrando seus impactos no Rio Doce e nas cidades mais afetadas dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Além disso, várias famílias atingidas pelo desastre continuam sem receber indenização ou auxílio.

Segundo perícia da Polícia Civil, em novembro de 2015, havia uma grande quantidade de água na barragem em vez de lama, o que tornou a drenagem do sistema insuficiente e gerou o rompimento. A barragem de Fundão, no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, pertence à mineradora Samarco, propriedade da Vale e da empresa australiana BHP Billiton. Com a destruição, um mar de lama de rejeitos de minérios vazou e atingiu mais de 40 cidades, matando 19 pessoas.

Os pescadores formam um dos grupos mais prejudicados pelo rompimento da barragem. Porém, segundo o advogado Leonardo Amarante, representante da Federação das Colônias e Associações dos Pescadores e Aquicultores do Espírito Santo (Fecopes), há muita demora nas concessões do auxílio e da indenizações. “É  pequeno (o número de pescadores que já recebeu o auxílio) em relação à quantidade de pessoas impactadas. Os acordos não chegam a 20% dos pescadores que pediram a indenização. Há dois meses, quase não se fecham novos acordos. Não pode deixar a coisa parada, é preciso melhorar a estrutura para o serviço. Nesse ritmo, vai demorar 10 anos para chegar a todos”, comentou.

A Fundação Renova, criada a partir de um acordo entre a Samarco, a União e os estados prejudicados, afirma que foram pagos cerca de R$ 1,1 bilhão em indenizações e auxílios financeiros. Segundo William Sarayeddin, gerente de Relações Institucionais da fundação, a criação da instituição é uma tentativa de dar mais celeridade aos processos, mas explica que a falta de documentação prejudica o andamento dos requerimentos. “A nossa dificuldade é na pesca informal, ou seja, pessoas que não têm documentação para provar que exerciam a atividade naquela localidade. Quando você começa a identificar os grupos ligados ao rio, mas não reconhecidos por documento, existe uma oscilação na concessão do auxílio. Mas vamos estabelecer uma forma justa para indenizar as pessoas. Não temos prazo específico para indenizar a todos, mas a estimativa é de que, até o fim de 2019, 90% das indenizações de quem já está cadastrado estejam pagas”, projeta.

A Renova paga auxílio no valor de um salário mínimo, mais 20% por dependente, e o custo de uma cesta básica. Em uma família de quatro pessoas, por exemplo, o auxílio seria em média de R$ 1717,20, mais o valor da cesta básica.

Força-tarefa

Pesquisadores de 24 universidades brasileiras se uniram em uma força-tarefa chamada Rio Doce Mar para monitorar a situação da biodiversidade aquática dos locais afetados pela tragédia. Foram recolhidas para análise amostras de água, sedimento e material biológico. Os dados serão comparados com pesquisas feitas no primeiro ano após o desastre. Para o geólogo Alex Bastos, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), a contaminação varia de acordo com os períodos de chuva. “Nos dois primeiros anos, houve um aumento enorme no teor de metais na água marinha, o pescado estava muito contaminado. Depois, os índices diminuíram, mas ainda existem flutuações. No período da seca, a tendência é de que os teores de metais diminuam. Isso mostra que ainda há rejeito nas margens do Rio Doce. Quando chove, esses rejeitos voltam a contaminar”, explicou.

De acordo com o oceanólogo Adalto Bianchini, da Universidade Federal do Rio Grande, a contaminação demora para se dissipar, porque os metais não são destruídos. “A partir de 2017, aumentou a contaminação de ferro, manganês e cádmio, mas pela dieta, pelo acúmulo de alimentação. Os metais não são destruídos, permanecem e se transferem de um organismo para o outro”, disse o professor. Segundo especialistas, a biodiversidade está longe de voltar ao que era antes do rompimento. Para isso, seria necessário o manejo dos rejeitos presentes nas margens do rio.

A jornalista Cristina Serra lançará neste mês um livro-reportagem sobre a tragédia. Segundo especialistas entrevistados por ela, “O Rio doce está na UTI”. 

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