Brasil

Remédio 'secreto' em fase de testes contra Covid-19

Segundo o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, medicamento que mostrou 94% de eficácia em células in vitro será testado em 500 pacientes infectados e o efeito poderá ser comprovado em algumas semanas. Especialistas pedem cautela

postado em 16/04/2020 04:13
Representação da ação do composto ativo do fármaco interagindo com a proteína do coronavírus. A administração do medicamento será diária, durante cinco dias



Cientistas brasileiros vão testar, em 500 pacientes, um medicamento, quase sem efeitos colaterais, com eficácia de 94% em células infectadas pelo novo coronavírus. A informação foi divulgada, ontem, pelo ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, que prometeu resultados em um mês. Especialistas, no entanto, consideraram a divulgação precipitada e alarmista. Para alguns, foi cinematográfica e um ;estelionato emocional;.

Segundo o ministro, o país também desenvolve equipamento de inteligência artificial para testar pessoas com suspeita de Covid-19. A resposta é em um minuto, e o teste utiliza reagentes nacionais. ;Vacinas demoram mais do que o reposicionamento de drogas, mas estamos trabalhando com vacina dupla, tanto para Influenza quanto para a Covid;, disse. ;Só a ciência pode combater o vírus;, ressaltou Pontes.

O ministro Marcos Pontes não divulgou o nome do remédio para ;não haver corrida; às compras. Isso porque é um fármaco conhecido, amplamente disponível no mercado, de acordo com Marcelo Morales, secretário de Políticas para Formação e Ações Estratégicas do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). ;Teremos nas nossas mãos, desenvolvido no Brasil, no máximo, na metade de maio, a solução de um tratamento, com remédio disponível;, afirmou Pontes. O medicamento tem até formulação pediátrica, acrescentou.

O remédio será testado em 500 pacientes em sete hospitais, cinco no Rio de Janeiro, um em São Paulo e outro em Brasília. A administração do medicamento será diária, durante cinco dias, com mais nove dias de observação.

;Em 14 dias, poderemos ver se os efeitos em pacientes serão os mesmos já comprovados em células infectadas;, destacou o ministro. O ensaio clínico será feito com pacientes que estão internados para o acompanhamento dos sintomas e da carga viral.

Segundo o MCTIC, o protocolo será uma administração randomizada, ou seja, nem médicos nem pacientes saberão quem está tomando a medicação e quem está recebendo placebos. ;Quero agradecer a comissão de ética do Ministério da Saúde, que fez a aprovação do protocolo dos testes clínicos. Nas próximas semanas, teremos os resultados;, disse Pontes.

Ontem, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse, ontem, na coletiva à imprensa, que a equipe de Pontes testa um vermífugo contra Covid-19. A declaração foi feita quando Mandetta citava estudos em andamento sobre a doença, incluindo a cloroquina. Ele destacou que a cloroquina se mostrou interessante in vitro, com possibilidade de matar o coronavírus, mas o resultado não se mantém quando a substância é testada em humanos, segundo as pesquisas. Da mesma forma, emendou, o vermífugo teria se mostrado promissor em laboratório e agora será experimentado em pacientes com Covid-19.

Repercussão negativa
Para Alexandre Cunha, médico infectologista, o que o governo fez foi uma ;não informação;. ;Ciência não divulga coisas secretas. E na pesquisa in vitro, qualquer coisa pode funcionar. Se colocar álcool, vai matar 100% do vírus. Fazer remédio funcionar em pessoas é outra coisa;, sintetizou.

Segundo o também infectologista Julival Ribeiro, é muito estranho que o ministério diga que tem uma alternativa com 94% de eficácia e não divulgue o nome da molécula ou do medicamento. ;Todo mundo está estudando a cloroquina ou ivermectina (um vermífugo e antiparasitário). Mas são necessários estudos clínicos;, destacou o médico. A explicação do ministro, de não divulgar o nome para evitar correria às farmácias, não se justifica, segundo o especialista. ;A Anvisa poderia fazer o que fez com a cloroquina e permitir a venda apenas com receita especial. Não dá para dizer que tem eficácia de 94% sem ensaio clínico;, afirmou. Ele também não acredita na possibilidade de uma vacina dupla, para Influenza e Covid-19. ;Vacina para gripe é uma coisa, para Covid-19 é outra, completamente diferente;.

No entender do professor José David Urbaez, diretor científico da SBI do Distrito Federal, o anúncio do MCTIC foi uma irresponsabilidade. ;É uma construção para justificar uma medida que vai matar muita gente, que é afrouxar o isolamento;. O especialista lamentou que o governo esteja promovendo o que chamou de estelionato emocional. ;É um momento de vulnerabilidade coletiva gigantesca. E o governo divulga fake news ao anunciar uma droga milagrosa. Na ciência, há rigor. O Jama (Journal of America Medical Association) revisou todos os remédios e ensaios em andamento sem nenhuma evidência para fazer recomendações de tratamento;, destacou. Urbaez também acredita que o medicamento sem nome pode ser ivermectina.

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