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Correio Braziliense

Desinformação na pandemia é o maior desafio vivido por checadores

Iniciativa de instituto internacional aponta mais de 6,2 mil informações falsas (chamadas por alguns de "fake news") difundidas em 74 países, incluindo o Brasil


postado em 25/05/2020 22:39 / atualizado em 27/05/2020 12:28

(foto: Mec/Divulgação)
(foto: Mec/Divulgação)
São nos períodos em que mais se precisa de informações corretas que a desinformação prolifera com força. Durante a pandemia do novo coronavírus, o trabalho está triplicado para os checadores - jornalistas que trabalham especificamente no sentido de evitar que as informações equivocadas, falsas (chamadas de ‘fake news’), induzam a população ao erro. O projeto Aliança de Checagem de Fatos sobre Coronavírus, ligado à Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN, sigla em inglês), já contabilizou mais de 6,2 mil informações falsas checadas por 88 plataformas de 74 países. 

Diretora-adjunta da IFCN e coordenadora do projeto, que começou no dia 24 de janeiro, Cristina Tardáguila diz enxergar o período como o maior desafio global que os checadores já enfrentaram. “O volume de informações (a serem checadas) é colossal. É a maior batalha que os checadores do mundo já enfrentaram”.

Tardáguila, que também é fundadora da Agência Lupa, diz que com base nas checagens compiladas já foi possível observar oito “ondas” de informações falsas, com assuntos que envolveram, por exemplo, a origem do vírus, falsas curas, supremacia racial e religiosa (informações falsas de que pretos e muçulmanos não seriam contaminados, por exemplo), 

politização do assunto e desinformação acerca de quarentena e ‘lockdown’ (isolamento completo). 

De acordo com a checadora, um dos grandes desafios do momento é lidar com a qualidade dos dados sobre o assunto, que ainda é muito fraca, uma vez que o vírus é conhecido há menos de seis meses. Sem uma base de dados sólida, “o terreno é fértil para notícia falsa”, como expôs Tardáguila. Além disso, uma diferença observada por ela é que a checagem política tem como pano de fundo uma tentativa de conquistar voto, expandir uma ideologia, esconder alguma coisa, sempre com o viés negativo.

“Mas as (informações) relativas à covid-19, se observa uma vertente muito desafiadora, que é a notícia falsa que busca proteger. Aquelas que pedem para que a pessoa beba chá de limão, vitamina C. O intuito positivo é muito difícil de ser combatido. Você soma a imaturidade da base de dados, com a internacionalização do problema e ainda o desejo de proteger as pessoas queridas, e é uma bomba”, disse. 

Professora de ética e jornalismo na Universidade de Brasília (UnB), Rafiza Varão alerta sobre os perigos da desinformação durante uma pandemia. “Os efeitos são muito nocivos, porque nós precisaríamos estar em ações de combate ao coronavírus, como as ações de distanciamento social, e nós acabamos perdendo muito tempo ou combatendo as fake news, quando nós estamos do lado daqueles que analisam as notícias, ou nós perdemos em questões reais como a vida de uma pessoa”, explica a docente. 

De acordo com Rafiza, a dificuldade das pessoas aceitarem a situação em que o mundo se encontra também impulsiona a desinformação. “Hoje, na maioria das vezes a gente consome conteúdos que estão muito ligados às nossas crenças e, no caso de uma situação social de grande trauma, um dos principais elementos é a negação. “Nós costumamos negar aquilo que nos afeta muito drasticamente”, disse.

Diretora de conteúdo da Agência Lupa, primeira especializada em checagem do Brasil, Natália Leal afirma que a pandemia é, com certeza, o maior desafio já enfrentado pela agência. De acordo com ela, o volume de trabalho cresceu pelo menos três vezes neste período de pandemia, e que o período é mais intenso que as eleições de 2018 - onde houve amplo trabalho de checagem por vários veículos de comunicação no país.

“Durante as eleições, a gente tinha muita desinformação, mas elas eram, via de regra, sobre os mesmos assuntos. Tinham grandes temas e aquilo ia e voltava. Agora, tem uma quantidade absurda de peças, todo dia tem uma coisa nova”, esclareceu. Conforme Leal, a somatória do cenário de incerteza com a necessidade constante das pessoas por resposta gera um cenário muito propício para ampla circulação de conteúdo que desinforma.

A diretora aponta que o que mais complica em relação ao trabalho é o dinamismo de informação sobre o vírus e a doença. “A informação falsa hoje pode ser verdadeira daqui a dois, três dias, ou o contrário. Os dados mudam conforme o momento, a pandemia é dinâmica, e a gente não consegue dar respostas tão incisivas neste momento para algumas das maiores dúvidas das pessoas”, afirmou. 

A checadora explica que existe uma onda de desinformação ligada a questões políticas, com uma politização da discussão que deveria ser sobre saúde. Ela pontua que as questões de saúde pública estão sendo usadas para propagar determinadas ideias, citando como exemplo o debate envolvendo o medicamento hidroxicloroquina. “É de saúde pública, saber se faz efeito ou não, mas a discussão tomou um ponto central na questão política. Quem concorda com a posição do presidente, defende o uso, quem não concorda, não defende”, disse.

Holofote

O Correio Braziliense também contribui nessa luta contra a desinformação relativa ao coronavírus com a atuação do Holofote, núcleo de checagem de fatos criado no começo do ano passado. O Holofote segue, inclusive os cinco princípios éticos da IFCN: apartidarismo e equidade; transparência das fontes; transparência de financiamento e organização; transparência de método; e correções francas e amplas.

Projeto Comprova

Criado para as eleições de 2018, o projeto Comprova, formado pelo trabalho colaborativo de 24 veículos de comunicação, trabalha desde o fim de março com checagens voltadas à pandemia. Após quase dois meses de atuação, foram 60 matérias. Editor do projeto, Sérgio Lüdtke explica que um grande desafio é lidar com o volume de informações que tem uma base politizada. 

“Um dos exemplos disso foi o uso da cloroquina, que passou a ser defendido por aliados de Bolsonaro”, disse, pontuando que grupos políticos foram assumindo para si bandeiras durante a pandemia. O foco do projeto no coronavírus deve durar até o fim da pandemia. Até o momento, o grupo recebeu 9 mil sugestões de checagens de leitores - nas eleições de 2018 o projeto recebeu 75 mil. 

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