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Correio Braziliense

Armazenamento do arsênio pela Kinross é contestado

O semi-metal é derivado da quebra das rochas da região, que supostamente são despejados como rejeitos na barragem localizada em Paracatu (MG)


postado em 07/02/2019 14:59 / atualizado em 07/02/2019 15:07

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Pres)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Pres)

Em um parecer enviado pela empresa Kinross Gold Corporation à Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, para garantir a segurança da barragem, localizada em Paracatu, a multinacional atesta que nas águas superficiais e subterrâneas da região há a presença de “arsênio total e solúvel”. O semi-metal é derivado da quebra das rochas da região, que supostamente são despejados como rejeitos na barragem. No entanto, o documento não especifica a quantidade ou medição da substância na água. A Supram Nor foi contratada para elaborar o parecer.

Para o geólogo e professor da Faculdade Noroeste de Minas Gerais Márcio José dos Santos, que analisou a quantidade de arsênio no corpo de moradores próximos à barragem, como já divulgado pela reportagem, a companhia tem evitado se manifestar sobre o arsênio. “Esses dados deveriam ser divulgados e cobrados pelas autoridades públicas. São informações importantes e a população precisa ser informada”, disse.

Ao responder aos questionamentos feitos na quarta-feira (30/01), a empresa afirmou que o arsênio era “descartado em instalações duplamente revestidas e projetadas especificamente para sua contenção, chamadas ‘tanques específicos’”. Para o pesquisador, mesmo que a companhia disponibilizasse tanques para todo o arsênio, “não teriam onde armazenar”, pois a quantidade do semi-metal seria “muito grande”. “De uma forma mais compreensiva, para se extrair uma grama de ouro são necessárias duas toneladas e meia de minério. Esta quantidade teria em torno de um quilo e cem gramas de arsênio. Então, a cada ano, levando em conta que a mineradora movimenta 61 milhões de toneladas de minério, ela libera mais de 67 mil toneladas de arsênio em sua forma tóxica”, calculou.

A reportagem também teve acesso ao processo de licenciamento, elaborado em 2016, onde a empresa solicita a renovação da licença para operar. Neste parecer, a Kinross ressalta que os tanques específicos são para a contenção dos sulfetos e do cianeto, produto químico também considerado tóxico, mas essencial para a atividade mineral. Assim, a empresa menciona indiretamente o arsênio, já que pode ser uma forma de sulfeto. No entanto, Márcio José dos Santos contesta a afirmação que o arsênio permanece na forma de sulfeto durante a atividade da mineração. “Quando é atacado por cianeto, estes sulfetos são transformados em óxidos de arsênio, o que é altamente tóxico”, esclareceu.

Imagem do documento


Após o Correio publicar que a Kinross passou a controlar o acesso de pessoas e carros em vias públicas, pessoas contactaram a redação para relatar problemas ou visões sobre o caso. Entre elas, está a atual moradora de Brasília, Denise de Fátima de Araújo, que contou ter um terreno além da portaria, em nome do pai. Ela explica que o “pequeno sítio” foi afetado pelas atividades de mineração da empresa. “Sempre tivemos água, que era a do fundo do quintal (um pequeno riacho), mas depois que eles foram para lá, virou pura lama. Está poluído e não temos mais como plantar nada”, declarou.

“A água que temos lá é do caminhão pipa que eles levam”, esclareceu a ex-moradora. Contudo, ela ressalta que a medida é uma forma de aliviar o problema. “Na fazenda ou nas chácaras, você tem de ter água. Eles estragaram o nosso lugar. Eles acabaram com a nossa terra. Se a gente quiser plantar qualquer coisa, não tem mais como”, lamentou.

Segundo ela, o pequeno sítio também foi afetado pela guarita instalada. “Sempre é um transtorno quando tentamos entrar. E se eu quiser que entre um amigo? E se eu quisermos montar um bar? Quem vai conseguir ir? Não tem a menor condição”, questionou.

Outro lado


Procurados, a Kinross Gold Corporation afirmou que o arsênio presente no minério da mina Morro do Ouro se apresenta como um sulfeto, assim, também é contemplado no parecer enviado às autoridades ambientais. “Além disso, no Estudo de Impacto Ambiental apresentado quando do processo de licenciamento, descreve que a geologia local da área da Mina Morro do Ouro tem a presença natural de sulfetos incluindo a arsenopirita”, afirmou em nota. 

Sobre a quantidade de rejeitos produzidos, a Kinross explicou que tem capacidade de armazenar “todo rejeito gerado pela sua operação”. “A empresa projeta e constrói seus sistemas de contenção de rejeitos de forma a comportar todo minério e seus componentes. Neste contexto, os tanques específicos foram adequadamente projetados para receber a totalidade do concentrado sulfetado”, ressaltou.

Questionado se há a hipótese de haver alguma contaminação nas águas da região, a empresa foi enfática ao negar as suspeitas. “A Kinross adota uma série de medidas para garantir que nenhuma contaminação ocorra”, garantiu no documento. 

Também disseram que as “barragens atuam como um sistema prévio de tratamento de água”, já que são construídas com “drenos internos formados por areia e brita”.

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