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Correio Braziliense

"Aposentadoria" de barragem pode ter sido gatilho para rompimento

A mineradora voltou a afirmar que a barragem tinha declarações de estabilidade, %u201Cemitidas em 13/6/18 e em 26/9/18"


postado em 27/01/2019 08:00 / atualizado em 27/01/2019 00:14

Moradores vasculham estabelecimento comercial: outras áreas no estado causam preocupação(foto: Mauro Pimentel/AFP)
Moradores vasculham estabelecimento comercial: outras áreas no estado causam preocupação (foto: Mauro Pimentel/AFP)

Os trabalhos para a “aposentadoria” da Barragem I da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, podem ter contribuído para o rompimento. Por meio de nota, a Vale afirmou que estava “em desenvolvimento o projeto de descomissionamento da mesma”, ou seja, de desativação. No fim do ano passado, a Vale recebeu licença para o reaproveitamento dos rejeitos no local e para o encerramento das atividades. Na avaliação de especialista, essa é mais uma de várias outras tragédias a que Minas Gerais vai assistir nos próximos anos. A grande preocupação agora é com as áreas minerárias de Congonhas, na Região Central do estado.

De acordo com a Vale, a barragem tinha como finalidade a deposição de rejeitos provenientes da produção. “A mesma estava inativa (não recebia rejeitos), não tinha a presença de lago e não existia nenhum outro tipo de atividade operacional em andamento”, afirma a nota. Ainda de acordo com a empresa, a barragem foi construída em 1976, pela Ferteco Mineração (adquirida pela Vale em 27 de abril de 2001), pelo método de alteamento a montante. Trata-se de um método em que vários degraus são erguidos contra o talude ou contra a parede da estrutura que dá sustentação à barragem, à medida que a quantidade de rejeitos aumenta. A altura da barragem era de 86 metros, o comprimento da crista, de 720 metros. Os rejeitos dispostos ocupavam área de 249,5 mil metros quadrados, e o volume disposto era de 11,7 milhões de metros cúbicos.

A mineradora voltou a afirmar que a barragem tinha declarações de estabilidade, “emitidas em 13/6/18 e em 26/9/18, referentes aos processos de Revisão Periódica de Segurança de Barragens e Inspeção Regular de Segurança de Barragens, respectivamente”. Acrescentou que o local tinha “fator de segurança de acordo com as boas práticas mundiais e acima da referência da norma brasileira. Ambas as declarações de estabilidade mencionadas atestam a segurança física e hidráulica da barragem”. E que passava por inspeções de campo quinzenais. A mineradora ainda não sabe dizer os motivos para o ocorrido.

Professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) e de pós-graduação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o engenheiro hidráulico Carlos Barreira Martinez disse que é arriscado falar na hipótese, mas que é possível sim, que o processo de descomissionamento tenha sido gatilho para o desastre. “Quando passa com caminhões em área que contém mistura de água e rejeito muito fino de minério, somado à sobrecarga, causa a liquefação do material e pode funcionar como gatilho para desestabilização e rompimento estrutural. Mas, tudo tem de ser investigado”, ressaltou.

Outro ponto grave considerado pelo engenheiro é o fato de o escritório estar localizado embaixo da barragem. “É um potencial de dano enorme. Como a empresa coloca os funcionários embaixo de tudo? É uma arapuca. Puxou o gatilho, a arapuca cai”, afirmou.

Para o especialista, duas atitudes poderiam diminuir os riscos. A primeira seria ter seguido a Lei de Segurança de Barragens; e a segunda, ter colocado o Exército para participar do processo de segurança, inclusive na fiscalização.

Passivo

O engenheiro hidráulico e professor Carlos Barreira Martinez estima situações ainda piores do que a que aconteceu em Brumadinho. “Não vai mudar. Vamos ter acidente muito pior daqui a dois ou três anos. Temos centenas de estruturas com problemas no país e estamos criando um passivo atrás do outro. E o grande passivo na área de mineração está em Minas Gerais.”
 

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