Publicidade

Correio Braziliense

Facções criminosas mantêm ataques em Fortaleza e cidades do interior

Especialistas recomendam ofensiva contra as finanças das gangues no Ceará


postado em 09/01/2019 06:00 / atualizado em 09/01/2019 10:16

Ônibus da PM no Complexo Penitenciário de Itaitinga: governo estadual reafirma política dura com os líderes do crime organizado(foto: José Cruz/Agência Brasil)
Ônibus da PM no Complexo Penitenciário de Itaitinga: governo estadual reafirma política dura com os líderes do crime organizado (foto: José Cruz/Agência Brasil)

A onda de violência no Ceará completa hoje uma semana sem sinal de solução na capital, Fortaleza, e em 38 cidades. Até o fim da tarde de terça-feira (8/1), a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social contabilizava 185 prisões — incluindo 29 adolescentes apreendidos —, mas os ataques de facções criminosas continuavam, em especial contra os ônibus. Ao menos quatro foram incendiados na madrugada, na capital, e as empesas do transporte público chegaram a recolher a frota, mas os veículos voltaram a circular no fim da manhã, em quantidade reduzida, evitando os locais de risco. Mais de 300 agentes da Força Nacional de Segurança foram enviados para o estado e aguardam a chegada de reforços que elevarão o efetivo para 406.

Ainda na madrugada, criminosos tentaram explodir uma ponte no município de Caucaia. O artefato danificou parte do piso e abriu um buraco. Carros de uma companhia de eletricidade e de uma autoescola foram incendiados. Em Fortaleza, caminhões de limpeza circularam escoltados para recolher o lixo, que se acumula pelas ruas.

No Twitter, o presidente Jair Bolsonaro pediu união das autoridades de várias esferas para enfrentar o desafio da segurança pública no país. “Presidente, governadores, prefeitos, deputados federais, estaduais, vereadores e Judiciário têm de ser cobrados para que dias melhores aconteçam quanto à segurança pública! Agir em conjunto, sem jogo de empurra, é um grande passo para dar a resposta que os brasileiros tanto pedem.”

Por meio das redes sociais, o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), informou que mais suspeitos estão sob investigação e novas prisões poderiam ser feitas. “Estamos reforçando ainda mais o policiamento na capital e no interior, com o apoio de tropas federais e estados parceiros. Determinei à cúpula da segurança que empregue todos os esforços necessários. Lideranças criminosas estão sendo identificadas e as transferências para presídios federais estão em curso. Não haverá tolerância com o crime”, prometeu. O Ministério da Justiça e Segurança Pública disponibilizou 60 vagas para detentos do Ceará nas prisões de segurança máxima administradas pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen).

Ver galeria . 9 Fotos ALEX GOMES/AFP
(foto: ALEX GOMES/AFP )


Desde quarta-feira da semana passada, foram registrados mais de 150 ataques contra veículos, prédios públicos e comércios. Atribuídos a facções criminosas como o Comando Vermelho (CV) e os Guardiões do Estado (GDE), os crimes teriam sido motivados pelo anúncio do secretário de Administração Penitenciária, Luís Mauro Albuquerque, de que endurecerá as regras no sistema prisional do estado.

Economia

Segundo o criminalista Daniel Leon Bialski, é necessário concatenar medidas para restabelecer a ordem pública. Ele critica a ação do governo em relação ao reforço policial. “Não adianta mandar reforço sem que a crise esteja devidamente mapeada. Não teve um estudo prévio”, analisa. “Tem que ter uma estratégia de como agir, onde agir. É uma guerra do crime contra a polícia. Tem que tomar cuidado para que não se estenda e atinja inocentes”, observou. Bialski chama a atenção para o combate econômico à facções criminosas. “Tem que mitigar as contas, descobrir quem são os laranjas, os titulares e quem movimenta.”

A advogada constitucionalista Vera Chemim também defende o rastreamento de recursos financeiros dos criminosos. Ela considera impossível eliminar totalmente as facções e afirma que o foco do governo deve estar em neutralizar as suas operações. “De imediato, a solução é o uso das Forças Armadas. É uma crise aguda. Mas é preciso saber a origem do dinheiro e cortar essa fonte. A partir daí, vai enfraquecer. Tem que ser uma política pública de inteligência. Tentar eliminar é política burra: a palavra-chave é neutralizar.”

Além disso, ela ressalta o papel do Estado em agilizar ações no campo da educação e do trabalho para comunidades vulneráveis. “Cortando a verba. eles não terão recursos para para influenciar comunidades. Na maioria, em razão da omissão do Estado em setores como educação e saúde, são as facções que fazem esse papel. Mas, em troca, elas pedem o silêncio e outros tipos de ajuda. É preciso agilizar ações em educação, dar aos pobres acesso ao ensino e facilitar a entrada no mercado de trabalho”, avalia.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade