Publicidade

Correio Braziliense

Círio de Nazaré reúne mais de 2 milhões de fiéis em Belém

Maior celebração católica do Brasil reuniu mais de 2 milhões de fiéis neste domingo nas ruas de Belém. Evento mais importante dos paraenses aquece a economia local e atrai pessoas de todos os lugares e credos


postado em 13/10/2019 23:16 / atualizado em 14/10/2019 18:31

Desde 2013, festividade recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco. Expectativa do Dieese é movimentar, até o fim do mês, R$ 1 bi na capital paraense(foto: Marcelo Lelis/Vale)
Desde 2013, festividade recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco. Expectativa do Dieese é movimentar, até o fim do mês, R$ 1 bi na capital paraense (foto: Marcelo Lelis/Vale)
Belém — Ele saiu de Manaus na manhã de sábado com destino a Belém. Chegou no começo da tarde e se propôs a fazer o que tinha decidido. Percorreu os 3,7 km que separam a Basílica de Nazaré da Catedral da Sé para pagar a sua promessa. Há oito anos, ele faz a mesma coisa. O gerente de lojas Richard Miranda, de 29 anos, chega à Sé com os joelhos em carne viva, depois de sangrar por sete longas horas ao encontro de Nossa Senhora.

 

Essa é a essência do Círio de Nazaré, a maior celebração católica do Pará e do Brasil, que, neste ano, completou 227 anos e teve como tema "Maria, mãe da Igreja". Desde 2013, recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). São histórias de devoção, dor, lágrimas e renascimento. É pura catarse de coletiva. Nas ruas, todo paraense diz que, para entender o significado do Círio, é preciso vir, ver e viver.

 

Richard, ao longo da maior parte do autoflagelo de joelhos, foi ajudado por vários voluntários, pessoas que trabalham sem nada em troca todos os dias de celebração do Círio. Só pelo prazer em servir. Um deles foi o bombeiro civil Hadren Moura, de 22 anos. Detalhe: Hadren é evangélico da Assembleia de Deus. Incompatibilidade? “Nenhuma. Sinto prazer em ajudar na fé, que é dele, e move tudo”, afirma. Richard, com os dois joelhos dilacerados, não disse mais nada. Bebeu água que lhe derramaram na boca e corpo e arrastou-se entre os caminhos de papelão que os voluntários improvisaram para que ele vencesse a sua via-crucis.

 

Belém, de sexta até o início da tarde de ontem, dia da grande e principal procissão, encharcou-se de Nossa Senhora de Nazaré. E não é só força de expressão. Ora água da chuva, típica na região no meio da tarde; ora pela Baía de Guajará, na grande procissão fluvial do sábado; ora água jogada pelos fiéis, para amenizar o calor e o sofrimento dos pagadores de promessas. Uma multidão de mais de dois milhões de seres invadiu as principais avenidas, cheias de mangueiras da cidade, para celebrar a padroeira da Amazônia. E, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), toda essa gente vai injetar, até o fim de outubro, quando se encerram as celebrações para Nossa Senhora, cerca de R$ 1 bilhão à economia local.

 

Há oito anos, Richard Miranda percorre 3,7 km de joelhos até a Basílica, e, ao lado, o bombeiro Hadren Moura, evangélico, trabalhando como voluntário(foto: Marcelo Abreu/Esp. CB/D.A Press)
Há oito anos, Richard Miranda percorre 3,7 km de joelhos até a Basílica, e, ao lado, o bombeiro Hadren Moura, evangélico, trabalhando como voluntário (foto: Marcelo Abreu/Esp. CB/D.A Press)

 

Gente com velas enormes na mão. Gente com pedaços de corpos em cera. Gente com miniaturas de casas. Gente com livros na cabeça, pela graça de ter conseguido a aprovação em algum concurso. Gente. Gente em excesso. Gente com histórias de superação. Gente que veio pedir. Gente chorando, cantando. Um mar de gente.

 

Entre essa gente tanta, antes das 6 da manhã, estava Simy Coutinho, de 55 anos, vestida de Santa Edwiges, a santa das causas impossíveis. “Vim para agradecer pela saúde da minha mãe, que estava com câncer, desenganada, e hoje está curada”, contou. Na mão, Simy segurava a imagem de Edwiges. Os olhos abertos para Nossa Senhora de Nazaré. “Ela, a Virgem de Nazaré, me ampara todos os dias. É impossível viver sem ela”.

 

E as histórias vão se sucedendo ao longo do percurso que separa a Sé da Basílica, itinerário da última procissão do Círio. Mais à frente, a miudinha Iasmin, de nove meses, vestida de anjo, dormia nos braços da avó, Lurdinha de Souza, de 59 anos, que saiu de Icoaraci, distrito de Belém.

