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Correio Braziliense

Disputas no Congresso atrasam investigações em Brumadinho

Há mais de 100 órfãos e famílias aflitas por respostas, com medo de que a Vale escape de ser responsabilizada pelo rompimento da barragem.


postado em 11/03/2019 06:00

Em meio à lama que devastou a cidade mineira, luto tomou conta dos moradores que ainda procuram por parentes e amigos desaparecidos(foto: Douglas Magno/AFP - 25/2/19)
Em meio à lama que devastou a cidade mineira, luto tomou conta dos moradores que ainda procuram por parentes e amigos desaparecidos (foto: Douglas Magno/AFP - 25/2/19)

A viabilidade de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar os responsáveis pela tragédia de Brumadinho (MG) se desfez em meio às disputas do Congresso. Na Câmara, deputados acusam o Senado de um lobby para instauração de uma CPI simples. No Senado, parlamentares se queixam da demora dos colegas em se decidir pelo tipo de processo investigativo a ser iniciado. O desastre no município mineiro deixou um total de 308 vítimas entre mortos e desaparecidos. Há mais de 100 órfãos e famílias aflitas por respostas, com medo de que a Vale escape de ser responsabilizada pelo rompimento da barragem.

Até mesmo o rio Paraopeba, que corta a região, morreu, envenenado por metais pesados da lama tóxica, como mostra um relatório da ONG SOS Mata Atlântica. A correnteza de rejeitos devastou 122 hectares de mata (o equivalente a 122 campos de futebol). A barragem da Mina Córrego do Feijão rompeu por volta de 12h20 de 25 de janeiro, uma sexta-feira, três anos, dois meses e 20 dias depois do rompimento da barragem de Mariana (MG), outra tragédia envolvendo a mesma mineradora. Apesar de não conseguirem se decidir, o temor de deputados ouvidos pelo Correio é de que a tragédia resulte em uma “pizza de minério”.

O Senado vai instaurar uma CPI nesta terça-feira, 12 de março, quando volta de um longo recesso de carnaval. Na Câmara, a indefinição permanece. Chefe da comissão externa de deputados e senadores que visitou Brumadinho, Zé Silva (Solidariedade-MG) está entre os defensores da CPMI, mas dá o assunto por encerrado. Ele explica que uma comissão investigatória com membros das duas casas teria mais poder e uma chance maior de resultados convergentes.

“Respeito os argumentos de que o presidente do Senado, David Alcolumbre (DEM-AP), utilizou. Houve uma decisão de líderes de criar uma CPI e não há, regimentalmente, nesse caso, uma reunião prevista para o Congresso. Mas, será que este desastre, um crime bárbaro, não é motivo para uma reunião?”, reclama Zé Silva. “Agora, as duas Casas vão agir com sua autonomia. Nossa preocupação é de que uma CPI simples protele a punição dos culpados.”

A 785km do Congresso, em Brumadinho, a professora de educação infantil Natália de Oliveira, 47 anos, luta para saber o paradeiro da irmã, Lecilda de Oliveira, funcionária da Vale, mãe de dois filhos. Ela também teme que os culpados pela tragédia saiam impunes da investigação. “Temos que gritar a nossa dor. Se tivéssemos gritado mais alto por Mariana (MG), talvez, nada disso tivesse acontecido. Minha irmã saiu para trabalhar em uma sexta e não voltou. Ela está fazendo hora extra? Meus sobrinhos sentem uma tristeza sem fim”, desabafa (leia depoimento).

Por telefone, o senador Otto Alencar (PSD-BA) argumenta que não era possível esperar a Câmara. Segundo ele, quando deputados procuraram o Senado, os parlamentares já tinham entrado com o pedido de CPI. “A Câmara tem dois grupos buscando instaurar a CPI. A tentativa de fazer uma CPMI ia postergar muito o início dos trabalhos de investigação. O Alcolumbre leu nosso requerimento no plenário e se comprometeu em uma reunião de líderes. Faremos um bom trabalho. Ouviremos os responsáveis, inclusive ex-governantes. Temos que apontar os culpados pela tragédia”, compromete-se.


Luta e medo

“Isso não pode se repetir com outras comunidades. É preciso dar um fim neste sistema que não leva em conta as pessoas.” Esse é o pedido de Juliana Fonseca, 42. O marido dela perdeu quatro primos, uma irmã e a ex-mulher, que deixou três filhos. “Minha sogra enterrou a filha caçula. A ex do meu marido continua desaparecida.  A luta por justiça é que nos ajuda a canalizar a revolta. Vários dos meus alunos perderam o pai. Um menino de 3 anos mordeu o colega. Está sofrendo e não sabe como lidar com isso. A gente afaga, abraça, mas a dor a gente não pode tirar. E temos que ser mais fortes”, emociona-se.

O também senador Carlos Viana (PSD-MG), um dos indicados para a CPI do Senado, reforça o argumento de Otto Alencar. “Na Câmara, não se entenderam. Se tivessem algum consenso, não haveria resistência (para um CPMI)”, garante. A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) é a autora do outro pedido de CPI da Casa. A reportagem procurou a deputada e  pediu que ela comentasse o desentendimento entre os deputados e o que ela pensava da CPMI. A parlamentar não respondeu as mensagens nem retornou as ligações.

Além do luto e da ausência de respostas, quem mora em Brumadinho também vive a incerteza do futuro. Segundo Dayene Gonçalves, 24 anos, funcionária do Museu de Inhotim, a Vale era a principal empregadora do município e, sem a mineração, haverá insegurança financeira para muitas famílias. “Não sabemos como vai ser daqui para frente. Estamos muito apreensivos. Não sabemos como a cidade vai se restabelecer, se o melhor é ficar ou se mudar. Eu mesmo já pensei em ir embora com meu filho”, admite.

A Vale disse que “coopera plenamente com as autoridades encarregadas da investigação, fornecendo tudo o que é demandado.”



Depoimento


“Enterro digno”
Natália de Oliveira, 47 anos, perdeu a irmã, Lecilda de Oliveira (foto): Vivemos uma luta dolorosa. Não sabemos se os parentes desaparecidos serão encontrados. Desde 25 de janeiro, nossa vida se tornou um pesadelo. Minha irmã entrou na Vale no dia 25, às 7h, e está lá até hoje. Muitos estão. Para quem é de fora, são 308 mortos. Mas nós, quando andamos nas ruas, sentimos falta das pessoas. Você encontra alguém no supermercado, e quando percebe, os dois estão chorando pelos parentes que perderam. Quem não perdeu alguém da família, perdeu um amigo, um parceiro. Somos uma cidade da zona rural. Temos o hábito de fazer o velório a noite inteira, servir café e conversar. Agora, é caixão fechado e, no máximo, uma hora. Nem a um enterro digno temos direito. Tem que ser rápido, por causa da decomposição dos corpos.


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