Brasil

Governo dá a largada de campanha para acabar com mitos sobre o coronavírus

Ministério lança campanha de esclarecimento da população sobre como se precaver contra a Covid-19 e evitar a disseminação de fatos falsos, que somente promovem a insensatez

Correio Braziliense
postado em 29/02/2020 07:00

Trecho da campanha do Ministério da Saúde procura acalmar a população ao mostrar que evitar a propagação de qualquer vírus começa com a boa higiene das mãos. O governo quer evitar medidas precipitadas, como estocar máscaras protetoras em casaO Ministério da Saúde deu início nesta sexta-feira (28/2) à Campanha de Prevenção ao Coronavírus com o objetivo de evitar a disseminação do pânico, causada pela desinformação, e de medidas insensatas — como o de estocar em casa máscaras e álcool em gel, cujas compras dispararam depois da confirmação do primeiro caso no Brasil. Para esclarecer sobre a forma de transmissão do agente infeccioso, vídeos estão sendo veiculados desde esta sexta-feira (28/2) na internet, no rádio e na televisão em todo o país.

O Brasil tem 182 casos sob investigação — até esta sexta-feira (28/2) eram 132 — e 71 foram descartados. O Ministério anunciou que não atualizará o número de casos no Brasil, excepcionalmente, neste final de semana, devido ao aumento do número de notificações. O balanço só será oficialmente atualizado na próxima segunda-feira. Na nova campanha de esclarecimento, a pasta investiu R$10 milhões.

Com o crescimento no número de suspeitas, outra medida anunciada pela pasta foi a ampliação da capacidade laboratorial para realização dos testes específicos de coronavírus. “A nossa ideia é ampliar para que todos os laboratórios centrais possam realizar. Estamos adquirindo testes da Friocruz e eles serão validados perante esses laboratórios centrais dos estados”, afirmou o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira. Até o momento, somente a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Adolfo Lutz, o Instituto Evandro Chagas e o Laboratório Central de Goiás — que fez parte da operação de repatriação dos brasileiros de Wuhan — faziam o teste específico do novo vírus.

A partir de semana que vem, os laboratórios centrais do Rio Grande do Sul, do Espírito Santo, de Sergipe, de Minas Gerais, de Manaus e do Amazonas vão receber o kit para validação e capacitação para que possam realizar esse teste. “Estamos ampliando a capacidade dos laboratórios centrais, que já faziam uma análise para vírus respiratórios comuns. Eles usarão uma máquina que já possuem, mas receberão insumos para realizar os exames específicos para o novo vírus neste equipamento — além de receberem capacitação”, explicou Wanderson. 

 

 

 

Vacinação

O Ministério adiantou ainda que, para a Campanha Nacional de Vacinação Contra a Gripe, antecipada para o próximo dia 23, o Instituto Butantan produziu 75 milhões de doses da vacina trivalente, que previne contra três tipos de vírus de influenza. As doses serão divididas em fases: na primeira, 18 milhões serão distribuídas às gestantes, crianças até seis anos e mulheres até 45 dias após o parto; na segunda, os idosos serão atendidos com cerca de 25 milhões de doses; e, na terceira, outros grupos, como forças de segurança, poderão se imunizar.

Além disso, o Ministério adquiriu 2,5 milhões de doses de vacina monovalente contra a H1N1 para situações de emergência. O infectologista do Hospital Universitário de Brasília, André Bon, explica que a imunização contra influenza é necessária por se tratar de um dos vírus com maior letalidade. “A vacina contra a gripe não previne o coronavírus, mas influencia indiretamente nas manobras de contenção. Adiantar a campanha de vacinação é uma estratégia para diminuir a procura. O objetivo é não provocar um inchaço da rede pública e delimitar mais facilmente os casos”, esclareceu.

Pandemia

A Organização Mundial da Saúde elevou esta sexta-feira (28/2) o risco da epidemia para “muito alto”, o maior da escala. Mesmo assim, a OMS não considerou a situação com o novo vírus como uma pandemia. De acordo com o último boletim divulgado pelo Ministério da Saúde, 46 países tiveram confirmações.

De acordo com infectologistas, uma pandemia só pode ser declarada quando há o aparecimento de surtos simultâneos em diversas regiões do mundo. Para Wanderson de Oliveira, o novo vírus deveria ser tratado pela definição de pandemia, que, segundo ele, ajudaria no controle da doença.

“O ministro (da Saúde, Luiz Henrique Mandetta) tem reiterado a necessidade de uma revisão do critério de epidemia e pandemia. Vai nos permitir focar principalmente nos grupos etários mais vulneráveis, que são adultos acima de 60 anos”, explicou.

Cuidado com as redes sociais 

A disseminação de fake news sobre o coronavírus tem preocupado as autoridades. Evitar a Covid-19 por meio de chás, remédios caseiros e injeções de vitamina D, ou se afastar de pessoas de origem asiática, têm sido algumas das desinformações propagadas — sobretudo pelas redes sociais — que podem tirar o foco das reais formas de prevenção e incitar a xenofobia.

