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Correio Braziliense

Chuva esperada para fevereiro pode arrastar mais rejeitos ao Rio Paraopeba

Igam pede diques próximos ao local da tragédia, mas Vale não tem prazo para botar plano em prática


postado em 06/02/2019 12:36

A chuva amolece a lama que vazou da barragem e especialistas temem que o volume de precipitação para fevereiro, considerado alto, faça escorrer mais rejeitos em direção ao Rio Paraopeba(foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press)
A chuva amolece a lama que vazou da barragem e especialistas temem que o volume de precipitação para fevereiro, considerado alto, faça escorrer mais rejeitos em direção ao Rio Paraopeba (foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press)

A instabilidade no tempo é uma preocupação dos órgãos ambientais que fazem o monitoramento do Rio Paraopeba, atingido pela lama de rejeitos que vazou da barragem B1 da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Grande BH. A previsão é de muita chuva na primeira quinzena de fevereiro. O receio é que o restante do minério que ainda está no reservatório que se rompeu desça e polua ainda mais o manancial. Para o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), barreiras devem ser colocadas mais próximas de onde ocorreu o desastre. A Vale, responsável pelo empreendimento, já instalou três membranas próximo a Pará de Minas, a 75 quilômetros de Brumadinho. A mineradora afirmou que há um plano que prevê a construção de diques no entorno da estrutura colapsada, porém ainda não informou a data de sua construção.  
 
Análises estão sendo feitas com amostras coletadas no Rio Paraopeba entre os dias 26, dia seguinte à tragédia, até 2 de fevereiro. Foram encontrados valores até 21 vezes acima do aceitável de chumbo total e mercúrio total. Também foi constatada a presença de níquel, cádmio e zinco. Diante dessa situação, o governo de Minas desaconselha o uso da água para qualquer finalidade até que a situação esteja normalizada. A recomendação vale desde a confluência do Rio Paraopeba com o Córrego Ferro-Carvão até Pará de Minas.
 
De acordo com a diretora-geral do Igam, Marília Melo, alguns dos materiais identificados nos primeiros dias após o desastre diminuíram e viraram sedimentos. “Alguns parâmetros identificamos nos primeiros dias, e depois não mais. Somente chumbo e mercúrio detectamos até 2 de fevereiro, último dia de análise”, afirmou. Um estudo está sendo feito para detectar o material que foi carreado durante o rompimento. “Tem uma caracterização do rejeito. Diferente de Mariana, onde desceu só rejeito, (em Brumadinho) a lama passou em todo o espaço de produção, na área de beneficiamento, no estoque, na oficina. Então, o rejeito varreu junto”, completou. 

A preocupação dos órgãos ambientais é com a chuva que pode atingir Brumadinho nos próximos 10 dias. “Estávamos com a atuação de uma massa de ar quente e seco. No domingo, teve a chegada de uma frente fria no litoral do Sudeste, o que deixa o tempo instável. Teremos a maior condição de ter chuva todos os dias nesta semana. Principalmente no fim da tarde e início da noite, com características de pancadas rápidas”, afirmou o meteorologista Kleber Souza, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). “Os modelos indicam que até 15 de fevereiro temos condições de chuva”, finalizou. 

Enxurrada de rejeitos
 
A preocupação com a instabilidade no tempo se deve à possibilidade de rejeitos que ainda estão na região do reservatório que se rompeu alcancem o Rio Paraopeba. “Já choveu muito na região (segunda-feira) e temos previsão de chuva nos próximos dias. Não podemos deixar que mais rejeitos cheguem ao rio. Isso é uma preocupação dos órgãos ambientais”, diz Marília Melo. “A empresa já começou a montar barreiras perto de Pará de Minas. Hoje, o que importa, são barreiras mais próximas à barragem e ao rejeito”, completou a diretora-geral do Igam. 
 
 
Por meio de nota, a Vale afirmou que estabeleceu um plano de monitoramento da qualidade de água, sedimentos e biota aquática a partir de coletas diárias de amostras em 46 pontos nas bacias dos rios Paraopeba e São Francisco. Os resultados estão sendo compartilhados, segundo a mineradora, com os órgãos competentes. “A empresa apresentou ao Ministério Público e aos órgãos ambientais, no último dia 30, o plano conceitual para conter os rejeitos que vazaram da barragem B1, com atuação em três trechos, onde serão realizadas diferentes medidas de contenção e recuperação. Serão realizadas diferentes ações, conforme as características do curso d'água e o do material presente no rio”, explicou. 

Entre as ações, segundo a Vale, está “a construção de diques no entorno da estrutura rompida; a dragagem de sedimentos mais grossos e pesados, que serão recolhidos e dispostos em locais adequados; e a instalação de barreiras de retenção ao longo do Rio Paraopeba”. Não foi informado pela empresa a data de início das medidas. 

Obstáculos artificiais no caminho 

A terceira membrana de contenção instalada no Rio Paraopeba a fim de proteger o sistema de captação de água de Pará de Minas entrou em operação ontem. Outras duas barreiras foram colocadas no último fim de semana. A iniciativa é uma medida preventiva e faz parte do plano apresentado pela empresa mineradora Vale ao Ministério Público e aos órgãos ambientais. Esse plano promete garantir o abastecimento contínuo da região de Pará de Minas.
A barreira de contenção instalada tem 50 metros de comprimento e profundidade de dois a três metros. A estrutura funciona como um tecido filtrante, evitando a dispersão das partículas sólidas (argila, silte, matéria orgânica etc.) que provocam a turbidez da água e alteram sua transparência.  

Para manter a verticalidade das cortinas antiturbidez há correntes metálicas na borda inferior (na parte imersa), onde são acoplados pesos, não permitindo que o fluxo do rio faça a cortina subir até a superfície da água. Já o elemento flutuante utilizado é uma boia cilíndrica, que pode ser utilizada para conter o avanço de elementos suspensos na água. 
 
Monitoramento 
 
Equipes da Fundação SOS Mata Atlântica percorrem o Rio Paraopeba para fazer análises da água. A entidade afirma que já fez o monitoramento em 11 diferentes pontos. A instituição informou que “a maioria deles possui água com condição péssima”. Uma das verificações foi feita depois das barreiras instaladas pela Vale. O resultado não foi positivo.  

“Para analisar a efetividade das membranas instaladas pela Vale, que têm como objetivo conter os rejeitos, a equipe da ONG realizou medições antes e depois das barreiras. No primeiro ponto, onde o rio possui intensa corrente – trecho mais largo até agora –,o índice de oxigênio chegou a 3mg/l e a turbidez a 683,8 NTU (sigla em inglês para a unidade matemática Nefelométrica de Turbidez, que verifica quantidade de partículas sólidas em suspensão, o que impede a passagem da luz e a fotossíntese, causando a morte da vida aquática). Essa turbidez equivale a seis vezes mais que o indicado pela legislação ambiental”, afirmou. 

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