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Correio Braziliense

Até 2025, 10 milhões de pessoas podem morrer por causa da automedicação

Além da saúde, o documento também mostra o prejuízo na economia. A estimativa é de que, até 2030, a resistência antimicrobiana leve cerca de 24 milhões de pessoas à extrema pobreza


postado em 30/04/2019 06:00

Lilian Mendes: não vai ao médico há um ano e costuma se automedicar(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press )
Lilian Mendes: não vai ao médico há um ano e costuma se automedicar (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press )

Tomar medicação sem prescrição médica pode matar até 10 milhões de pessoas por ano até 2050, em todo o mundo. O alerta sobre o uso excessivo de medicamentos e os consequentes casos de resistência antimicrobiana estão no relatório divulgado ontem por entidades ligadas à Organização das Nações Unidas (ONU). Além da saúde, o documento também mostra o prejuízo na economia. A estimativa é de que, até 2030, a resistência antimicrobiana leve cerca de 24 milhões de pessoas à extrema pobreza.  

No Brasil, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) entre 40% e 60% das doenças infecciosas já são resistentes a medicamentos. Atualmente, pelo menos 700 mil pessoas morrem todos os anos devido a doenças resistentes a medicamentos, incluindo 230 mil por tuberculose multirresistente.

Uma outra pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) reforça a preocupação com o tema e constata que a automedicação é um hábito comum a 77% dos brasileiros que fizeram uso de medicamentos nos últimos seis meses. Nas regiões Norte e Centro-Oeste, este índice é de 80% e no Nordeste, de 79%. No Sudeste e no Sul, os índices são de 77% e 71%, respectivamente. Também foi identificado que entre os medicamentos mais utilizados pelos brasileiros nos últimos seis meses estão analgésicos e antitérmicos (50%), antibióticos (42%) e relaxantes musculares (24%).

Dalila Neves: não segue a receita médica e interrompe o tratamento(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
Dalila Neves: não segue a receita médica e interrompe o tratamento (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)

 
Moradora da Asa Sul, a técnica de enfermagem Lilian Mendes, de 38 anos, afirma que há quase um ano não procura um hospital. Quando sente dores, ela opta pelos remédios que tem à mão. “Utilizo antibiótico para a garganta e outros para dores musculares. Reconheço que não é correto e vou maneirar, porque prejudica a saúde e pode mascarar os sintomas”, diz. A diarista Dalila Neves, 53 anos, moradora de Planaltina, admite que não segue a dosagem e o tempo prescrito pelo médico. “Eu dificilmente sigo o tratamento inteiro. Sou contrária à medicação. Prefiro uma mudança na alimentação, dormir melhor e praticar caminhada”, relata.

Diagnóstico errado

 
Para a infectologista Joana D’Arc Gonçalves da Silva, entre os problemas da automedicação está a ausência do diagnóstico correto e, consequentemente, dúvidas sobre a eficiência do medicamento. Ela ressalta que a falta de políticas públicas efetivas leva a população que não consegue assistência a se automedicar. “Temos uma microbiota normal na pele, boca, nariz e intestino. O uso inadequado induz o mecanismo de resistência. Quando precisar, ele (o remédio) não será capaz de combater”. Outro fator, aponta a especialista, é o uso indiscriminado de antibióticos e antifúngicos em lavouras e animais como frangos e porcos. “Quando fazemos ingestão desses alimentos, a microbiota vai criando resistência também. Procurando um auxílio médico, todo o tratamento é feito de acordo com o foco infeccioso e prováveis agentes. O médico usará o medicamento adequado. O recomendável é procurar um serviço de saúde”.

Sobre o relatório, a farmacêutica e assessora da presidência do Conselho Federal de Farmácia (CFF), Josélia Frade, aponta que a resistência antimicrobiana é uma das maiores ameaças para as comunidades globais e que infecções comuns, como as de trato urinário, respiratório e sexuais também estão criando resistência. O Brasil é signatário da Organização Mundial de Saúde (OMS) e lançou um plano para combater e controlar a resistência aos antimicrobianos que deve ser implementado até 2022. Em 2011, foi publicada uma resolução que estabeleceu a compra de antibiótico diante da apresentação de receita médica. Mas também é necessária a conscientização da população, diz.

A ONU recomenda a priorização de planos de ação nacionais para ampliar os esforços de financiamento e capacitação; implementação de sistemas regulatórios mais fortes e de apoio a programas de conscientização para o uso responsável de antimicrobianos e investimentos em pesquisa e no desenvolvimento de novas tecnologias, para combater a resistência antimicrobiana. Em nota, o Ministério da Saúde reforçou que o uso de medicamentos de forma incorreta, principalmente de antibióticos,  pode agravar a doença, uma vez que a utilização inadequada pode esconder determinados sintomas.


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