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Correio Braziliense

Conheça os bombeiros que aparecem em foto viral das buscas em Brumadinho

Bombeiros flagrados exaustos após os trabalhos de resgates no Córrego do Feijão falam dos seis dias em que passaram nas operações de socorro e revelam os momentos sensíveis


postado em 07/02/2019 08:54

Tenente Brück, cabo Melo e cabo Márcio foram convocados para auxiliar nas buscas por vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho(foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press e Gladyston Rodrigues/EM/DA Press - 28/01/19)
Tenente Brück, cabo Melo e cabo Márcio foram convocados para auxiliar nas buscas por vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press e Gladyston Rodrigues/EM/DA Press - 28/01/19)

Barbacena – Era fim de tarde, três dias depois da catástrofe que comoveu o mundo, quando eles se sentaram, exaustos e cobertos de lama, no chão do posto avançado da comunidade do Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Grande BH (MG). A segunda-feira (28/1), começara às 5h para Márcio José Brück, o tenente Brück, de 43 anos, Heberth José de Melo Afonso, o cabo Melo, de 35, e Márcio Afonso de Miranda, o cabo Márcio, de 33, mergulhados até o pescoço na tentativa de salvar vidas, resgatar corpos e buscar desaparecidos no meio do lodaçal no qual se transformou a região após o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em 25 de janeiro.

O flagrante do fotógrafo Gladyston Rodrigues, do Estado de Minas (que pertece ao mesmo grupro que o Correio), viralizou na internet e faz parte da memória da grande tragédia socioambiental como registro da atuação dos 227 bombeiros de Minas, 110 de outros estados, 27 voluntários e 64 da Força Nacional envolvidos nas operações de socorro.Na manhã de terça-feira (5/2), na sede da 2ª Companhia Independente de Bombeiros Militares, em Barbacena, na Região Central de Minas, os três falaram sobre os seis dias de trabalho em Brumadinho, para onde foram destacados logo depois do estouro da barragem.

No sábado (26/1), nas primeiras horas na chamada “zona quente” no Córrego do Feijão, uma surpresa. O tenente e os dois cabos localizaram, enterrada na lama, uma carregadeira tendo ao volante o corpo de um homem. “Em poucos segundos, o telefone celular tocou dentro da mochila da vítima. Deixamos tocar, não atendemos em sinal de respeito”, recorda-se o cabo Melo.

Ver galeria . 71 Fotos EM/D.A Press
(foto: EM/D.A Press )


A partir do momento da convocação, os militares da 2ª Companhia, que inclui pelotões de São João del-Rei, Congonhas e Conselheiro Lafaiete, seguiram para Brumadinho, chegando às 5h do sábado. Nenhum dos três tinha atuado em Mariana, na Região Central do estado, onde ocorreu o rompimento da Barragem do Fundão, em Bento Rodrigues, na tarde de 5 de novembro de 2015, ou em outro episódio semelhante. Mas nada os intimidou. Rastejaram na lama como guerreiros em luta, “nadaram” como peixes, embora desta vez fora d’água, enfrentaram chuvas torrenciais de granizo e vento forte sem se abater, e muitas vezes se atolaram nos terrenos traiçoeiros deixados pelos rejeitos de minério.

Sem contato 


Foram muitos os momentos de dificuldade, e outros tantos de extrema delicadeza, mas em nenhum deles os militares choraram. “As famílias estavam ali esperando notícias dos parentes, a sensibilidade intensa, não podíamos deixar a emoção transbordar. Era preciso cuidado e tranquilidade e respeito aos familiares. Também não mantivemos, nesses dias, qualquer contato com a família, esposa, filhos, enfim, ninguém”, afirma o tenente. “É fundamental manter o foco”, acrescenta cabo Márcio.

A convivência com os militares de Israel, que chegaram a Minas para ajudar nas operações, se tornou muito positiva, inclusive no aspecto cultural, destaca o cabo Melo. “Cada vez que um corpo era encontrado, eles ficavam em silêncio alguns instantes, em oração. Eu só pensava que cada pessoa merecia um enterro digno.” Seguindo o lema “quando o corpo não aguenta, o moral sustenta”, tenente Brück diz que a “zona quente” se traduz também por um campo minado, cheio de perigos e armadilhas. Além de vagões retorcidos e encobertos, há muito vidro quebrado e espinhos. “Os coqueiros ficaram deitados, então os espinhos são enormes. Um deles enfiou na minha perna e, por sorte, consegui tirá-lo inteiro. Além disso, o barro gruda nos cabelos do braço e dói na hora de limpar”, revela.
 
 

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