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Correio Braziliense

Moradores de Brumadinho lutam para reconstruir a cidade tomada pela lama

Pouco mais de 100 dias após o rompimento da barragem do Córrego do Feijão, que deixou centenas de mortos e muita destruição, o município mineiro luta contra as dificuldades para se reerguer. Turismo é visto como o caminho para a recuperação


postado em 19/05/2019 08:00 / atualizado em 18/05/2019 22:46

Trabalho de reconstrução na zona rural de Brumadinho. Na avaliação da prefeitura a assistência da Vale está abaixo do que era esperado(foto: Alexandre Guzanshe/Estado de minas - 12/2/19)
Trabalho de reconstrução na zona rural de Brumadinho. Na avaliação da prefeitura a assistência da Vale está abaixo do que era esperado (foto: Alexandre Guzanshe/Estado de minas - 12/2/19)


Brumadinho (MG) — O dia 25 de janeiro marcou para sempre a história do município de Brumadinho, em Minas Gerais. Após  um estrondo, a barragem da Vale no Córrego do Feijão se rompeu, e a lama destruiu famílias, moradias e estabelecimentos comerciais. Foram 240 mortos identificados, e 32 pessoas seguem desaparecidas. O destino da região mudou tanto quanto a paisagem — de serras e fartura de verde para o cenário de lama e destruição.

Pouco mais de 100 dias desde a tragédia que mudou de vez a vida de moradores, a cidade enfrenta dificuldades para se reerguer. O maior motivo é a redução drástica do turismo, a segunda maior atividade econômica do município (atrás apenas da mineração). Desde o rompimento da barragem da Vale, restaurantes, pousadas, hotéis e serviços de entretenimento passam por crise. Alguns estão, inclusive, fechando as portas devido à baixa no fluxo de visitantes. Em 24 de janeiro, véspera do rompimento, hotéis e pousadas tinham uma taxa de ocupação entre 80% e 100%. De 25 de janeiro até meados deste mês, o máximo de ocupação foi de cerca de 20%.

Ver galeria . 7 Fotos Edesio Ferreira/Estado de Minas
(foto: Edesio Ferreira/Estado de Minas )


A maioria das pessoas que ocupam hoje pousadas e hotéis não são turistas, mas moradores do município que perderam suas casas e vivem temporariamente nos estabelecimentos, com diárias pagas pela Vale.

De acordo com o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Aldinei Pereira, o impacto foi grande no comércio: redução de 50% a 70% nos negócios nos primeiros meses após a tragédia.

Para Eliane Castro, vice-presidente da Associação de Turismo de Brumadinho e Região (ATBR), potenciais turistas acreditam que a cidade está toda debaixo da lama e, por isso, deixaram de visitá-la. No entanto, apenas 5% do território de Brumadinho foi afetado fisicamente pelo rompimento da barragem, e 95% não sofreu nenhuma alteração. “As pessoas buscam por Brumadinho na internet e só o que veem é lama, mas muita coisa não foi afetada. As pousadas estão abertas; os restaurantes, funcionando; e os acessos à cidade, livres”, destaca. “Então, a gente precisa que as pessoas voltem a visitar. À medida que a cidade volta a funcionar com alguma normalidade, conseguimos superar mais rapidamente.”


Cristóvão trabalha com transporte de turistas e locação de carros. Após a tragédia, precisou vender dois veículos (foto: Arquivo Pessoal)
Cristóvão trabalha com transporte de turistas e locação de carros. Após a tragédia, precisou vender dois veículos (foto: Arquivo Pessoal)

 

Vasto território

Brumadinho tem 639,4km² de extensão, basicamente o dobro da capital mineira, Belo Horizonte (331,4km²). O território conta com cinco distritos, sendo eles a sede do município, Aranha, Conceição de Itaguá, Piedade do Paraopeba e São José do Paraopeba, além de vários povoados. Apenas uma pequena parte do município foi atingida pela lama. A paisagem da cidade difere um pouco das imagens apresentadas por buscadores da internet. Brumadinho tem aparência praticamente normal, exceto por obras, como uma nova ponte que a Vale construiu para reparar os danos a um dos acessos ao município, que havia sido afetado pelo rompimento da barragem.

Além disso, é possível ver filas nos bancos e na sede que a mineradora montou para realizar os pagamentos de indenizações aos moradores. Antes da tragédia, a população era de 34 mil habitantes, mas agora cresceu bastante, porque pessoas de regiões próximas foram prejudicadas com o desastre e estão na cidade requisitando da Vale a reparação financeira. Embora não existam dados atualizados, especula-se que a população do município, no momento, é maior que o dobro do número oficial de habitantes.

Ver galeria . 26 Fotos Tragédia em Brumadinho: rompimento de rejeitos da Barragem 1 da Mina Feijão Gladyston Rodrigues/EM/D.A press
Tragédia em Brumadinho: rompimento de rejeitos da Barragem 1 da Mina Feijão (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A press )


Cristóvão Lana tem 62 anos e trabalha há mais de duas décadas com turismo em Brumadinho. Ele e o filho têm uma cooperativa de transporte de turistas (transfer) e veículos para locação, mas, desde o rompimento da barragem, eles precisaram vender dois carros. “Se (a mineração) tivesse mais segurança, não teria acontecido tudo o que aconteceu. Mas eu sou otimista, acho que não tem como piorar mais”, diz. “Eu tenho fé de que agora as coisas vão melhorar. As pessoas precisam voltar a frequentar Brumadinho para que a gente consiga se restabelecer.”

*Estagiária sob a supervisão de Cida Barbosa - a repórter viajou a convite da ATBR 

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