 

“Minha filha teve parto muito difícil. Minha neta nasceu prematura e precisou de cuidados intensivos”, disse a avó. A mãe de Iasmin, Sulian Letícia, de 26 anos, ainda na maternidade, decidiu que a filha viria de anjo no próximo Círio. E veio. Iasmin dormiu, literalmente como anjo, no braço da avó. “Ano que vem, será a vez de pagar a minha parte na promessa. Vou fazer a caminhada na corda”, disse Sulian.

 

Iasmin, de nove meses, vestida de anjo, nos braços da avó, Lurdinha de Souza(foto: Marcelo Abreu/Esp. CB/D.A Press)
Iasmin, de nove meses, vestida de anjo, nos braços da avó, Lurdinha de Souza (foto: Marcelo Abreu/Esp. CB/D.A Press)

 

Sacrifício

A procissão de ontem saiu da Avenida Presidente Vargas, passou pela Avenida de Nazaré e chegou à Basílica, onde a imagem peregrina ficará por alguns dias em adoração. Depois segue para o Colégio Gentil Bitencourt, seu lugar de moradia e visitação até o ano que vem, quando se iniciam as celebrações de mais um Círio.

 

No percurso, a santa foi ovacionada com palmas, cânticos e muitas lágrimas. Em cada esquina, a multidão correu para vê-la passar. Mesmo que de longe. Mesmo com apenas um aceno. Nossa Senhora de Nazaré, na sua berlinda e com o manto confeccionado para este ano, seguiu pelas avenidas de uma Belém entupida. Na corda, onde pagadores de promessa — homens e mulheres descalços – se agarram durante toda a procissão, as cenas são inacreditáveis. É, certamente, o momento de maior dor, de desespero, de resistência e de demonstração dessa gente devota.

 

Durante a caminhada, os voluntários (ontem se somaram mais de 5 mil) jogaram água nas pessoas agarradas às cinco estações da corda. Cada uma tem 50 metros de corda. Depois que todas as cinco estações passaram, veio Nossa Senhora de Nazaré, na sua berlinda. O ponto alto. Pessoas ajoelharam nas ruas e calçadas. Uma multidão assistiu das janelas ou varandas dos apartamentos.

 

A certa altura da Avenida de Nazaré, a emoção tomou conta de toda aquela gente. Crianças de famílias carentes do Projeto Vale Música cantaram várias canções em homenagem à Virgem de Nazaré. Elas ensaiam durante todo o ano para esse grande dia. É um detalhe interessante.

 

Grande parte dessas crianças vem de lar evangélico. Os pais autorizam, incentivam e ontem estavam lá para ver os filhos cantarem à Maria. Catarina, de oito anos, filha de uma professora e um taxista, resumiu tudo: “Eu canto para Nossa Senhora de Nazaré, que é mãe de todos, mãe da Amazônia”. Vitor Mateus, de 11 anos, filho de pais evangélicos, continuou: “Cantando, eu falo de amor e fé”.

 

A idealizadora do projeto, a pianista Glória Caputo, emocionou-se ao falar do projeto que existe há 15 anos: “É realização. O Brasil é isso. Basta dar oportunidade, que as pessoas mostram que sabem fazer”.

Casas enfeitadas para o evento 

(foto: Marcelo Abreu/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Abreu/Esp. CB/D.A Press)

Desde o início de outubro, Belém se prepara para o Círio, o Natal das gentes do Pará. Ele tem exatamente essa importância para a população católica do estado. É o momento de reencontro das famílias, das comidas típicas da região (pato no tucupi, tacacá e maniçoba).Mês das fachadas de prédios públicos e residenciais enfeitados com imagem da Virgem de Nazaré, balões coloridos e cartazes de saudação à santa.

 

 

E não importa o sacrifício feito para chegar a Belém. Romeiros vêm de todos os cantos do estado. E vêm da forma que podem vir. Uns chegam de ônibus, outros pelo rio e há muitos, centenas, milhares que vêm a pé. A dona de c asa Maria Raimunda Borges Mendes, de 43 anos, devota, saiu de Camatá, 245 km de Belém. Veio com um grupo de romeiros. Todos a pé.

 

Levaram seis dias pelejando pelas estradas. Dormindo ao relento, debaixo de sol escaldante. Mas, driblando todas as adversidades, chegaram na noite de sexta-feira. Pés em carne viva, cheios de bolhas e calos. E foram acolhidos na Casa de Plácido, nome do pescador que achou a imagem da santa às margens do igarapé Murucutu, em 1700. Ao lado da Basílica, é o abrigo para onde os romeiros se dirigem em busca de algum refrigério. Lá, centenas de voluntários os recebem com massagens e curativos. Na casa, mantida só com doação, podem tomar banho, comer e dormir. Ontem, uma grande procissão os esperava. E foi para isso que vieram.

