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Correio Braziliense

Transplante de órgãos no DF cai desde 2013; recusa familiar é alta

Transplantes de órgãos no Distrito Federal diminui de 2013 para cá, e recusa familiar se mantém alta no Brasil. O Correio conta as histórias de pessoas que passaram pelo processo e de outras que sofrem em filas aguardando uma cirurgia capaz de prolongar a vida


postado em 24/12/2018 06:00 / atualizado em 23/12/2018 22:20

Joana D'Arc era contra a doação e o transplante. Depois da cirurgia que lhe devolveu a visão, ela se sente abençoada(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Joana D'Arc era contra a doação e o transplante. Depois da cirurgia que lhe devolveu a visão, ela se sente abençoada (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

“Eu sabia que não conseguiria viver nem mais alguns dias. Então, pedi para me tirarem da internação, porque queria morrer ao lado do meu marido e do meu filho. Já estava descrente. Foi quando o médico pegou na minha mão e disse: ‘Acalme-se. O seu coração está a caminho’”. Graças à doação de órgão feita por uma família do Paraná, a vida de Elaine Gomes, 42 anos, mudou completamente. Histórias de renascimento como a dela, porém, têm sido menos comuns no Distrito Federal, que já foi referência em doação de órgãos (veja Memória). Desde 2013, o número de operações do tipo têm diminuído e alertado para a necessidade do gesto de caridade. Segundo os Registros Brasileiros de Transplantes, de janeiro a setembro de 2013 e do mesmo período de 2018, a quantidade de órgãos transplantados na capital passou de 30,1 por milhão de população para 18,4. Comparado com os outros estados, a capital caiu do primeiro para quarto lugar.

Além da menor quantidade de transplantes feitos no DF, o cirurgião do aparelho digestivo André Watanabe, coordenador da equipe de transplante de fígado do Hospital Brasília, relata que, agora, os órgãos estão vindo de longe. “Antigamente, 60% dos doadores de fígado eram daqui mesmo. Era muito mais fácil e mais barato, não precisava deslocar uma equipe, com aeronave da Força Aérea. Hoje, 70% dos órgãos vêm de fora”.

O tempo despendido no trajeto também interfere no procedimento por causa do tempo de isquemia (intervalo entre a retirada do órgão e o transplante). Segundo Watanabe, 90% dos órgãos vêm de hospitais públicos e, para ele, houve uma piora nos processos, desde a realização de protocolos de morte encefálica à manutenção do doador até a abordagem da família. “Até que se chegue ao doador efetivo, existe um processo de confirmação da morte encefálica. Dois exames devem ser feitos por médicos especialistas. Depois, vem a conversa com a família, que acabou de perder uma pessoa, geralmente jovem e por acidente. Se tudo isso não for muito organizado, cai a quantidade de doadores efetivos”.

A Secretaria de Saúde do DF explicou, em nota, que o trabalho de captação de órgãos para transplante é constante e que o esforço do serviço se reflete em bons números diante do cenário nacional. A capital está em quarto lugar em termos de transplantes. Em 2013, estava em primeiro. Para 2019, a pasta planeja “a elaboração de um Plano Distrital de Transplante, além da oferta de cursos para os profissionais envolvidos, visando à capacitação das equipes para manejo do potencial doador e para potencializar o número de notificações de morte encefálica”.


Recusas


A recusa familiar na capital se mantém estável. De 42%, em 2013, passou para 41% este ano. Não está entre os locais onde mais se nega doação, mas ainda é muito alta. O Paraná é onde menos famílias negam a doação de órgãos de parentes, com apenas 27% de recusa, seguido de São Paulo e Ceará, ambos com 36%. Mato Grosso, Roraima, Piauí, Paraíba são os estados que tiveram as taxas mais altas de recusa familiar, com 85%, 75%, 73% e 69%, respectivamente. A  Secretaria de Saúde aconselha:  quem quer ser doador deve conversar com a família sobre o desejo. 

A agente de educação Joana D’Arc, 54, já deixou claro para a família que, se possível, quer ter os órgão doados, mas não foi sempre assim. Joana já foi contra a doação e o transplante de órgãos. Diagnosticada com glaucoma, depois de dores de cabeça frequentes, o processo de aceitação do transplante de córnea não foi fácil, apesar de os médicos e da família recomendarem fortemente.  “Eu achava que deveríamos viver e morrer como Deus nos colocou no mundo”.

No ano passado, a doença piorou. “Quando as coisas começaram a apertar, aceitei o transplante. Mas me preocupava com quem seria o doador, se seria alguém de índole ruim”, relembra. Para a sorte dela, as preocupações se dissiparam quando descobriu que o doador era uma criança de 6 anos. Não há um dia em que Joana não agradeça em orações e pensamentos. Até chora. Lamenta não conhecer a família para agradecer pessoalmente. Em especial no Natal, ela relembra de momentos cruciais da sua saúde — como quando teve um aneurisma e um AVC — e se sente abençoada por ter superado tudo.

À espera de um rim 

Maria do Perpétuo Socorro, que está na fila por um rim há 4 anos:
Maria do Perpétuo Socorro, que está na fila por um rim há 4 anos: "Eu sonho com o dia que vão me ligar e dizer: 'Você precisa estar no hospital em, no máximo, duas horas'" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)


Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, há, atualmente, 30 mil pessoas na fila de espera por um órgão. O presidente da Associação, Paulo Pego, explica que o número é pequeno para um país com 210 milhões de habitantes. “Tudo nos leva a crer que há uma demanda oculta. À medida que os transplantes forem feitos com mais frequência e em vários estados, maior a fila deve ficar, porque muita gente não chega nem a ser diagnosticado com a necessidade de uma cirurgia”, afirma. Para ele, o processo precisa se tornar mais conhecido e as pessoas precisam confiar no sistema e no diagnóstico. 

