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Correio Braziliense

Justiça mantém presos nove dos 10 militares que fuzilaram músico no Rio

Prisões foram convertidas de temporárias para provisórias e apenas um soldado teve liberdade provisória concedida


postado em 10/04/2019 15:52

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)

A justiça militar optou por manter presos nove dos 10 militares apreendidos no caso do tiroteio em Guadalupe, na zona norte do Rio de Janeiro, que matou o músico e motorista Evaldo Rosa. A decisão é da juíza Mariana Campos, da 1ª auditoria da Justiça MIlitar. A prisão dos mesmos foi convertida de temporária para preventiva. O caso ocorreu no domingo (7/4), quando militares ao ter supostamente confundido o carro de Evaldo com de criminosos dispararam mais de 80 vezes contra o veículo.

O soldado Leonardo Delfino é o único que terá liberdade provisória. De acordo com os depoimentos, Delfino não teria disparado nenhum tiro durante o ocorrido. De acordo com a juíza, houve descumprimento das regras militares como define o código militar. 

A vítima foi enterrada hoje, no cemitério Ricardo de Albuquerque. De acordo com imagens veiculadas nos portais de informação, houve protestos durante a cerimônia. Um dos presentes carregava uma bandeira do Brasil com manchas de sangue. 

Racismo

De acordo com o sociólogo e especialista em segurança pública, Cláudio Beato, esse tipo de erro na abordagem não é novidade. “É um problema recorrente. No exército, o soldado não tem preparo. Isso torna as coisas piores ainda”, explicou. “Existe uma série de pesquisas que mostram mais ocorrência desses erros em regiões específicas, em geral, com a população mais carente”, analisou.  O especialista ainda reforça o fator racional na mudança de abordagem de policiais e militares. “Se for negro, a chance de ser abordado é muito maior”, ressaltou. 

Beato também lembra que, muitas vezes, essa parcela da população se sente mais oprimida e opta por fugir de blitzen, por exemplo. “Tem o caso da moto. Não pode atirar quando alguém foge. Em geral, com medo de ser abordado, acaba fugindo. É preferível deixar fugir. Atirar é muito pior. Certamente o exército não está preparado para isso. É um protocolo básico. Não se reage quando alguém está fugindo”, informou. 

Segundo Beato, o fato de o exército estar nas ruas é resultado de uma demanda do poder público para conter o avanço da criminalidade. “Eles cumprem a carência que as polícias têm”, disse. Beato entende que a atuação do exército é falha quando se trata de segurança pública. “O exército não tem conhecimento dos protocolos usados pelas polícias”, criticou. 

A doutora em sociologia e professora de gestão de políticas públicas na Universidade de Brasília (UnB) Ana Paula Antunes concorda com a visão de Beato. “O caso da família de Guadalupe nos confronta, uma vez mais, com o racismo das instituições brasileiras”, apontou. Para ela, o “Estado segue violando, com muita força e crueldade, os direitos fundamentais à vida e à integridade física da população negra e periférica deste país”. 

A socióloga critica também a possibilidade de impunidade dos militares responsáveis pela morte de Evaldo. “Um dos fatos que acentua essa sensação é a Lei 13.491 de 2017, que alterou o Código Penal Militar e definiu que os crimes praticados por militares das Forças Armadas contra civis durante ações de “garantia da lei e da ordem” serão processados e julgados pela Justiça Militar da União”, explicou. “Esta alteração legal tem sido vista com muitas ressalvas por organizações de defesa dos direitos humanos e especialistas em segurança pública, pois tende a diminuir a independência dos julgamentos”, completou. 

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