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Correio Braziliense

Crítica a Bolsonaro dá o tom na Parada do Orgulho LGBT na Paulista

A parada foi a primeira realizada após a posse do presidente Jair Bolsonaro (PSL), alvo de críticas dos participantes por suas posições consideradas homofóbicas


postado em 24/06/2019 06:00

O público esperado era de 3 milhões de pessoas, mas a Polícia Militar não divulgou nenhuma estimativa(foto: Miguel Schincariol / AFP)
O público esperado era de 3 milhões de pessoas, mas a Polícia Militar não divulgou nenhuma estimativa (foto: Miguel Schincariol / AFP)

 

A 23ª edição da Parada do Orgulho LGBT levou uma multidão ontem às ruas da cidade de São Paulo e foi marcada por forte carga política. Sob o slogan “Nossas conquistas, nosso orgulho de ser LGBT+”, o ato celebrou 50 anos de Stonewall, um episódio de repressão policial em Nova York que se tornou marco para o movimento em todo o mundo. Com a expectativa de reunir 3 milhões de pessoas, cujo público presente não foi informado pela Polícia Militar, a parada foi a primeira realizada após a posse do presidente Jair Bolsonaro (PSL), alvo de críticas dos participantes por suas posições consideradas homofóbicas.

 

O público se dividiu entre 19 trios elétricos, um a mais do que no ano passado. A marcha começou no início da tarde na Avenida Paulista, passou pela Rua da Consolação e terminou ao anoitecer no Vale do Anhangabaú. O asfalto colorido por glitter — vendido por R$ 10 — virou uma pista de dança e de animadas performances.

 

Uma das atrações internacionais mais aguardadas foi a cantora Mel C, ex-integrante das Spice Girls, sucesso nos anos 1990. A artista subiu em um trio elétrico por volta das 14h40 e levou o público ao delírio ao executar um trecho de Wannabe, um dos clássicos do grupo.

 

“Estou muito feliz de estar de volta a São Paulo, um lugar que sempre foi generoso comigo”, disse Mel C. Completaram a lista de atrações Luisa Sonza, Iza, Gloria Groove, Aretuza Love, Lexa e Mc Pocahontas. Em meio às apresentações artísticas, o tom político da parada ficou evidente. Presidente da ONG APOLGBT SP, organizadora do evento, Cláudia Regina lembrou que Stonewall é um marco na luta pelos direitos LGBT.

 

(foto: Miguel Schincariol / AFP)
(foto: Miguel Schincariol / AFP)

Em junho de 1969, a comunidade gay de Nova York organizou uma série de manifestações para protestar contra a invasão policial a um bar chamado Stonewall Inn, em Manhattan. À época, manter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo ainda era considerado crime nos Estados Unidos. O episódio incentivou, no ano seguinte, a realização de marchas LGBT em algumas das principais cidades norte-americanas.

 

“(Stonewall) Mostra que, independentemente do governo ou de qualquer ameaça que enfrentamos diariamente na rua, precisamos ser fortes, resistir e sermos nós mesmos, vivendo e lutando por nosso amor, que não difere em nada do amor de outras pessoas”, afirmou Claudia, durante a coletiva de imprensa para apresentação da marcha.

 

Confronto

 

A Parada do Orgulho LGBT ocorreu três dias depois da 27ª edição da Marcha para Jesus, evento evangélico realizado também em São Paulo e que contou com a presença do presidente Bolsonaro. Na ocasião, chamou a atenção o momento em que ele simulou executar a tiros alguém caído, ao lado de vários pastores, que sorriam diante do gesto.

 

Durante a marcha LGBT, ficou claro o confronto entre a bandeira hasteada pelos organizadores e participantes e aquela levantada pelo atual governo. Em maio, por exemplo, o presidente Bolsonaro assinou decreto que retirou o incentivo ao turismo LGBT do Plano Nacional de Turismo, proposto originalmente pelo ex-presidente Michel Temer (MDB). No último dia 14, ele classificou como “equivocada” decisão do plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) de, por oito votos a três, autorizar a aplicação da Lei do Racismo para punir criminalmente os atos de homofobia e transfobia.

 

(foto: Miguel Schincariol / AFP)
(foto: Miguel Schincariol / AFP)

 

“Demissão”

 

“Antes de mais nada a parada é importante para que a gente possa celebrar a cidade de São Paulo que celebra sua diversidade. É muito significativo que no mesmo feriado que a gente teve a Marcha para Jesus a gente tenha a parada”, disse o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), em passagem pelo evento.

 

O prefeito também direcionou uma crítica ao governo Bolsonaro. “É muito triste a gente ver casos como a demissão de diretor de Banco que contrata atores e atrizes da comunidade LGBT para fazer comercial”, afirmou. “Que isso não seja uma política de governo”, acrescentou o prefeito, cuja administração patrocina a marcha com R$ 1,8 milhão e disponibiliza a infraestrutura de segurança e de trânsito. Segundo ele, no ano passado o impacto econômico do ato na capital paulista foi de R$ 288 milhões.

 

Entre outros políticos, participaram da marcha a ex-prefeita Marta Suplicy e os deputados federais do PSol Sâmia Bonfim e David Miranda, este último casado com o jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept Brasil, que vem causando dor de cabeça ao governo por divulgar mensagens atribuídas ao ex-juiz federal e hoje ministro da Justiça, Sérgio Moro, e a procuradores da Operação Lava-Jato. Todos esses políticos dirigiram críticas ao presidente Bolsonaro.

 

“Nós temos um presidente abertamente LGBTfóbico. Por isso, é imprescindível mostrar que seremos resistência nesse momento”, disse Miranda, lembrando que o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBT no mundo.

 

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