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Correio Braziliense

'Brasil tem condições de erradicar trabalho infantil', diz Nobel da Paz

Ganhador do prêmio por seu trabalho de libertação de crianças em condições de trabalho análogas ao escravo, Kailash Satyarthi quer estimular o ativismo entre os jovens


postado em 20/10/2019 06:00 / atualizado em 20/10/2019 08:08

(foto: Vinicius Cardoso /CB/D.A. Press)
(foto: Vinicius Cardoso /CB/D.A. Press)
Cumprimentando a todos com uma energia contagiante, passos lentos e sempre sorrindo. Foi assim que o ganhador do Nobel da Paz de 2014, Kailash Satyarthi, de 64 anos, chegou à Universidade de Brasília (UnB), para conversar com adolescentes sobre ativismo, educação e libertação de crianças em trabalho escravo. Uma das histórias narradas pelo indiano durante sua palestra, foi do resgate feito em uma aldeia na Índia. Segundo o relato, ao resgatar um grupo de crianças em uma pedreira, ele ofereceu bananas e o grupo entrou em choque, pois nunca vira aquilo. Uma menina perguntou que tipo de cebola era aquela, outra disse que nunca havia visto aquele tipo de batata. Então, ele explicou que era uma fruta doce, mas esqueceu de dizer para tirar a casca e elas comeram mesmo assim. Logo depois uma menina agarrou o ombro dele e perguntou “por que não veio antes?”


O relato comoveu a todos e cortou o silêncio da atenta plateia, quando ele lançou a pergunta: “o que nos impede de lutar contra o trabalho infantil e pelas crianças?”,  e iniciou o debate. Kailash contou que se envolveu com o tema desde quando viu, aos cinco anos, crianças trabalhando em vez de estudar e “aquilo tocou fundo meu coração”. O engenheiro decidiu o  coração e, em de 20 anos de ativismo, já libertou mais de 80 mil crianças do trabalho análogo à escravidão. No Brasil, segundo dados do IBGE, 1,8 milhão de crianças e adolescentes, de 5 a 17 anos, trabalham, e 190 mil têm entre 5 e 13 anos. Para Kailash, o país tem leis que protegem as crianças e políticas sociais, como o Bolsa Família, e não está tão longe da erradicação, depois da palestra ele concedeu a seguinte entrevista ao Correio

Por que o senhor escolheu o Brasil para estar nessa data?

Eu tenho mais de duas décadas de experiência de trabalho com os brasileiros. Com a sociedade civil, governo, empresários, igrejas, então, tenho plena confiança no poder dos brasileiros, no poder de mudança, de liderança e justiça. Acredito fortemente que a juventude brasileira vai liderar essa campanha dos 100 milhões.
 

O que o motivou a combater o tráfico de crianças e o trabalho infantil? 

Essa resposta me faz voltar para minha infância. Quando eu tinha cerca de cinco anos, fui para a escola pela primeira vez. Eu vi um menino, da minha idade trabalhando, e eu fiquei chocado ao ver que ele não ia para escola. Então, eu perguntei para minha professora e para minha família e eles me contaram que eles eram crianças pobres e estavam ajudando a família trabalhando. Nada de novo nisso. Toda manhã e tarde eu costumava ver essa criança trabalhando nas ruas polindo sapatos de outras crianças como eu. Então, eu fiquei muito chateado e bravo com isso. Um dia, eu me aproximei e perguntei para o pai: “Por que o senhor não leva seu filho à escola?”Ele ficou surpreso e, depois de alguns minutos, disse: “Ninguém nunca havia me perguntado isso, eu nunca pensei no assunto. Meu pai trabalhava desde a infância, isso aconteceu comigo e, agora, meu filho também trabalha. Nascemos para trabalhar”. Eu comecei a chorar, porque eu não podia concordar que uma criança não nasceu para estudar a custo da sua liberdade e do seu futuro. Essa raiva e essa dor me deram a força para olhar para o mundo com outros olhos. E eu comecei a pensar que eu precisava mudar isso. Essa coisa começou a crescer dentro de mim. Meus pais queriam que eu fosse engenheiro. Então, eu me formei, ensinei na universidade por um ano e meio, mas finalmente decidi seguir meu coração, pensando que minha mente deveria me seguir. Eu acredito em seguir o coração.

Como livrar as crianças do trabalho escravo?

O primeiro passo é mostrar quais são as boas política sociais. E mostrar que o trabalho infantil é ruim e que precisa ser erradicado. Isso é um crime, uma maldade, que precisa ser abolida. É preciso mudar o pensamento de quem está no topo e ir fundo, ou sejam de presidentes às  pessoas comuns. Isso é muito importante.
 