A servidora pública Maria do Perpétuo Socorro, 47, está na fila para um transplante de rim há 4 anos. Há 10, ela teve o primeiro problema renal e foi diagnosticada com rins policísticos, doença crônica, sem cura, que ocasiona falência por volta dos 60 anos. Desde então, já foi informada que, um dia, precisaria de um rim novo. Em 2014, ela entrou para a espera de transplantes e começou a fazer hemodiálise diariamente por duas horas. No ano passado, aposentou-se por conta da saúde. Na última semana, a hemodiálise passou a ser feita apenas três vezes, mas dura o dobro do tempo. “Fazendo todo dia, eu saía de lá e ia resolver coisas da vida. Agora, eu fico mal e só melhoro no dia seguinte”, reclama.

Maria tenta ignorar que está em uma lista de transplante para não ficar ansiosa. “Eu sonho com o dia que vão me ligar e dizer: ‘Você precisa estar no hospital em, no máximo, duas horas’”. A paciente, porém, lamenta: “Tenho a impressão de que, há um tempo, a cada dois meses, alguém conseguia. Este ano, não lembro de ninguém”. Ela conhece quem esperou 10 anos. Encara com leveza e brinca: “Só faltam mais seis pra mim”. Não viaja mais do que três dias, mas não se incomoda. Tem amigas que, para viajar, marcam em clínicas nas cidades que visitam. Ela nunca quis fazer o mesmo. Há dias piores: qualquer dor de garganta nela é mais debilitante por causa do sistema imunológico mais frágil. Às vezes, um cisto se rompe, causando dor e exigindo internação. Mas, no geral, aguarda com paciência e bom humor. Agora, vai lutar para voltar a fazer hemodiálise diariamente.

 

História de motivação

 

Elaine Gomes, transplantada de coração e que hoje ajuda outras pessoas por meio das redes sociais:
Elaine Gomes, transplantada de coração e que hoje ajuda outras pessoas por meio das redes sociais: "Sou muito grata a essa família. A gente sabe que perder alguém dói muito. E tomar essa decisão é uma prova de amor" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)


O diagnóstico de Elaine Gomes, 42 anos, veio em 2004, quando, em um exame de rotina, descobriu ser portadora da Doença de Chagas, herdada dos pais que sofreram com a enfermidade durante a vida toda. A doença, porém, não fez a brasiliense parar. Sorridente e comunicativa, trabalhou até 2006 como gerente de um clube social de Brasília. Então, veio o primeiro impasse: aos 28 anos, passou a sofrer com cansaço constante e com a vista embaçada. Ela se aposentou por invalidez em 2006 e, em 2008, começou a passar mal novamente. No ano seguinte, fez o implante de marca-passo. Mas nada a desanimava.

Tanto que, depois de 15 anos formada no ensino médio, resolveu cursar uma faculdade. Porém, a rotina corrida de mãe, estudante, estagiária, esposa e dona de casa abalou a imunidade. Foi quando apareceram os sintomas de insuficiência cardíaca. “Vieram de uma vez e me derrubaram. Não conseguia dormir deitada nem tomar banho sozinha. Comecei a ficar fraca. Em 2015, soube pelo médico que precisaria de um transplante”. Elaine foi alocada no Instituto de Cardiologia do DF, que chama de “segunda casa”, e entrou na fila. “Colocaram-me em prioridade nacional porque meu coração ocupava 75% da minha caixa toráxica.”

Para Elaine, a internação foi o pior momento. A felicidade deu lugar à tristeza, o sorriso foi amarrado, a esperança foi se tornando impaciência. “Queria morrer ao lado do meu marido e do meu filho. Já estava descrente. Nesse momento, o médico pegou na minha mão e disse: ‘Elaine, acalme-se. O seu coração está a caminho’”. O órgão veio de um jovem de 26 anos, do interior do Paraná. “Sou muito grata a essa família. A gente sabe que perder alguém dói muito. E tomar essa decisão (de doar os órgãos) é uma prova de amor. É o verdadeiro amor fraterno”, conta.

A história singular serve de motivação para diversas famílias. Elaine, que se sentiu abraçada por tantas pessoas, resolveu contar sua luta e superação, além de relatos de amigos, nas redes sociais. Ela criou uma conta no Instagram (@soutransplantada) e lá conscientiza outras pessoas. Também utiliza o WhatsApp,  no grupo “Amigos do Coração”. O que eram quatro membros, hoje, são mais de cem. 


Tipos de doadores


Há dois tipos de doadores: o vivo e o falecido. O primeiro pode ser qualquer pessoa, desde que não prejudique a própria saúde. Ele pode doar um dos rins, uma parte do fígado, da medula óssea ou do pulmão. Pela lei, parentes até o quarto grau e cônjuges podem ser doadores. Não parentes, só com autorização judicial. O segundo, mais comum, porém em queda, são pacientes com morte encefálica comprovada. Nesse caso, é a família quem deve autorizar ou não a doação.
 
* Estagiário sob a supervisão de Leonardo Meireles
 

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