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Pandemia pode deixar legado definitivo no comportamento social

Impactos momentâneos ou legado definitivo? Da rápida queda na poluição do ar a animais selvagens vistos em centros urbanos, a pandemia transformou, também, o comportamento social. País deverá redefinir novas políticas públicas no pós-crise, dizem especialistas

Simone Kafruni
postado em 17/05/2020 07:00

pessoas com máscarasA pandemia do novo coronavírus transformou o mundo de uma forma nunca antes imaginada, com fechamento de fronteiras e medidas de isolamento. O que a humanidade aprenderá com essa crise sem precedentes e se haverá legado positivo são o que especulam os especialistas. As mudanças são evidentes nos âmbitos social, ambiental e econômico. Com o recolhimento do ser humano, alguns indicadores do meio ambiente tiveram melhoras expressivas em termos globais, como a qualidade do ar e da água e o ressurgimento de espécies da fauna. No comportamento social, há avanços, como demonstrações de solidariedade, maior convívio em família e conscientização sobre a importância de hábitos de higiene.

Qualquer tipo de benefício, no entanto, não é motivo de celebração, pois terá sido às custas de milhares de mortes. Ainda assim, a reflexão sobre as lições se impõe. Para o especialista em Sustentabilidade na Universidade de Nijenrode, na Holanda, Eugenio Singer, presidente da Ramboll no Brasil, são paradoxos interessantes. ;Todo o fechamento resulta numa abertura que pode ser mais disruptiva do que vinha acontecendo normalmente. Por questões óbvias, (o vírus) resultou e impactou em questões sociais, ambientais, econômicas;, avalia. ;A covid fez pelo meio ambiente o que as 25 COPs (Conferência das Partes da convenção das Nações Unidas sobre mudança climática) não fizeram;, diz.

Singer afirma que estudos de agências espaciais mostram claramente a redução dos níveis de dióxido de nitrogênio. ;A estimativa inicial é a de salvar 50 mil vidas com a queda da poluição, porque isso reduz problemas respiratórios. Com menor tráfego marítimo, a qualidade da água melhorou e os peixes voltaram;, destaca. No entanto, o especialista aponta outros ganhos, além dos ambientais, como a utilização de plataformas digitais, que transformaram as reuniões laborais. ;A produtividade do trabalhador aumentou, porque ele deixa de perder tempo se deslocando;.

;Uma lição que o país deve levar da pandemia é como definir novas políticas públicas no pós-crise. Qual será a reação ao emprego, à mobilidade. O modo de trabalhar vai mudar. É injusto uma pessoa ter que se locomover duas horas e meia e gastar cinco horas por dia dentro de um transporte público. Isso certamente deve alterar a questão de mobilidade;, analisa.

No entender de Mariangélica de Almeida, advogada especialista em Direito Ambiental, o coronavírus deixou claro que muito precisa mudar. ;Houve um despertar para coisas desnecessárias. O deslocamento, por exemplo. Ficou evidente a maior produtividade no teletrabalho. No órgão onde trabalho, a produtividade aumentou 30%; e 70% das pessoas devem permanecer em casa;, ressalta.

Toda a redução no ambiente de trabalho significa menos emissões no trânsito, menor utilização de papel, com árvores preservadas, além de redução no consumo de energia nos escritórios, enumera. ;Será preciso repensar decisões, porque certos gastos estão migrando para a casa das pessoas;, alerta. Almeida pondera que até o desperdício de alimentos cai com a maior presença da pessoa em casa: ;Aumenta a compra por aplicativo, com redução no uso das sacolas plásticas;.

Alguns efeitos podem não ser tão positivos para o meio ambiente, ressalta a advogada. ;O lixo hospitalar está aumentando, com o descarte de máscaras e de embalagens de álcool em gel. Além disso, o hábito de lavar as mãos, embora positivo no aspecto social e sanitário, amplia o consumo de água;, pontua.

A melhoria na qualidade do ar foi sensível em todos os países que promoveram quarentenas. No Brasil, segundo a professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP) Regina Maura de Miranda, especialista em poluição atmosférica, a redução foi significativa em São Paulo, sobretudo, nas duas últimas semanas de março, com grande adesão à quarentena. ;Houve queda do monóxido carbono (CO2), emitido por veículos leves, e também do dióxido de nitrogênio (NO2), mais relacionado ao diesel. Os dados de abril também estão abaixo do normal;, revela.

Conscientização

Na opinião de Heinrich Hasenack, professor de departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), as melhorias percebidas na qualidade do ar não serão perenes. ;Acredito que a poluição deve voltar aos mesmos níveis de antes da pandemia, assim que as indústrias voltarem a produzir a todo vapor e os carros retornarem às ruas;, opina. Contudo, o lado positivo, segundo o professor, é que será possível mensurar melhor. ;Quando soubermos como houve a redução e o que contribuiu para ela, isso pode orientar políticas públicas a fim de encontrar um meio termo;.

Hasenack alerta, no entanto, que a redução da poluição do ar que ocorreu em vários países não ;fará cócegas; nas mudanças climáticas se não provocar uma conscientização. ;O desafio é se a sociedade vai querer isso;, sustenta. O professor pontua que a redução das emissões decorrentes do menor consumo de combustíveis fósseis pela indústria e no movimento de veículos era esperada. ;Mas só contribuirá para amenizar as mudanças climáticas se efetivamente diminuir após a pandemia;, reitera.

Outro fenômeno foi o reaparecimento de animais (veja mais na arte ao lado). De acordo com Paulo Brack, professor de Instituto de Biociência da UFRGS, é normal que a fauna se aproxime de centros urbanos por conta do menor ruído. ;Muitas pessoas estão se dando conta de que o ritmo que a gente tinha não dá para ser retomado e que fazemos parte de um ecossistema;, afirma. Segundo ele, estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) mostra que 8,8 milhões de pessoas morrem por ano em consequência da poluição do ar.

O cientista explica que o sistema imunológico responde à qualidade de vida. ;Passada a pandemia, será necessário pensar em manter a qualidade de vida, rever a matriz produtiva, converter a indústria a uma produção mais limpa, eliminar ou reduzir os gases de efeito estufa;, elenca. ;Com esse momento de alívio, eu me pergunto se não estamos entrando num colapso ecossistêmico;, diz.

Um questionamento ainda mais pessimista tem Alexandre Toshiro Igari, pesquisador, orientador e vice-coordenador no Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade da EACH-USP. ;Tenho uma expectativa ruim de que não vamos tirar nada de bom dessa crise. A pandemia mostra o lado ruim da sociedade, como representantes da indústria colocando na mesma balança vidas humanas e a sobrevivência de empresas. Temo que sociopatia, egoísmo e consumismo prevaleçam;, lamenta.

Contudo, o pesquisador reconhece que muitos fenômenos foram positivos. ;Vimos águas-vivas por canais, cangurus na Austrália, a vida selvagem vindo à cidade, com menos gente nas ruas. Isso mostra como as nossas atividades afetam negativamente o meio ambiente;, assinala. ;Talvez seja possível uma ponderação sobre o nosso estilo de vida e nossas escolhas. Por exemplo, ao trabalharem em casa, as famílias estão experimentando uma reconexão positiva.;

ilustração de dados

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