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Alunos lembram com carinho de professora morta no ataque a escola de Suzano

Segundo eles contam, a docente estava 'sempre feliz' com sorriso farto durante o trabalho. Marilena é velada em Suzano e será enterrada nesta sexta-feira

Vera Schmitz/Estado de Minas
postado em 15/03/2019 10:30
Marilena Ferreira Vieira Umezu, a professora de Suzano
Marilena Ferreira Vieira Umezu, a professora de sorriso farto e cativante, que defendia o ;porte de livros; como ;arma; para salvar o cidadão, por meio da educação, não media esforços pela escola e seus alunos. Professora de filosofia do ensino médio, ela foi ;promovida; à função de coordenadora pedagógica da escola, porém recebia salário pelo cargo de professora, conforme o Portal da Transparência do governo de São Paulo. O último salário líquido de Marilena, registrado no site, em janeiro deste ano, foi de R$ 4.050,88.

A remuneração, no entanto, parecia pouco importar quando o assunto era dedicação. Em entrevistas desde o momento da tragédia, alunos e colegas faziam questão de destacar a dedicação e o astral sempre ;pra cima; de Marilena o que, segundo eles, a levaram ao cargo de coordenadora. ;Ela vivia a educação com intensidade;, disse um dos professores. ;Amada; e ;adorada; eram adjetivos frequentes nas falas daqueles que conviviam diariamente com Marilena. Ela será enterrada, nesta sexta-feira (15/3), após a chegada do filho, no Cemitério São Sebastião. A mãe e os irmãos foram para a cidade paulista para o último adeus à professora.

A educadora vai faltar, em abril, a uma festa que ela e os quatro irmãos vinham planejando há alguns meses: os 80 da mãe, dona Maria. Natural de Ubá, na Zona da Mata, Lena, como era chamada pelos parentes, completaria 60 anos em agosto.

Aos 15 anos, deixou Minas com a família para morar em Suzano (SP), cidade que adotou como sua, onde se formou em pedagogia e conheceu o marido, com quem teve três filhos e duas netas. Em seu perfil no Facebook, que não está mais disponível para visualização, ela costumava postar fotos das netas, que tratava como ;presentes e tesouros;.

A mãe e os irmãos voltaram para Ubá após a aposentadoria do patriarca da família. ;Está muito difícil para a família aguentar, mas Deus está dando força pra gente. Por incrível que pareça, ela (dona Maria) foi mais forte que os filhos;, afirmou Mário Ferreira, o irmão caçula, em entrevista à Rádio Educadora de Ubá.

Um dos filhos de Marilena mora na China e embarcou para o Brasil ao receber a trágica notícia da morte da mãe, a primeira vítima dos assassinos. O portão da Escola Estadual Raul Brasil estava aberto e coube a ela receber os ex-alunos Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique Castro, de 25, autores do massacre. Teria sorrido para eles, segundo relatos, certamente por tê-los reconhecido. Nem sequer poderia imaginar o crime que haviam planejado.

Sorriso farto


Um de seus alunos contou à BBC News Brasil que todas as lembranças que tem da pedagoga são dela sorrindo. Uma ex-estudante do Raul Brasil destaca que a imagem que ela passava era de ser uma pessoa ;sempre feliz;.

Professora de português, Elo Ferreira trabalhou por 10 anos com Marilena. ;Ela não era um alvo específico. Era uma pessoa dedicada, querida e fazia tudo pelos alunos. Vivia a educação com intensidade e era generosa, colaborava com coordenadores de outras escolas da cidade", contou, também à BBC.

O amor pelos livros, que levava Marilena à biblioteca da escola sempre que encontrava um tempo livre, fez a professora comentar um assunto polêmico de forma delicada, do alto da sua sabedoria acumulada nos longos anos de dedicação à educação de crianças e jovens. Em 19 de janeiro, comentou sobre as políticas de armamento da população ao compartilhar uma imagem em seu perfil no Facebook. Dizia o texto: ;Somos a favor do porte de livros, pois a melhor arma para salvar o cidadão é a educação;.
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Naquele dia ou em qualquer outro, ela jamais imaginaria ser vítima de uma outra arma, disparada por dois jovens que passaram por suas aulas de filosofia, mas não aprenderam a lição. Ela se foi, mas sua mensagem viralizou nas redes sociais. Esse foi o seu maior legado.

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