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Águas Lindas, que terá hospital de campanha, tem obra arrastada há 15 anos

Cidade goiana que recebe primeiro hospital de campanha do governo federal tem unidade de saúde com obra iniciada em 2004, mas nunca concluída. Nova estrutura montada em Águas Lindas atenderá pacientes do estado de Goiás e do Distrito Federal

Sarah Teófilo
postado em 10/04/2020 06:00
Cidade goiana que recebe primeiro hospital de campanha do governo federal tem unidade de saúde com obra iniciada em 2004, mas nunca concluída. Nova estrutura montada em Águas Lindas atenderá pacientes do estado de Goiás e do Distrito FederalCom 200 leitos de internação, o primeiro hospital de campanha da União, para enfrentamento ao novo coronavírus, está sendo construído em Águas Lindas (GO), cidade que possui um hospital inacabado. Com obra iniciada em 2004, até hoje não foi entregue à população. O Hospital Regional de Águas Lindas, chamado de Hugo 9, recebeu recursos do governo federal e, caso tivesse sido concluído, seria uma unidade de alta complexidade, com 137 leitos, sendo 30 de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em uma área construída de 11 mil metros quadrados.

Em 2009, a obra do hospital regional foi interrompida após irregularidades observadas pelo governo federal. Até então, a competência pela execução da obra era da prefeitura da cidade. Em 2013, passou para o governo estadual. Ainda assim, a construção veio se arrastando e não foi entregue pela antiga gestão estadual, dos ex-governadores Marconi Perillo e José Eliton, apesar de já ter tido até uma das etapas inauguradas. Em 2018, foi novamente paralisada.

No ano passado, o governador Ronaldo Caiado assinou uma ordem de serviço com o prefeito Hildo do Candango, na qual garantia previsão de entrega do hospital no primeiro semestre deste ano. E estimou que seriam necessários mais R$ 25 milhões para a conclusão ; mais que o dobro do valor a ser investido no hospital de campanha, R$ 10 milhões. Há quatro meses, a obra parou novamente.

O secretário de Saúde da cidade, Eduardo Rangel, afirma que a empresa contratada não estava conseguindo executar a obra, e que, por isso, foi necessário romper o contrato e buscar outra empresa. De acordo com ele, o processo licitatório está em curso. O hospital já está 80% concluído e Rangel garante ser possível terminar a obra em 120 dias.
Cidade goiana que recebe primeiro hospital de campanha do governo federal tem unidade de saúde com obra iniciada em 2004, mas nunca concluída. Nova estrutura montada em Águas Lindas atenderá pacientes do estado de Goiás e do Distrito Federal

Escolha

Já o hospital de campanha deve começar a funcionar em um mês, sendo 15 dias para as obras e mais 15 para equipar e deixar pronto para receber pacientes com diagnóstico confirmado ou suspeito de Covid-19. As obras tiveram início na terça (7).

Vale destacar que a unidade não será ;porta aberta;, ou seja, receberá somente aqueles pacientes regulados de outras unidades de Saúde. A prefeitura fornecerá três ambulâncias e garantirá exames laboratoriais e de imagem. Também como contrapartida, a prefeitura concedeu o lote e realizou as obras de terraplanagem.

Águas Lindas possui apenas um caso confirmado da doença, dois suspeitos e cinco monitorados. O ministro da Saúde, Henrique Mandetta, disse que a cidade foi escolhida para receber o hospital após pedido de Caiado. Já o secretário de Saúde da cidade, Eduardo Rangel, afirma que a escolha se deu pelo fato de a região não ter cobertura para leito de UTI.

Moradores são contra


Parte da população de Águas Lindas tem questionado a construção do hospital de campanha na cidade. Isso porque eles avaliam que o hospital regional, que nunca foi concluído, após 15 anos de obra, poderia ter a sua estrutura utilizada. Assim, segundo os moradores, com o fim da pandemia, o município teria, finalmente, a unidade concluída.

A diarista Soraia Avelino Maciel, de 42 anos, questiona o gasto de R$ 10 milhões em um hospital temporário, enquanto a unidade de saúde regional tem 80% das obras finalizadas. ;Esse dinheiro deveria ser investido lá;, reclama. O secretário de Saúde da cidade, Eduardo Rangel, afirmou que, por questões de saneamento básico, não foi possível usar a estrutura do hospital regional para receber, de forma emergencial, os pacientes com Covid-19.

O bairro onde o hospital regional está localizado, segundo ele, já possui rede de esgoto, mas ainda não foi ligada. Por outro lado, no local onde está sendo levantado o hospital de campanha, há rede de esgoto e água encanada, destacou. Rangel afirma que, mesmo que a unidade existente pudesse receber pacientes, ainda assim, o ideal seria construir um hospital de campanha para atender, exclusivamente, a pessoas com o novo coronavírus.

A comerciante Andreia de Souza Marques Araújo, 44 anos, diz que se os governos tivessem se preocupado com a estrutura antes de a pandemia começar, o Entorno do DF teria uma unidade de alta complexidade pronta. ;Eu sou favorável a esse hospital de campanha, porque a gente não tem unidade que consiga atender. Mas se desse para ser algo definitivo, seria melhor;.

Vizinhança

Moradores também dizem temer o grande fluxo de pessoas contaminadas pelo coronavírus na cidade. A vendedora Ana Paula Nogueira, de 25 anos, afirma que todos estão preocupados. Ela também questiona a falta de utilização do hospital regional. ;Poderiam pegar esses R$ 10 milhões para investir lá. Aí, ia ser definitivo;.

Eliane Cortes, 34, mora a apenas a alguns metros do futuro hospital de campanha e afirma que tanto ela quanto os vizinhos estão assustados, com medo de serem contaminados pela doença, devido à proximidade entre as casas e a unidade de saúde emergencial.

O secretário de Saúde do município, Eduardo Rangel, garante, no entanto, que a estrutura é segura, e que não há risco de contaminação da população local.

A reportagem questionou à SES-GO sobre a situação atual do hospital regional, quando será concluído e o motivo pelo qual a unidade não poderia ser utilizada para receber, de forma emergencial, pacientes com coronavírus, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

O Ministério da Saúde também foi questionado sobre valores destinados ao hospital inacabado e sobre o motivo de a unidade não poder ser usada emergencialmente, mas o órgão informou que a resposta será enviada somente na segunda-feira (13/4).

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