 

Maria Raimunda chegou com os pés sangrando. Feridas grandes. E logo foi cuidada. ”Tive um laudo de câncer, mas ainda tô investigando. Não será nada. Eu confio em Nossa Senhora de Nazaré. Se não fosse por ela, eu nem estaria mais aqui”, disse a devota, chorando e com um terço entrelaçado às mãos. A voluntária Maria do Carmo Braga, de 67 anos, cuidou de Maria Raimunda. Lavou suas feridas e lhe fez curativos. “Cheguei aqui às sete horas da noite e só vou sair amanhã de manhã”, contou. Quando é perguntada por que faz isso, todos os anos, ela não hesitou: “É a minha maneira de agradecer à Nossa Senhora de Nazaré tudo que recebo dela. É a coisa mais linda que eu posso fazer pelo outro”.

 

Na Casa de Plácido, de quinta até ontem, passaram mais de 70 mil pessoas, que receberam o auxílio de mais de mil voluntários, revezados em turnos. O tamanho da fé dos fiéis é diretamente proporcional às feridas que carregam no corpo. A professora e ministra da eucaristia Adriana Monteiro, de 46 anos, sabe o que diz. Ela também saiu da distante Camatá, andou os mesmos 245 km de Maria Raimunda e também sofreu por seis dias na estrada. “Até a dor fica menor diante da Virgem de Nazaré. Ela nos faz renascer todo dia.”

 

Superação dos obstáculos 


Durante todo o domingo, desde as 3h da madrugada, Belém estava lotada de gente indo para a Sé, onde a santa dormiu. Se é que conseguiu. A vigília na porta nunca cessa. Fiéis caminham descalços. Outros levam o que podem. E cada tem uma história muito partícula de devoção experiência com Nazaré. Duas coisas unem toda essa gente: a fé inarredável e a superação de todos os obstáculos para celebrar Nossa Senhora, no segundo domingo de outubro de todos os anos. Há mais de dois séculos tem sido assim.

No meio de tanta história, uma especialmente comoveu. A assistente administrativa Girlane Monteiro, de 33 anos, um filho de 4, caminhava sozinha em meio à multidão. Ela carregava um saco de terços de dedo. Havia comprado 500. Gastou R$ 250. Moradora de Jurunas, um bairro distante do centro da capital paraense, ela pegou um moto-táxi, até um certo local onde deu para passar (a maior parte das ruas estava bloqueada) ,e depois caminhou a pé mais uma hora. E chegou à Avenida de Nazaré, para ver santa passar. Com o saquinho de terço nas mãos, ela entregou um a um para quem quis receber. E o fe
com um sorriso e afeto encantadores. “Há três anos, tive uma suspeita que meus nódulos no fígado podiam ser malignos. Mas exames mostraram que não. Estou em tratamento e fiz essa promessa”,explicou.

Depois de entregar mais um terço para o interlocutor que só lhe perguntava coisas e queria saber da sua vida, ela disse, com paciência de quem realmente crê: “Tudo que peço para ela (santa), eu consigo. Nossa Senhora nunca abandona aquele que pede com fé”. Girlane abraçou o interlocutor e sumiu no meio da multidão. Levou o saco de terços e foi espalhando sua fé pelo meio do caminho. Em Belém, as histórias das pessoas se entrelaçam e se juntam.

No fim da manhã de ontem, na passagem da berlinda, em cada ponto, as pessoas esticaram as mãos como se quisessem tocar a santa. As que estavam na rua, nos prédios, nos camarotes.

Ricos, pobres. Todos iguais. A celebração nível todos. Pelo menos na procissão do Círio. O desejo de tocar a santa é sempre tão visceral, que os fiéis, em pensamento, tocam. Até abraçam. Contam suas vidas, pedem, agradecem. E choram. Choram muito. O Círio é isso.

Nada mais que isso. E tudo isso. Pelas ruas de Belém, quando se pergunta para qualquer pessoa qual a tradução e o sentido dessa celebração, ela responde, com o sotaque carregado do chiado do paraense: “Mano, para entender o Círio de Nazaré, é preciso vir, ver e viver. Não dá para explicar”.

Eles têm razão. É preciso vir, ver e viver. É preciso sentir. É preciso se despir de tudo que se imaginava saber. E, sobretudo, é preciso quase nada perguntar. As respostas estão em cada esquina, em cada casa enfeitada, em cada gente que estica a mão com desejo de tocar na berlinda, em cada um que sofre no flagelo da corda. Em cada lágrima silenciosamente derramada.

Se quem perguntou conseguiu enxergar tudo isso, finalmente, entendeu o Círio de Nazaré. Ano que vem, Belém viverá tudo isso novamente. E, ainda assim, será completamente
diferente.

 

*O repórter viajou a convite da Vale 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade