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Correio Braziliense

Câncer: em geral, início do tratamento demora mais de 60 dias no Brasil

Em 2016, apenas 35,4% dos pacientes com diagnóstico prévio começaram tratamento em até 60 dias


postado em 17/04/2019 14:59 / atualizado em 19/04/2019 18:00

Encontro ocorreu no Brasil 21 Cultural, em Brasília (DF)(foto: Ed Alves/CB/DA.Press)
Encontro ocorreu no Brasil 21 Cultural, em Brasília (DF) (foto: Ed Alves/CB/DA.Press)
"Quem tem câncer tem pressa." A frase é dita diversas vezes no IX Fórum Nacional Oncoguia, seja por especialistas, seja por pacientes que passam ou já passaram pelo tratamento da doença. No entanto, dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) mostram uma realidade bastante diferente da expectativa dessas pessoas. Em 2016, apenas 35,4% dos pacientes com diagnóstico prévio começam o tratamento em até 60 dias. 

Informações do canal Ligue Câncer, do Instituto Oncoguia, também expõem a baixa execução da Lei nº 12.732/12, que garante ao paciente com câncer o direito de se submeter ao primeiro tratamento no SUS, no prazo de até 60 dias contados a partir da assinatura do laudo patológico. De acordo com os dados apresentados no Fórum pela presidente Luciana Holtz, entre os 3138 casos analisados pelo canal Ligue Câncer do Oncoguia, 40% dos pacientes têm a lei dos 60 dias descumprida. 

Os pacientes oncológicos e familiares dominam os 8002 cadastros feitos desde 2012 no Ligue Câncer. Ao todo, 26 tipos de câncer foram abordados nos atendimentos por telefone. O câncer de mama, de próstata e o colorretal são os mais abordados. 

Maria Paula Bandeira tem câncer de mama metastático. A advogada é voluntária no Oncoguia e influenciadora digital. Para ela, um dos maiores benefícios do canal Ligue Câncer é a disseminação de informação de qualidade gratuita. "Informação no caso do câncer independe de grau de escolaridade. Quando você descobre, você automaticamente procura por informações e encontra todos os tipos de notícias na internet", analisa. 

A voluntária trouxe para si mesma o papel de ajudar a disseminar informações nas redes sociais. Para isso, Maria Paula criou um perfil no Instagram chamado Lenço do Dia, que atualmente tem cerca de 22 mil seguidores. "Foi uma maneira que achei de não me sentir sozinha ao descobrir o câncer de mama metastático", conta. 

O secretário geral de articulação institucional da Defensoria Pública de União (DPU), Renan Vinícius Mayor, analisa o papel das defensorias públicas nesta situação. "A partir do momento em que a lei é descumprida, o papel é procurar a Defensoria Pública", defende. 

Radioterapia precária

Em outra apresentação, o membro titular representante da Sociedade Brasileira de Radioterapia, Eronides Batalha Filho, alertou sobre a dificuldade, no país, em dar acesso à população a aparelhos de radioterapia, fundamentais tanto para pacientes com chance de cura, quanto para os que enfrentam a doença em estágio adiantado.

"O número de aparelhos é insuficiente e, hoje, 33% estão obsoletos. Esse número subirá para 44% em 2021. Esperamos uma melhora de cenário com o plano de expansão do Ministério da Saúde", observa Eronides. Mesmo o plano, que é de 2012, no entanto, está atrasado. A previsão é de instalação de 80 máquinas. Após sete anos, porém, o governo adquiriu apenas 19.

"Isso ocorre, a maioria das vezes, por motivos políticos, em municípios. A troca de um gestor, prefeito ou diretor de hospital, que não tinha conhecimento do trabalho que estava sendo feito e não dá continuidade, não sabe o valor", lamenta.

Dificuldade nos atendimentos

Diretora na ouvidoria geral do SUS, Luana Gonçalves Gehres falou sobre como o dispositivo pode ajudar a otimizar o sistema. De 2018 para cá, a ouvidoria fez 6610 atendimentos. O maior número foi de usuários do sistema provenientes de municípios, 3403, seguido por usuários do sistema federal, 2189 e, por último, estadual, 1018. Cerca de 90% dos atendimentos eram de solicitação de assistência, quando o paciente tem dificuldades em conseguir atendimento.

A segunda maior dificuldade é em acesso a medicamentos, principalmente os não padronizados, que não estão disponíveis na rede. "Isso impacta na qualidade do atendimento do usuário. Mas cada caso tem que ser atendido individualmente, levando em conta, inclusive, a região do paciente, pois o país é grande e as realidades de atendimento são muito diferentes", explica Luana.

"A ouvidoria é um identificador de problemas. É uma forma de o usuário participar da gestão e fiscalizar o que está acontecendo. Não solucionamos problemas. Funcionamos como escutae identificamos, para a gestão, onde estão os problemas a resolver de forma mais efetiva" explica Luana.

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