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Aumenta a infecção de profissionais de saúde; falta de equipamento preocupa

Aumenta o número de profissionais da saúde infectados pelo novo coronavírus nas cidades do país. Falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) nos hospitais que recebem pacientes com a doença todos os dias pode agravar pandemia

Marisa Wanzeller*, Maíra Nunes
postado em 31/03/2020 06:00
David UipSoldados no front da guerra contra o novo coronavírus, os profissionais de saúde de todo o mundo são uma parcela das vítimas desse inimigo em comum. No Brasil, os casos começam a disparar. Em São Paulo, o Hospital Sírio Libanês afastou 104 funcionários que tiveram o resultado positivo no teste para a Covid-19, desde o início da pandemia. A assessoria da instituição afirma que os testes foram feitos ao longo do período de atenção ao vírus e ressalta que os profissionais atuam em mais de um hospital, como é costume na área da saúde. O grupo formado por médicos, enfermeiros, profissionais da limpeza, recepção e manutenção do local teve contato direto com pacientes infectados e ficarão em isolamento domiciliar por 14 dias, conforme protocolo da empresa.

O médico Raul Cutait, de 70 anos, foi internado com coronavírus em estado grave na última sexta-feira (27). No dia seguinte, o cirurgião gástrico precisou ser intubado para receber ventilação mecânica, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Cutait é professor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP e membro da Academia Nacional de Medicina. Outra figura importante no meio médico a contrair a doença é David Uip, coordenador do centro de contingência contra a Covid-19 no estado. Após apresentar sintomas como febre e tosse, o teste do infectologista de 67 anos deu positivo, também no Hospital Sírio Libanês, onde ele coordena o departamento de Infectologia.

Desde então, Uip está em isolamento domiciliar, mas se recupera. ;É uma doença chata, mas estou bem, sem febre. Eu brinco que me sinto enjaulado, com o mundo caindo na minha frente. Controlei o medo com fé e paz na alma. Minha mensagem para vocês é que quero voltar logo a trabalhar. Ainda tenho uma missão a cumprir;, disse, em áudio enviado a amigos, na última sexta.

A quantidade de casos confirmados no estado de São Paulo subiu para 1.517, chegando a 113 mortes, segundo balanço do Ministério da Saúde divulgado ontem. A maior concentração de pessoas contaminadas é no município de São Paulo, com 1.233 casos confirmados, o equivalente a 91% de todo o estado. Santo André vem em seguida, com 40 casos; São Bernardo do Campo, com 33; e São Caetano do Sul, com 27. O estado paulista registra 71% das vítimas com morte do país por Covid-19.

Em falta
A contaminação dos profissionais de saúde se estende às demais cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte. Em Volta Redonda, no estado carioca, 10 dos 28 registros confirmados na cidade são de médicos do Hospital da Unimed, que tiveram contato com pacientes internados, de enfermaria, oncologia e UTI.

Em Brasília, o teste de um médico do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), referência no tratamento da Covid-19 no Distrito Federal, deu positivo para a doença em 18 de março. Ele está em isolamento domiciliar. A Secretaria de Saúde do DF informa que ainda não fez levantamento do número de profissionais de saúde infectados na região. Porém, foi emitido processo para aquisição emergencial de EPIs na última quarta-feira (25). A pasta elaborou um novo protocolo de distribuição desses equipamentos para as unidades de saúde. No novo modelo, a distribuição passou a ser semanal, a fim de possibilitar maior controle dos estoques, redução do risco de desabastecimento e uso racional nas unidades de saúde.

O receio é de que o Brasil viva o pesadelo que outros países já estão passando. Na Espanha, os profissionais da saúde representam 14% dos 85,1 mil contaminados pelo novo coronavírus, chegando a quase 12,3 mil infectados, segundo dados das autoridades espanholas divulgados ontem. Na Itália, 51 médicos já morreram infectados e chega a 6,4 mil a quantidade de médicos, enfermeiros, técnicos e outros envolvidos na tarefa de salvar vidas infectados no país.

O médico que orientou a cirurgia de separação das bebês brasilienses Lis e Mel é mais uma vítima de jaleco branco. O norte-americano James Goodrich, principal especialista em separação de siameses craniópagos (unidos pelo crânio) do mundo, morreu na noite de domingo, aos 73 anos, em Nova York, nos Estados Unidos. Com teste positivo para a Covid-19, ele estava internado desde a última quarta (18), no Montefiore Medical Center.

*Estagiária sob a supervisão de Andreia Castro

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