Jornal Correio Braziliense

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Tecnologia impacta carreiras no governo e algumas poderão até desaparecer

Técnicos de contabilidade, serventes de limpeza e agentes administrativos estão entre as ocupações mais afetadas pela automação no serviço público federal, segundo estudo feito pela Enap em parceria com o Ipea

A tecnologia mudou as relações humanas de forma geral. No mercado de trabalho não é diferente e as transformações tecnológicas já impactam as profissões. De acordo com o estudo inédito da Escola Nacional de Administração Pública (Enap) feito em parceria com pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ao qual o Correio teve acesso exclusivo, a maioria das carreiras do setor público sofrerá o impacto da automação. Medido de 0 a 1, este impacto estima o quanto cada carreira será transformada no futuro. Quanto mais próximo de 1, mais a ocupação sofrerá transformações tecnológicas. Entre as carreiras mais afetadas estão as de contadores, agentes administrativos e serventes de limpeza.

Para otimizar os resultados, o estudo focou nas 80 carreiras com maior número de servidores. As ocupações analisadas correspondem a 456 mil funcionários públicos, ou seja 84% do total. A pesquisa utilizou dados do Sistema Integrado de Administração de Pessoal (Siape) e da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2017.

O coordenador-geral de ciência de dados da Enap, Leonardo Monastério, explica que a pesquisa segue a tendência do governo de avaliar gastos em todas as áreas. ;O governo está todo no esforço de reconfigurar o setor público. Um dos primeiros passos foi a digitalização dos serviços. Nossa intenção com o estudo é saber que carreiras vão passar por transformações e quais podem ser extintas;.

A extinção de algumas carreiras não é novidade. ;Temos uma discussão grande sobre isso. Quantos milhões de empregos vão sumir? É bom a gente trazer a discussão para o governo, já que o setor público tem peculiaridades;, aponta o pesquisador.

Recorte

A carreira de técnico de contabilidade será a que terá maior impacto da automação (0,71), de acordo com o estudo. A profissão de datilógrafo também terá um alto impacto com as novas tecnologias (0,53), tendo a própria existência ameaçada. Leonardo considera que até mesmo a profissão de motorista pode deixar de existir.

Ao olhar para um recorte em que a modernização será alta e os servidores terão mais de 65 anos em 2032, o impacto em algumas ocupações pode chegar a 0,66. É o caso dos serventes de limpeza. Neste recorte, também estão incluídos os agentes administrativos, auxiliares de serviços gerais e agentes de operações de saúde. ;Tarefas repetidas e mecânicas são fáceis de serem reproduzidas por um computador. Nem toda limpeza vai ser automatizada, mas conforme o Brasil se desenvolva, será possível ver robôs limpando o chão e fazendo esse trabalho por uma pessoa;, afirmou Leonardo.

;O que ficará para o trabalho humano é a parte que a máquina não é capaz de fazer;, disse o coordenador da Enap. Quando se olha apenas para profissões nas quais o servidor lida diretamente com cidadãos, como professores, médicos e enfermeiros, por exemplo, é possível observar um baixo impacto da modernização. No caso da carreira de um enfermeiro, por exemplo, é de 0,2.

Na carreira de um professor de ensino superior o efeito é menor ainda: 0,03. Logo, essa automação deve ser mais complementar do que substituta. ;A aula de um professor vai continuar existindo. Talvez o que aconteça é a utilização do ensino a distância, com a gravação de vídeos, como já acontece;, exemplificou.

A substituição de algumas profissões certamente gerará economia. No entanto, o pesquisador afirma que a quantificação do impacto ainda não foi feito pela Enap. Para 2020, está previsto um novo estudo sobre a automação no serviço público. ;Alguns gastos do Estado são difíceis de cortar, como é o caso da folha da educação e da saúde, que são dois grandes gastos. Mas o governo está dando os primeiros passos para obter economia em todas as áreas. A digitalização foi um primeiro impacto na redução dos custos do serviço público;, completou Leonardo.

Os mais afetados

Cargos extintos são 27.611

O presidente Jair Bolsonaro assinou decreto que extingue 27.611 cargos efetivos vagos e que vierem a vagar dos quadros de pessoal da administração pública federal. O ato também proíbe a abertura de concurso público e o provimento de vagas adicionais. Publicado no último dia 20 no Diário Oficial da União (DOU), o Decreto n; 10.185 é mais uma medida do governo para enxugar a máquina pública. Na edição de ontem, o Correio informou, erroneamente, que o total de cargos eliminados era de 14.227.

No grupo de cargos vagos e que vierem a vagar, serão extintos 23.126, em áreas como Previdência, saúde, trabalho, meio ambiente, cultura, educação, Polícia Rodoviária Federal, seguro social, Polícia Federal. Entre os cargos estão os de auxiliar de laboratório, cartógrafo, desenhista, guarda de endemias, laboratorista, microscopista e técnico em cartografia.

Validade

Já no rol exclusivo dos cargos vagos, serão extintos 4.485, em setores como saúde, Forças Armadas, infraestrutura e Advocacia-Geral da União. Entre os cargos estão os de auxiliar de higiene dental, técnico de laboratório, auxiliar institucional, técnico federal de finanças e controle, fotógrafo, assistente de laboratório e assistente social. Quanto à extinção de cargos, os efeitos do decreto passarão a valer no dia 26 de fevereiro de 2020.

Ainda conforme o ato presidencial, não serão realizados concursos públicos para o Plano de Carreiras dos Cargos Técnico-Administrativos em Educação (PCCTAE). Entre os cargos estão os de assistente de direção e produção, confeccionador de instrumentos musicais, editor de imagens, instrumentador cirúrgico, mestre de edificações e infraestrutura e revisor de texto em braille.

Com relação à proibição de concursos públicos, os efeitos do decreto passaram a valer desde 20 de dezembro, data da publicação no Diário Oficial.