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Correio Braziliense

Familiares de desaparecidos sofrem enquanto esperam listas de sobreviventes

Além disso, familiares reclamam de informações desencontradas ao tentar descobrir para quais hospitais foram enviados as vítimas


postado em 27/01/2019 08:00 / atualizado em 27/01/2019 00:13

Além das mortes de pessoas, moradores de áreas afetadas pela lama da barragem se queixam do dano ambiental, e temem que doenças se espalhem(foto: Mauro Pimentel/AFP)
Além das mortes de pessoas, moradores de áreas afetadas pela lama da barragem se queixam do dano ambiental, e temem que doenças se espalhem (foto: Mauro Pimentel/AFP)

Brumadinho — Meio-dia, Centro de Apoio às Famílias. Depois do impacto da notícia do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, no início da tarde de sexta-feira, os familiares de desaparecidos aguardam a lista das pessoas que não responderam aos contatos das autoridades e da Vale, empresa responsável pela mina. A angústia, estampada no semblante de cada mãe, pai e irmão, aumentou quando um funcionário da empresa avisou que o horário da divulgação não seria cumprido. Um princípio de confusão se formou.

Com duas horas de atraso, as autoridades, enfim, divulgaram a lista. A partir daí, a comoção tomou conta do espaço improvisado na Região Central de Brumadinho. Várias famílias confirmaram o desaparecimento de seus parentes e precisaram ser abraçadas por uma corrente de voluntários. Médicos cuidavam das pessoas que constantemente passavam mal, psicólogos atendiam em outro espaço e até defensores públicos auxiliavam em questões jurídicas.

A alguns quilômetros dali, no vilarejo do Córrego de Barro, uma família consternada também aguardava pela lista e por notícias na casa de Dona Conceição, de 84 anos. Ela não tinha informações sobre três netos, sobre o marido de uma das netas, além de outros dois parentes. “E eu pensando que seria a minha hora...”, disse Conceição, lamentando as ausências.

Maria Aparecida Almeida Rocha, uma das filhas de Conceição, esperava algum sinal do filho, o geólogo Luciano Almeida Rocha, de 39 anos, e do genro, André Luiz dos Santos, de 34. “É um vale de lágrimas”, lamentava, ao lado do marido, Adair Mendes Rocha.

Na casa, os primos se revezam no telefone em busca de alguma informação, de algum destino. “Desde 12h30 de sexta até agora, só angústia. Só tristeza. Até agora, notícia nenhuma. Só pelo telefone. Um fala uma coisa, outro põe outra. Fala que estava no hospital, no João 23, depois em Sarzedo, no Mater Dei de Betim. Procuramos e nada”.


Prejuízo


Além da tragédia humana, os reflexos ambientais também causam angústia nos moradores, especialmente aos que estão na beira do Rio Paraopeba. À reportagem, o aposentado José Moreira, de 61 anos, mostrou como seus pés de goiaba foram atingidos pelo mar de lama. Ele ainda expressou preocupação com contaminação e possíveis enchentes.

“A gente já espera as contaminações que vão vir pela frente. Os pés de goiaba acabaram, os peixes todos acabaram. Não existe mais peixe no Rio Paraopeba. Agora, o futuro que vai dizer. A sensação é de destruição”, lamentou.

“Esse barulho que estamos ouvindo agora, desde o rompimento, só aparecia quando estava chovendo, porque aí o Rio Paraopeba sobe. Meu medo agora é dar enchente, porque vai assorear o rio. Com essa lama, vai gerar doenças, principalmente as de rato, que são as mais perigosas”, complementou o fazendeiro, preocupado com o futuro.

No meio de um turbilhão de emoções, a voluntária Simone Esteves tentava consolar uma das dezenas de famílias que se juntaram desde sexta-feira no centro de apoio, montado próximo à Unidade de Pronto Atendimento de Brumadinho. Ao saber do desastre do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, ela, Laura e Juliano Colombini (pai e filha) saíram de Nova Lima para consolar espiritualmente as vítimas.

“Num momento desses, eles estão entregues a um abraço, a uma palavra de conforto, oração. Eles querem apenas abraçar e chorar, desabar em lágrimas”, conta Simone. Os três fazem parte da pastoral da acolhida da comunidade do Bom Jesus do Vale.

Ter fé na vida é a rotina de quem espera desde sexta-feira a atualização da lista de desaparecidos. A cada nova lista, pais, mães, esposas, filhos saem em prantos. Alguns desmaiam, outros tentam recobrar o fôlego nas cadeiras, consolados por voluntários identificados por uma placa improvisada de “posso ajudar?”. Camisas com a escrita “fé” e terços nas mãos estão por todos os lados.

Antes de servir o almoço, um dos voluntários organizou um círculo e, de mãos dadas, todos rezaram o Pai-Nosso e uma Ave-Maria. “Que nós não percamos nossa fé”, disse, ao encerrar a oração. No salão barulhento e com grande fluxo de pessoas, as famílias experimentaram um raro momento de silêncio, paz e conforto.
 

Novo risco preocupa

 
Mesmo com a tragédia em Brumadinho, as autoridades e a Vale demonstram preocupação com o rompimento da outra barragem que fica no local. A Barragem 6 é formada por água com capacidade de 1 milhão de metros cúbicos. O ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Henrique Canuto, colocou como prioridade o monitoramento da estrutura pela Defesa Civil para checar sua estabilidade.

“Vamos melhorar procedimentos para evitar nova tragédia humana”, afirmou o ministro. Uma nova ruptura na região deve criar um dano ainda maior para o meio ambiente.  A Vale informou que está realizando a drenagem da Barragem 6 com o uso de bombas, para diminuir a quantidade de água.

O monitoramento está sendo realizado a cada uma hora, juntamente com a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros. O rompimento da barragem 1 fez com que transbordasse a água da outra estrutura.

A Vale também comunicou que equipes da companhia trabalham desde a última sexta-feira, “ininterruptamente”, junto com os órgãos competentes, no apoio ao resgate das vítimas. A Defesa Civil orientou que as pessoas das áreas atingidas ainda não retornem às suas casas e que procurem o centro de acolhimento, com prioridade para a Estação Conhecimento de Brumadinho.

“A prioridade máxima da Vale, neste momento, é apoiar nos resgates e atendimentos às vítimas para ajudar a preservar e proteger a vida de empregados, próprios e terceiros, e das comunidades locais”, informou, em nota.
  
 

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