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"O silenciamento foi encomendado"

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 07/07/2019 04:04
Célia Helena Vasconcelos em frente ao grafite que inspirou a pesquisa sobre a tragédia em Goiânia:

Qual é a relação da senhora com o césio 137?
A minha história com o césio começa com o acidente. Naquele ano, 1987, eu estava gestante da minha segunda filha e morava a 150m do ferro-velho do Devair (Alves Pereira, na Rua 26-A). Vivenciei de perto e com muita inocência, assim como a maioria das pessoas ali. Não só pela idade, mas porque era uma coisa absolutamente nova. Não só para a gente, mas para todo o Brasil. Acho que nem a Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear), que lidou com a problemática, conhecia os procedimentos para um acidente daquela proporção.

O fato de estar grávida provocou pânico ou, realmente, não tinha informação sobre o perigo da radiação, como aconteceu com as pessoas que trabalharam com os rejeitos do material radioativo?
Era inocente. Não tínhamos medo de passar pelas ruas interditadas. A gente passava, assim como os jornalistas entravam e faziam as suas reportagens, o policiamento, enfim. O fato de estar gestante era mais problemático. Eu estava no meio daquele vulcão e, o tempo todo, eles tinham de ficar monitorando. Era incômodo para mim e para eles, que tinham de ir duas vezes lá ao dia, no mínimo, para ver se eu não estava contaminada. A inocência era tão grande que eu permaneci lá, tive a minha filha lá.

Antes da dissertação, a senhora havia feito outro tipo de trabalho com o césio?
Na realidade, não pensava no assunto. Precisava fazer o TCC (para a graduação de letras) ; retornei para os estudos bem tarde, depois dos 40 ; e fui passando pela Rua 57, um dos locais onde o Roberto (Alves) levou a cápsula, em um primeiro momento, que era onde eu residia; Vi um grafite na parede. Ele conta a história com minúcias. É um grafite, mas, quando você olha, ainda mais eu, que trabalho com linguagem, você vê toda a história. E, muitas vezes, reagindo à história da época, contestando. Achei interessante e fiz o meu TCC. Depois, entrei para o mestrado de linguística.

E como foi a escolha do tema para o mestrado?
O meu propósito inicial não era falar de silenciamento, mas trazer a história do césio por intermédio do grafite, uma forma de arte que aprecio bastante, pois é abrangente e popular. Eu tentei ir em busca de outros grafites. Rodei Goiânia e não encontrei. Fui para Abadia de Goiânia, nossa vizinha, e nada também. Não existia nada. Daí, agendei uma visita à Cnen, onde está o lixo atômico. Quando cheguei lá, vi que tinha um salão que recebe os visitantes e, nesse salão, tem alguma coisa que fala da história (do acidente), mas o objetivo principal é mostrar a parte econômica e de que ele não tem nenhuma periculosidade. Mesmo ali, vi que havia um silenciamento. E veio a ideia da dissertação.

A senhora percebeu que, desde o início, a tragédia do césio começou a ser esquecida?
De certa forma, dá para pensar que o silenciamento foi encomendado. Nas entrelinhas, não há nada que fala sobre o césio naqueles lugares que protagonizaram a história. Não existe uma plaquinha, nada. Tive a comprovação disso pelo meu trabalho. Foi muito estranho, para mim mesma.

E como acontece esse silenciamento?
Não foi um silenciamento arbitrário, como na época da ditadura militar. Ele veio vagarosamente, sorrateiramente. O nome da Leide (das Neves) pareceu o golpe final (ao mudarem a nomenclatura da Superintendência Leide das Neves, a Suleide) para Centro de Assistência ao Radioacidentado (Cara). No antigo IGR (Instituto Goiano de Radioterapia), de onde o Roberto e o Wagner (Pereira) tiraram o aparelho (de raio x, com a cápsula de césio) e levaram para a Rua 57, ali, hoje, é o Centro de Convenções. Deveria ter ao menos uma plaquinha, alguma coisa que mostrasse onde tudo começou. Mas não há. No Estádio Olímpico, para onde as pessoas iam para fazer medições e, depois, ficaram confinadas para a limpeza deles, também foi reestruturado. Na Rua 57, em 1993, o Siron Franco fez o projeto para que ali tivesse um museu, um memorial que virasse ponto turístico para informação, para conhecimento, mas não há nada. Tanto lá quanto na Rua 26-A, se você perguntar para um jovem que mora ali, terá uma grande chance de ele não saber nada do que houve na cidade.

Qual é a importância do Ministério Público, da Justiça e de pesquisadores para que a tragédia do césio 137não seja esquecida?
Para iniciar, acho que a construção do prometido memorial na Rua 57 seria bem-vinda. Preservar um dado histórico é muito importante. Até para prevenir futuras tragédias. Ainda hoje continuam descartando aparelhos daquele tipo sem vigilância ou fiscalização, como aconteceu em 2019 em Alagoas (em 22 de janeiro, a Vigilância Sanitária recolheu uma cápsula de raio x em um ferro-velho de Arapiraca).

Esse silenciamento, portanto, tem a ver com uma tentativa de evitar que as pessoas atingidas diretamente pela exposição ao material radioativo busquem direitos e indenizações?
Para as pessoas que estão diretamente envolvidas, sim. Na realidade, elas já foram tanto atrás dos direitos delas e, segundo as reportagens, não encontram. E, conversando com essas pessoas, a gente percebe que nem mesmo encontram os medicamentos. São vítimas do césio, do descaso do governo e do silenciamento. É uma parte da sociedade completamente silenciada. Você não ouve falar deles. Hoje, elas não querem mais nem participar de reportagens, pois nada se resolve e traz aquela dor de volta.

E o que precisa ser feito?
Deveriam ter locais para estudo, pesquisa, até para as pessoas radioacidentadas. Deveria ter, até hoje, o monitoramento dessas pessoas. O silenciamento vem de toda a sociedade, de parte do governo, da população afetada, das pessoas que vivenciaram aquilo. Quem foi diretamente atingido perdeu não somente as casas, mas a identidade, a vida, a família. E o sossego para o resto da vida. O objetivo do meu trabalho é para que seja um grito. É a nossa história, é feia, não é bonita, foi dolorida, mas é a nossa história. Não pode, simplesmente, silenciá-la, apagá-la, tirá-la do contexto, como está sendo feito. Renomearam a Rua 57, a Rua 26-A. Para encontrá-las, hoje em dia, é preciso ter alguém que conheça a história. E a cartada final foi renomear a Suleide, tirando o nome de Leide das Neves da superintendência. Ela é um símbolo, um ícone, um signo, o nome de uma criança que morreu no acidente. Silenciar o órgão é silenciar as vítimas, os radioacidentados.
















Leia amanhã: a luta pela construção de um memorial às vítimas do césio 137




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