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Correio Braziliense

O desafio agora é descobrir quem mandou matar Marielle

Uma operação conjunta do Ministério Público e da Polícia Civil do Rio de Janeiro prende dois suspeitos de assassinar a vereadora e o motorista Anderson Gomes, mas ainda há muitos questionamentos sobre o caso, como o autor da ordem para os crimes


postado em 13/03/2019 06:00

Placa levantada durante sessão solene em homenagem a vereadora Marielle Franco, realizada no Congresso Nacional.(foto: Marcelo Camargo/Agencia Brasil)
Placa levantada durante sessão solene em homenagem a vereadora Marielle Franco, realizada no Congresso Nacional. (foto: Marcelo Camargo/Agencia Brasil)

A 48 horas do primeiro ano do assassinato de Marielle Franco, o policial reformado Ronnie Lessa e o comparsa Élcio Vieira de Queiroz — expulso da Polícia Militar em 2015 e responsável por guiar o carro no momento do crime — foram presos durante operação do Ministério Público do Rio de Janeiro ainda na madrugada de terça-feira (12/3). Os dois são acusados de homicídio qualificado contra a vereadora e o motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. Os detalhes da investigação mostram um trabalho minucioso, como o uso de técnicas avançadas, mas ainda falta o principal: quem é o mandante das rajadas que atingiram a cabeça de Marielle e as costas de Anderson? Por mais detalhadas que tenham sido as coletivas de imprensa dos responsáveis pela apuração, a pergunta não foi respondida.

“O que a Polícia Civil entrega ao Ministério Público é a primeira fase. Essa fase está encerrada. Sabemos quem dirigiu, quem atirou. As investigações continuam”, disse o delegado Giniton Lages, na manhã de ontem, durante coletiva de imprensa. As declarações das promotoras do Ministério Público foram dadas apenas à tarde. A questão para os investigadores, tanto da Civil quanto do MP, é apurar qual foi o motivo e quem encomendou os assassinatos, incluindo, nesse caso, a hipótese de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz terem atuado sozinhos, por conta própria. E aqui apareceram as novas dificuldades dos investigadores, que parecem ter poucas linhas para chegar à segunda fase. “É importante notar que foram dois presos e 34 mandados de busca e apreensão, o que revela a continuidade do trabalho”, afirmou Lages.

A partir das informações do MP, as prisões ocorreram por volta das 4h30, durante a Operação Lume, realizada na residência dos suspeitos. Ronnie Lessa foi preso quando deixava o condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, o mesmo onde morava o presidente da República, Jair Bolsonaro, antes de tomar posse. O delegado descartou ligação entre o presidente e o acusado. Ronnie levava três celulares, que estavam no modo avião. Investigadores acreditam que ele tentava despistar a polícia. No momento da abordagem, o atirador admitiu, informalmente, que foi informado da operação. Os investigadores, inclusive, anteciparam as prisões em 24h por receio de vazamentos. Na casa de um amigo do policial, no Méier, Zona Norte do Rio, foram encontrados 117 fuzis desmontados — a apreensão foi a maior da história do Rio, superando até mesmo a feita no aeroporto do estado, em 2017.

Vizinhança


Bolsonaro foi questionado no Planalto sobre a prisão dos autores dos assassinatos. “Espero que, realmente, a apuração tenha chegado, de fato, a esses que foram os executores e saber quem mandou matar”, declarou. O presidente, entretanto, disse esperar também que seja revelado quem supostamente teria mandado Adélio Bispo esfaqueá-lo durante a campanha do ano passado. “Também estou interessado em saber quem mandou me matar”, afirmou. Ao contrário das investigações sobre o caso Marielle, que ainda precisam avançar, a facada contra Bolsonaro chegou aos finalmentes sem que a Polícia Federal tenha apontado para um mandante — Adélio, assim, atuou por conta própria.

O MP revelou que o crime foi planejado de forma meticulosa durante os três meses que antecederam os assassinatos. Para a promotora Letícia Petriz, uma das responsáveis pela investigação, Ronnie cometeu o crime movido pelo ódio, já que se incomodava com a atuação política de Marielle em favor de minorias. Assim, foi denunciado por homicídio qualificado por motivo torpe. Segundo o MP-RJ, isso não exclui a hipótese de o homicídio ter um ou mais mandantes, o que continuará sendo investigado pela Polícia Civil e pelo MP-RJ, mas, de qualquer forma, abriu uma série de questionamentos sobre os próximos passos da apuração. “Ronnie tem todas as características de um matador e não se tem qualquer notícia de envolvimento dele na hierarquia das milícias, o que apenas revela alguém preparado para executar ordens daquela maneira como cometeu os crimes”, disse um experiente investigador que atuou no Rio de Janeiro.

Delação


O governador do Rio, Wilson Witzel, disse que os suspeitos “poderão pensar na delação premiada” para que a investigação chegue aos mandantes do crime. Foi ele quem reuniu autoridades da Polícia Civil para apresentar o resultado do que classificou como primeira fase da apuração. O benefício da colaboração só vale para integrantes do segundo escalão de uma quadrilha, nunca o chefe, o que leva a investigação para um crime de mando, em que Ronnie atuou como um matador de aluguel. Ontem pela manhã no Congresso, integrantes do PSol — partido de Marielle — participaram de uma entrevista coletiva em que pediram os avanços das investigações para se chegar ao mandante (leia reportagem na página ao lado).

Nesta primeira fase da investigação, foram ouvidas 230 testemunhas. Durante o crime, os autores permaneceram no local esperando Marielle por duas horas, sem sair do veículo. “Basta perguntar para um policial se é capaz de ficar em uma campana por duas horas sem sair do veículo. Isso não é pouco. De cara, o inquérito mostrava que estávamos diante de um crime que foge à regra”, disse o delegado Lages. Os assassinos pesquisaram a rotina de Marielle, o que acabou comprovado pelo sigilo telefônico digital.

“O crime contra Anderson e contra Fernanda Chaves, segundo a investigação demonstrou, foi para assegurar a impunidade dos autores”, disse a promotora Simone Sibílio, coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ). Além da interceptação, os investigadores trabalharam com inteligência cibernética e estudos biométricos dos suspeitos. A partir da análise de luz e sombra de imagens, foi revelado que não havia ninguém sentando na frente no carro dos assassinos. Os dois presos negam o crime.

Colaboraram Rodolfo Costa e Renato Souza


Homenagem

O nome da operação faz referência à palavra lume, que significa clarão, iluminação. Segundo o chefe da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro e responsável pelas investigações, Giniton Lajes, o termo é usado no sentido de jogar luz sobre os fatos que levaram à morte da vereadora Marielle Franco e do motorista dela, Anderson Gomes. Porém, a escolha também é uma homenagem à parlamentar, principal responsável pelo projeto Lume Feminista, que ocorria na praça Buraco do Lume, no centro da capital carioca.


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