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Correio Braziliense

Ao desistir de sediar COP-25, Brasil pode perder chances de investimentos

Depois do esforço de um ano para firmar a candidatura, Itamaraty alega "dificuldade orçamentária" para abrir mão do evento. Para especialistas, com a decisão, país abdica de papel relevante no mundo e sinaliza falta de comprometimento com o tema


postado em 29/11/2018 06:00

A poluição industrial é uma das principais causadoras das mudanças climáticas. Diversas nações são signatárias do acordo que pretende evitar a elevação da temperatura global(foto: AFP / GREG BAKER )
A poluição industrial é uma das principais causadoras das mudanças climáticas. Diversas nações são signatárias do acordo que pretende evitar a elevação da temperatura global (foto: AFP / GREG BAKER )


Ao abrir mão de sediar a Conferência do Clima das Nações Unidas de 2019, a COP-25, o Brasil deixará de receber um público estimado em 30 mil pessoas, incluindo chefes de Estado, diplomatas, tomadores de decisões e cientistas. Nesse contingente, incluem-se empresários que visitam o evento de olho em oportunidades de investir em estratégias sustentáveis nos setores agropecuário, tecnológico, industrial e de energia, entre outros. Alegando “dificuldades orçamentárias”, o Itamaraty comunicou à ONU a desistência da candidatura, pela qual lutou durante um ano, período em que o Ministério das Relações Exteriores se dedicou a convencer os países da América Latina — a quem cabe a sede da COP na próxima edição — a aprovar a candidatura. A Venezuela se opunha, mas, depois de muita costura diplomática, aceitou a indicação.

O comunicado enviado às Nações Unidas afirma que o país “se viu obrigado” a desistir da COP por “restrições fiscais e orçamentárias”. Durante a campanha eleitoral, o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), chegou a dizer que o Brasil sairia do Acordo de Paris, um conjunto de compromissos que tentam evitar que a temperatura suba mais do que 2ºC até 2100, tendo como base os níveis pré-industriais. Desde 1992, quando sediou a primeira conferência climática no âmbito da ONU, a Eco-92, o país destaca-se na liderança do bloco das nações em desenvolvimento e é uma das vozes mais respeitadas durante as negociações.

Há três semanas, o Correio adiantou que o governo poderia retirar a candidatura, dada como certa, à conferência. Depois do anúncio do futuro chanceler, embaixador Ernesto Fraga Araújo, em 14 de novembro, cientistas e organizações não governamentais destacaram que essa era uma possibilidade ainda maior, pois Araújo nega a existência de mudanças climáticas por ações humanas, e considera o tema um “dogma da esquerda”.

Para André Ferretti, gerente de Economia e Biodiversidade da Fundação Boticário e coordenador-geral do Observatório do Clima, a decisão de não sediar a COP é uma sinalização negativa do comprometimento brasileiro com uma questão mundial. “Nossa esperança é de que o presidente volte atrás, como já fez outras vezes, e isso possa ser revertido. Se não, a sensação é de que perdemos uma grande oportunidade de desenvolvimento e que o nosso país dá um mau sinal para o mundo”, afirma.

Interesse

Ferretti destaca que o governador eleito do Paraná, Ratinho Junior (PSD), e empresários do estado sulista manifestaram interesse em sediar a COP em Foz do Iguaçu e financiar a organização da conferência. “A COP traz uma grande feira de negócios ao país-sede, o Brasil poderia ser uma vitrine. São 30 mil pessoas com foco em produtos de baixo carbono, sendo que o país tem altíssimo potencial. No setor agropecuário, por exemplo, tem um dos maiores potenciais mundiais para produzir alimentos de baixo carbono. A COP não é uma reunião de meio ambiente, mas um evento de desenvolvimento, onde se discutem padrões de tecnologia das quais o mundo vai precisar para mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, destaca.

Em nota, o Observatório do Clima, uma rede de instituições e cientistas climáticos, destacou que o recuo do governo é “lamentável, mas não surpreende”. “O Brasil vai, assim, abdicando de seu papel no mundo numa das poucas áreas onde, mais do que relevante, o país é necessário: o combate às mudanças do clima. Ironicamente, isso ocorre por ideologia, algo que o presidente eleito e seu chanceler prometeram ‘extirpar’ da administração pública. Com o abandono da liderança internacional nessa área, vão-se embora também oportunidades de negócios, investimentos e geração de empregos. Ao ignorar a agenda climática, o governo federal também deixa de proteger a população, atingida por um número crescente de eventos climáticos extremos”.

O deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), presidente da Frente Parlamentar Ambientalista, afirma lamentar a decisão, em um momento no qual o Brasil “estava se tornando referência no mundo, sobretudo considerando a riqueza que representa a Amazônia e como ela é estratégica para a preservação do clima do planeta”. Ele também destaca as perdas de investimentos em potencial. “Com isso, o país perde oportunidade de negócios, de geração de emprego e de oferecer para o mundo um modelo de desenvolvimento sustentável. Quem perde com isso é o mundo mas, sobretudo, o Brasil.”


"Nossa esperança é de que o presidente volte atrás, como já fez outras vezes, e isso possa ser revertido. Se não, a sensação é de que perdemos uma grande oportunidade de desenvolvimento e que o nosso país dá um mau sinal para o mundo”
André Ferretti, coordenador-geral do Observatório do Clima

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