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Correio Braziliense

Autoridades tinham conhecimento do risco de rompimento em Brumadinho

Trabalho árduo de tentar localizar sobreviventes e de remover corpos das vítimas aumenta a apreensão das famílias. Autoridades tinham conhecimento do risco de rompimento na região. Para Ministério Público, é preciso garantir que indenizações não demorem


postado em 27/01/2019 08:00

(foto: Mauro Pimentel/AFP)
(foto: Mauro Pimentel/AFP)


Brumadinho — Pouco mais de 24 horas depois de a notícia do rompimento de barragem na Mina do Córrego do Feijão estarrecer o país, que ainda tenta entender como um desastre desse tipo se repetiu, o número de mortos confirmados já era quase o dobro do registrado na tragédia de Mariana, em 2015, quando morreram 19 pessoas. O Corpo de Bombeiros localizou, até a noite de ontem, 34 corpos. Há 251 desaparecidos, considerando apenas os funcionários da Vale, responsável pela área de mineração. A médica Marcelle Porto Cangussu, que completou 35 anos na quinta-feira e trabalhava na Vale, foi a primeira identificada. Ao menos 23 vítimas estão hospitalizadas. A indignação nacional aumentou quando o conteúdo de uma reunião do Conselho Estadual de Política Ambiental sobre licenciamento para a barragem foi revelado.

O órgão foi alertado em 11 de dezembro sobre os riscos de rompimento da área de contenção, durante uma tensa discussão na sede da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, com manifestação contrária da comunidade local por causa de possíveis abalos. Representantes do governo mineiro e das empresas aprovaram, por 8 votos a 1, com 1 abstenção, licença para dar continuidade às operações da Vale na Mina Córrego do Feijão. A Justiça de Minas bloqueou ontem mais R$ 5 bilhões da Vale para despesas ambientais, após uma ação cautelar protocolada pelo Ministério Público Estadual. O Ibama multou a empresa em R$ 250 milhões.

O procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, Antônio Sérgio Tonet, disse ontem que o objetivo do Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) é que os reparos não se arrastem em processos longos na Justiça, garantindo que as vítimas e pessoas lesadas pelo acontecimento sejam indenizadas o mais rápido possível. “Independentemente desse trabalho, que agora é coercitivo, nós vamos buscar a responsabilização integral e vamos cobrar da empresa, não só em juízo. Vamos tentar buscar resultados administrativamente”, afirmou, em Confins. A Vale apresentou, ao fim de novembro de 2018, uma petição atestando a segurança da barragem, com laudos e uma perícia de uma empresa externa. Mas, para Tonet, isso merece mais investigação, já que a estrutura cedeu. “Nós vamos buscar também, junto à Polícia Civil, uma responsabilidade criminal. Vamos provar que alguém errou, e já temos essa prova que vamos compartilhar”, destacou.

"Difícil estar diante de todo esse cenário e não se emocionar. Faremos o que estiver ao nosso alcance para atender às vítimas, minimizar danos, apurar os fatos, cobrar justiça e prevenir novas tragédias, como as de Mariana e Brumadinho, para o bem dos brasileiros e do meio ambiente", afirmou Jair Bolsonaro, presidente da República (foto: Isac Nóbrega/PR)


Em 2016, o MP-MG ajuizou ação para proibir o Estado de licenciar barragens de mineração com “tecnologia assassina”, como definiu a construção de barragens pelo método de alteamento para a montante. Segundo o documento, a utilização da tecnologia em empreendimentos minerários no estado, considerada ultrapassada por especialistas e um dos fatores que geraram a fragilidade e o consequente rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, ocorria em 37 barragens mineiras, inclusive em Brumadinho. Na ação, o MP-MG ressalta que a construção de barragens seguindo essa técnica é, entre outras disponíveis, a que gera menos custos para o empreendedor, mas, ao mesmo tempo, a que implica mais riscos de rompimento e, consequentemente, de danos ambientais e sociais. “O mecanismo causou a ruptura de, pelo menos, quatro barragens: de Fernandinho (Itabirito), de Macacos (Nova Lima), a B1, da Herculano Mineração (Itabirito) e do Fundão (Mariana)”, aponta laudo do Centro de Apoio Técnico (Ceat) do MPMG.

A ansiedade em busca do nome de parentes e amigos na lista dos resgatados aos poucos se transformou em desespero para centenas de pessoas em Brumadinho. Os balanços da Defesa Civil e dos Bombeiros eram divulgados de hora em hora junto com informações das equipes de resgate que trabalhavam na área afetada pelo rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão. O relato de que vários funcionários ficaram soterrados pela lama dentro de um ônibus deixou vários parentes agoniados. “Encontramos um ônibus com corpos dentro. Todos estão mortos. Era um veículo que transportava funcionários da empresa”, contou o porta-voz dos bombeiros, Pedro Aihara. O veículo estava em local de difícil acesso.

Apesar do pedido para que as pessoas em busca de informação ficassem no Centro do Conhecimento, um espaço da Vale onde foi montada estrutura de alimentação e com psicólogos para atender familiares e amigos de vítimas, muitos passaram o dia na porta do Gabinete de Crise, na porta da faculdade. A movimentação de helicópteros foi constante ao longo do dia, com 14 aeronaves atuando no resgate das vítimas. Após a confirmação de mais mortes e desaparecidos, o desespero aumentou para aqueles que esperavam alguma informação. “Meu cunhado foi fazer exame admissional ontem. A última vez que ele visualizou mensagens foi às 12h14, depois, não atendeu telefone nem olhou o celular. Ainda não temos informação nenhuma sobre ele”, contou Daniele Cristina Araújo.

A Advocacia-Geral da União (AGU) ajuizou medida cautelar de urgência para que as empresas de telefonia forneçam a relação de assinantes dos celulares que estavam conectados às estações de radiobase (ERBs) que atendem às imediações da Mina de Córrego de Feijão entre a meia-noite de quinta-feira e a madrugada de ontem, num raio de 20 quilômetros do epicentro da tragédia. O pedido visa facilitar a identificação de pessoas que possam estar desaparecidas no local. As empresas informaram que vão fornecer as informações.

Por volta das 11h30, um alerta assustou a todos na área da tragédia, após equipes de resgate pedirem socorristas para evacuarem a área, devido à suspeita de rompimento em outra barragem da Vale. Segundo o coronel Almeida, dos Bombeiros, o alarme foi apenas um boato. “A barragem 6 da Mina está sendo drenada para evitar que aconteça um novo rompimento. Os engenheiros da empresa junto com os bombeiros fizeram um trabalho para dar vazão à água dessa barragem, de forma controlada”, disse coronel Almeida.

O presidente Jair Bolsonaro, que esteve em Minas para sobrevoar a área devastada ao lado do governador de Minas, Romeu Zema, publicou em sua conta no Twitter que o governo busca reduzir o sofrimento das vítimas e os riscos de novos acidentes. “Difícil estar diante de todo esse cenários e não se emocionar. Faremos o que estiver ao nosso alcance para atender às vítimas, minimizar danos, apurar os fatos, cobrar justiça e prevenir novas tragédias, como as de Mariana e Brumadinho, para o bem dos brasileiros e do meio ambiente”. Zema afirmou que “os protocolos e a legislação terão de ser revistos, porque essa barragem que rompeu era inativa, há anos que não recebia mais nenhum tipo de material. Vai ser necessário rever protocolos, porque não podemos ficar sujeitos a que esse tipo de coisa ocorra novamente”.

34 
corpos foram encontrados até sábado (26/1)

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