É principalmente em chats de conversas que as mentiras são divulgadas. De acordo com o Ministério da Saúde, 85% dos questionamentos trazidos pela população no canal de dúvidas a respeito da Covid-19 são falsos. Desde que os casos explodiram na China, a pasta calcula que das 6,5 mil mensagens recebidas para tirar dúvidas, pelo menos 5,8 mil têm como tema o novo vírus.

Para auxiliar a população, o Ministério também prepara um aplicativo para android e IOS. Nele, o interessado poderá tirar dúvidas, acompanhar os dados sobre o coronavírus no Brasil e no mundo, saber o que fazer para se prevenir e os sintomas. O sistema também fará uma avaliação prévia caso a pessoa acredite que possa estar infectada. Se for enquadrada entre as possibilidades, será indicada uma unidade de saúde mais próxima e capaz de receber o caso.

Além disso, a pasta enviará mensagens para o celular das pessoas que estiverem perto de aeroportos que recebem voos internacionais. “Se você esteve em um país com transmissão do vírus em até 14 dias e apresentar febre, tosse ou falta de ar, ligue para o 136 ou procure uma unidade de saúde”, dirá o post, que deve começar a ser veiculado segunda-feira.

A maioria dessas informações, bem como uma indicação do que é verdadeiro e do que é falso pode ser acessada pelo site do Ministério da Saúde, na aba “tire suas dúvidas”. A plataforma da Organização Mundial de Saúde (OMS) também faz atualizações diárias sobre os casos e presta esclarecimentos à população. A página em português está disponível pelo link www.paho.org/bra.

A apreensão pelo desconhecido também tem provocado uma corrida às farmácias à procura de insumos de proteção como álcool em gel e máscaras. O aumento chegou ao ponto de se esgotarem nas farmácias de Brasília. Gerente de uma drogaria, Eliane Francelina disse que a loja costuma receber cerca de 10 caixas de máscaras por dia e vende as caixas com 50 por R$ 15. A carência dos produtos atrapalha, inclusive, a aquisição do próprio Ministério.

Não caia nessa

»  Uso de chás, remédios caseiros e vitaminas para curar a doença. É FAKE!
»  Teorias de que o vírus é uma arma biológica criada em laboratório. CONVERSA FIADA!
»  Denúncias de omissões de casos e mortes confirmadas no Brasil. MENTIRA!
»  Vídeos de pessoas convalescendo em vias públicas na China. CASCATA!
»  China cancelou todos os embarques de produtos por navio até março. ISSO NÃO EXISTE!
»  Médicos tailandeses curam coronavírus em 48h. PAPO FURADO!
»  Quando se estoura o plástico bolha, se libera o novo coronavírus. SÉRIO?!
»  Existem semelhança entre o vírus HIV e o coronavírus. AH!, PARA COM ISSO!
»  Novo coronavírus causa pneumonia de imediato. NÃO É POSSÍVEL!

Instituto sequencia gene do agente 

Apenas 48 horas depois da confirmação do primeiro caso de coronavírus no país, o Instituto Adolfo Lutz conseguiu fazer o primeiro sequenciamento genético. O genoma do SARS-Cov-2, causador da doença que se espalha pelo mundo, foi concluído ontem, com base em amostra retirada do paciente que trouxe para o país o novo agente infeccioso.

O genoma completo do vírus já foi disponibilizado à comunidade científica internacional. “Os dados de genomas completos do SARS-CoV-2 são essenciais para o desenvolvimento de vacinas e de testes diagnósticos. São importantes para a compreensão da dispersão do vírus e para detectar mutações que possam alterar a evolução da doença”, afirmou o pesquisador Claudio Sacchi, do Instituto Adolfo Lutz.

Análises iniciais indicam que o genoma identificado difere-se por três mutações da cepa de referência de Wuhan, na China. Duas dessas mudanças se aproximam às da Alemanha, diagnosticada em Munique. Isso representa que a maior similaridade do vírus detectado no paciente de São Paulo — que esteve na região italiana da Lombardia — é com a cepa europeia. 

“Dados adicionais da Alemanha e da Itália serão importantes para entender as origens e a dinâmica do vírus na Itália. O monitoramento contínuo de novos casos suspeitos no Brasil será fundamental para monitorar novas importações de vírus e também para identificar grupos iniciais de transmissão local no país, se houver”, conclui o artigo dos pesquisadores envolvidos no estudo. 

Em 31 de janeiro, a Itália confirmou dois casos em turistas chineses. Atualmente, há somente uma sequência genética disponível naquele país, de um desses turistas da província chinesa de Hubei. Em 21 de fevereiro, foi confirmada a transmissão local na Lombardia. Não existem dados genômicos dos casos na Itália. 

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