O que as pessoas podem fazer? como as pessoas podem se tornar ativistas?  

Eu diria que, primeiro, você tem que confiar que esse mundo pertence a toda criança, porque eles são o futuro da humanidade, do planeta, do  mundo. Então, temos que achar uma forma de criar conexões mais próximas com as crianças. Meu conselho é fazer amizade com uma criança. Pode ser amigo da sua  irmã, do seu irmão ou dos seus filhos. Você pode ser amigo de qualquer criança na rua ou nas escolas. Se você tentar ouvi-las, escutar os problemas delas e compartilhar os seus, você verá muitas coisas comuns e isso te dará a essência de que temos que andar juntos. E quando você anda junto, você se torna um ativista. Mas todo ativista precisa ter coragem de questionar. O primeiro passo importante é que você precisa ter coragem para questionar o que está ao seu redor. Tem muitas coisas erradas, injustiças, discriminação de gênero, racismo, abusos de mulheres, violência doméstica, são tantas coisas acontecendo ao nosso redor, mas a gente, normalmente, não questiona, só passamos por cima. A gente precisa ter coragem de questionar. 
 

O presidente Jair Bolsonaro já deu algumas declarações polêmicas sobre o tema. Ele disse: “hoje em dia é tanto direito, tanta proteção, que temos uma juventude aí que, parte considerável, não está na linha certa. Então o trabalho dignifica o homem, a mulher, não interessa a idade.” Qual sua opinião essa fala?  

Há muitos brasileiros, e muitos dirigentes, que acreditam na mesma coisa. Eles, talvez, tiveram o trabalho infantil presente na infância, mas minha pergunta para eles é: eles mandariam os próprios filhos para uma fábrica para trabalhar ou os mandaria para a escola? Com idades de 8 ou 9 anos, eles não mandariam para a fábrica. É por isso que eles não podem ser dois tipos de pessoa: de um lado com poder e ricas, e de outro, pessoas pobres. Isso é errado. É, basicamente, uma maldade. Trabalho infantil é uma maldade e um crime. O Brasil, tenho certeza, tem respeito pela Constituição. O Brasil tem uma das melhores leis do mundo, um dos melhores mecanismos de defesa, como a Família e tantos outros  programas. Temos uma das melhores leis sobre trabalho infantil no Brasil. Eu tenho certeza que o presidente disse algo sobre sua própria infância, mas tenho certeza que ele respeitará as leis e a Constituição. 
 

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) brasileiro diz que é dever da família, do poder público e de toda a sociedade assegurar os direitos das crianças, como saúde, educação, dignidade, entre outros. O senhor acha que o Brasil está no caminho para cumprir essa determinação?

Não está muito longe. Com certeza foi feito progresso  e temos que respeitar isso. Não é somente o governo, mas as comunidades, empresários, igrejas, a mídia também tem papel importante no progresso. Mas é preciso ter um senso de urgência e um senso de responsabilidade. e coragem para salvar as crianças, para que esse estatuto tenha significado. E é por isso que essa campanha dos 100 milhões foi lançada. Para que a juventude crie uma voz forte, uma plataforma de resistência nas universidades e faculdades para nossas crianças. 

Campanha global pelos direitos de crianças pobres 

No Brasil para lançar a campanha global “100 Milhões por 100 Milhões contra o Trabalho Infantil”, coordenada pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação, com parceria temática do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil no Brasil, Kailash Satyarth  quer mobilizar 100 milhões de pessoas, estimulando especialmente os jovens, a lutar pelos direitos de 100 milhões de crianças que vivem na extrema pobreza, sem acesso à saúde, educação e alimentação, em situação de trabalho infantil e completa insegurança. 

Com ações diretas na libertação de crianças da condição de trabalho análogo à escravidão na Índia, Kailash já coordenou várias invasões a fábricas e no campo para libertar crianças. Em muitas, contou com a ajuda da polícia, autoridades e da mídia local. As crianças resgatadas são encaminhadas às famílias, matriculadas em escolas e recebem tratamento psicológico e cursos profissionalizantes.    
 
Kailish é fundador da Marcha Global contra o Trabalho Infantil, em 1998, depois de uma marcha que envolveu cerca de 2 mil organizações não-governamentais e muitos sindicatos. As pessoas partiram de locais como Manila, capital das Filipinas; São Paulo, Cidade do Cabo, na África do Sul; se encontraram na Europa e seguiram até Genebra, na Suíça. Ali, os participantes decidiram formar uma organização comum. Assim, a Marcha Global contra o Trabalho Infantil chegou a ter presença em 140 países. 

*Estagiária sob supervisão de Cláudia Dianni 

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