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Correio Braziliense

Jovens de todo o mundo apresentam propostas para resolver a questão da fome

As principais alternativas aliam sustentabilidade com tecnologia e formas alternativas de agronegócio. O debate ocorreu esta semana no Youth Ag Summit (YAS)


postado em 09/11/2019 18:58 / atualizado em 09/11/2019 19:16

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)

Atentos ao fato de que até 2050 seremos mais de 9,7 bilhões de habitantes no planeta, jovens de 45 nacionalidades diferentes estiveram imersos durante três dias de debate sobre formas de alimentar toda a população mundial. As principais alternativas aliam a preservação do meio ambiente com tecnologia e formas alternativas de agronegócio. O debate ocorreu esta semana no Youth Ag Summit (YAS), organizado pela Bayer, em Brasília. 

 

Um dos doze brasileiros presentes, o nutricionista Lucas Almeida, 24, considera que a solução é o reaproveitamento de alimentos que seriam descartados por fabricantes. Com o projeto Chepa, ele e outros profissionais vendem cestas de alimentos por um preço até 45% mais barato que o comercializado em mercados. A cesta verde é composta por cinco legumes ou hortaliças e três frutas. Os alimentos passam por análises laboratoriais que comprovam a aptidão para consumo e, depois, as cestas são vendidas para famílias carentes.

 

De acordo com Lucas, a maior dificuldade em manter o projeto é a legislação brasileira, que não prescreve que o nutricionista deve se responsabilizar pela comida eventualmente descartada. “Nós temos nutricionistas em todo e qualquer serviço de alimentação. Só que os contratos dessas empresas não se responsabilizam pela comida que é desperdiçada”, conta. Ao menos 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados no planeta a cada ano — cerca de 30% do total produzido, conforme dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgados em 2017.

 

Nascido e criado na Ceilândia, Lucas ressalta o quão importante foi a escolha de atuar com a nutrição fora do que caracteriza como "comum". “É preciso encorajar os profissionais da saúde para que possam se engajar por causas maiores, utilizando os conhecimentos para somar”, conta. Atualmente, ele faz pós-graduação em saúde mental infanto-juvenil e trabalha no Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Tecnologia e ação social

 

Assim como Lucas, a biotecnóloga Leticia Marques, 23, considera o desperdício de alimentos um obstáculo para a sustentabilidade do planeta. Graduada pela Universidade de Brasília (UnB) em 2018, ela participou do YAS 2017, em Bruxelas, onde apresentou o trabalho que desenvolve atualmente. Em parceria com o Serviço Social da Indústria (SESI) e com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ela atua no projeto “Desenvolvimento de uma tecnologia inovadora para promover uma alimentação saudável”, que transforma as partes de vegetais que normalmente são jogadas fora em algo que as pessoas podem consumir.

 

“Talos, cascas, bagaços e sementes são muito ricos nutricionalmente, mas são desperdiçados diariamente por uma questão cultural, porque a população não os considera comestíveis. O projeto quer justamente mudar isso”, explica Letícia. O objetivo da iniciativa é desenvolver um processo que resultará em um produto final que melhora a absorção intestinal de fibras e nutrientes presentes nos alimentos.

 

“A longo prazo, a gente acredita que isso possa ter um impacto na condição nutricional das pessoas. Esses alimentos agregam a saúde com vitaminas e fibras, muito comuns em vegetais”, informa Letícia.. O projeto também é benéfico para o meio ambiente, pois reduz a quantidade de resíduos orgânicos descartados. “Diferente do que as pessoas pensam, o resíduo orgânico tem um impacto muito grande no meio ambiente, com a geração de gases tóxicos”, diz.

 

Unindo tecnologia e ação social, ela também atua no projeto “A horta escolar inteligente”, que promove apoio profissional a jovens vítimas de abuso sexual. O jardim cultiva uma série de produtos frescos, como hortaliças, frutas e ervas. Também são desenvolvidas pesquisas para testar novos tipos de pesticidas sustentáveis usando limoneno, uma substância extraída de plantas do gênero citrus. “Essa iniciativa ajuda a familiarizar os jovens participantes com a produção científica, introduzi-los à biodiversidade e melhorar seu acesso à comida, já que os participantes podem levar para casa os produtos da horta”, ressalta a biotecnóloga.  

 

Semiárido nordestino

 

Direto de Salvador, Bahia, a estudante de engenharia de produção Bárbara Oliveira, 21, viu no YAS 2019 uma oportunidade para compartilhar mais detalhes sobre a agricultura no nordeste do Brasil. Ela faz parte do projeto Zênite, que visa a dessalinização da água utilizando energia solar-térmica. “Temos em abundância o sol e a água salgada, mas algo que possa transformar em algo consumível não temos”, diz. 

 

O foco do projeto é o semiárido nordestino, entre a Bahia e Sergipe, estados que mais sofrem com a seca. “A gente pretende impactar principalmente os pequenos agricultores e as famílias que dependem da agricultura de subsistência para sobreviver”, explica a estudante. O projeto já está em curso há cerca de três anos, mas ainda não possui o capital necessário para o primeiro protótipo, mais de 200 mil reais.

 

Para Bárbara, o YAS mostra que é possível mudar o mundo através da tecnologia. “O evento tem muita informação, network. A gente convive com pessoas de 45 nacionalidades. A seca não existe só no Brasil, existem em outros países também e juntos podemos dar um jeito nisso”, garante. 

 

Incentivo às próximas gerações

 

O YAS premia três jovens que possuem os projetos mais inovadores com uma bolsa de 5 mil euros. Este ano os vencedores foram jovens de Bangladesh, México e Austrália. Em outra categoria, o jovem brasileiro Maycon Santos, 21, recebeu o prêmio da Nuffield, para participar da Nuffield Conference 2020, na Austrália.

 

Natural de Janaúba, Minas Gerais, ele estuda ciência da computação e engenharia psicológica em Boston, Estados Unidos. Em seu projeto, ele espera garantir uma nutrição justa e saudável a crianças e adolescentes de baixa renda no norte do estado mineiro. 

 

Em meio a tanto entusiasmo de fazer do planeta um lugar melhor, o líder da divisão agrícola da Bayer na América Latina, Rodrigo Santos, afirma que o desafio de alimentar o mundo faminto é possível, e de uma maneira completamente sustentável. “Com as novas gerações existe a possibilidade de suprir esse desafio e incentivar um bom trabalho de comunicação com todos os setores da sociedade”, conclui o executivo. 

 

*Estagiária sob a supervisão de Roberto Fonseca. 

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