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Teich deixa claro que pretende viabilizar fim do isolamento social

O ministro afirma que o afastamento social deve estar acompanhado de um plano que preveja o término, embora reconheça que o distanciamento é uma medida ''natural e lógica'' no começo da pandemia. Discurso se aproxima mais daquilo que propõe Bolsonaro

Maria Eduarda Cardim, Bruna Lima
postado em 23/04/2020 05:00
O ministro afirma que o afastamento social deve estar acompanhado de um plano que preveja o término, embora reconheça que o distanciamento é uma medida ''natural e lógica'' no começo da pandemia. Discurso se aproxima mais daquilo que propõe BolsonaroO ministro da Saúde, Nelson Teich, mostrou nesta quarta-feira (22/4) as mudanças que promoverá para fazer valer as prioridades do presidente Jair Bolsonaro na condução da crise da Covid-19. ;O afastamento é uma medida totalmente natural e lógica na largada, mas não pode estar desacompanhado de um programa de saída;, justificou, deixando claro que pretende viabilizar a suspensão do isolamento social com foco na análise de informações, disponibilização da infraestrutura e criação de diretrizes regionais para o relaxamento da quarentena.

Teich defendeu uma diretriz para que estados e cidades possam retornar do isolamento, e reforçou que não há como um país sobreviver um ano parado. ;É impossível. Isso é o que gente vai desenhar e dar suporte para estados e municípios;, adiantou. O ministro pretende entregar a diretriz em uma semana.

Apesar de defender o relaxamento do distanciamento social, Teich ponderou que, por ser uma doença nova, com trajetória desconhecida, também haverá ações que permitam recuar das liberações em caso de necessidade.

;Nossos números são um dos melhores (em comparação com outros países). Qual o problema da Covid? Assusta porque acomete muito rápido o sistema. E os sistemas de saúde não são feitos para ter ociosidade. Têm de trabalhar com eficiência máxima. Os hospitais trabalham no limite. Quando tem algo que sobrecarrega o sistema, é quase impossível conseguir se adaptar na velocidade necessária;, disse o ministro, deixando claro que pode recomendar o retorno para a quarentena caso os números piorem com a flexibilização.

Secretário-executivo
Teich também confirmou como braço-direito o general Eduardo Pazuello, que já integrava a equipe de transição. O foco do novo secretário-executivo da Saúde é tirar do papel as estratégias a serem definidas na pasta. ;Estamos falando de logística, de compra, de distribuição, e ele é uma pessoa muito experiente nisso. Vai trazer uma contribuição para quem corre contra o tempo;, explicou.

Sem experiência na vida pública, assim como Teich, o nome de Pazuello é visto como mais um movimento de Jair Bolsonaro para controlar o Ministério da Saúde e impor sua visão contra o isolamento social ; uma das razões que o levou a demitir Luiz Henrique Mandetta. A hierarquia própria da carreira militar daria a segurança ao presidente de que a condução não seria desviada daquilo que pretende.

A nomeação de Pazuello gera dúvidas sobre as reais intenções e os possíveis riscos, num momento em que a pasta tem protagonismo. ;A estabilidade do Ministério depende do alinhamento a Bolsonaro, um governo que espera dos seus ministros posição de superveniência;, avaliou o Michael Mohallem, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Direito Rio.

A questão de ocupação do espaço político pelos militares eleva esta hipótese. ;Uma coisa é escolher o melhor perfil e, depois, observar que, coincidentemente, se tratava de um militar. O que não parece ter sido a lógica. Primeiro se escolheu o militar, para depois analisar, dentro dos perfis, qual mais se encaixava. Parece ser um olhar não para o problema, mas para a acomodação política;, explicou Mohallem.

Mesmo quando as indicações não se baseiam no fortalecimento de alianças partidárias, é comum que o ministro escolha seu secretário-executivo, função de confiança e que reflete alinhamento. Nesse sentido, a indicação de Bolsonaro pode ser outro ponto de conflito. ;É importante que haja sintonia, uma boa articulação. Há uma dúvida em relação a isso;, pontuou o professor.

A desvinculação partidária das duas principais peças do ministério mais importante no atual cenário é vista como estratégica pelo cientista político Sérgio Praça, professor da Universidade de São Paulo (USP). ;Isso pode facilitar o diálogo com governadores, desde que seja reconhecida a capacidade de gestão e desde que o general não se revele muito mais conservador que a média das Forças Armadas, o que não me parece;, observou. Segundo Praça, o olhar para as articulações externas e o alinhamento com o presidente podem diminuir os ruídos e trazer avanço nas soluções.

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