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Correio Braziliense

Ex-jogadora de vôlei Ana Paula associa negros a números de crimes nos EUA

Durante onda de protestos no país, ex-atleta brasileira negou existência de racismo sistêmico


postado em 05/06/2020 10:07 / atualizado em 05/06/2020 10:25

Ana Paula 'do vôlei' fez uma série de posts minimizando a importância dos protestos contra o racismo nos EUA (foto: Reprodução/Instagram)
Ana Paula 'do vôlei' fez uma série de posts minimizando a importância dos protestos contra o racismo nos EUA (foto: Reprodução/Instagram)
Em meio a uma das maiores ondas de protestos contra o racismo nos Estados Unidos, a ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel fez uma associação à população negra e estatísticas de crimes no país.

A partir de uma série de posts no Twitter, a ex-atleta (branca), que atualmente mora nos EUA, defendia que a polícia mata mais brancos do que negros no país e negava a existência de um racismo sistêmico.

Uma de suas últimas postagens, que não é bem clara, associa os negros a dados de crimes no território americano. “12% negros. 62% dos roubos. 56% dos assassinatos. Do your math (Faça suas contas)", escreveu Ana Paula na rede social.



Os números foram extraídos do livro The war on cops: How the new attack on law and order makes everyone less safe (A guerra contra a polícia: Como o novo ataque à lei e à ordem torna todos menos seguros), de 2017, da autora (também branca) Heather Mac Donald.

Uma das teses defendidas na obra citada por Ana Paula é a de que desde o homicídio do jovem negro Michael Brown, de 18 anos, em Ferguson, em 2014, pela polícia, os policiais estão se afastando do policiamento proativo, e os criminosos estão se encorajando.

No Twitter, Ana Paula seguiu. “A polícia mata mais negros que brancos” é uma falácia. Pesquise. A brutalidade policial existe e tem que ser exposta, mas NÃO é a regra e não mata mais negros. Veja as estatísticas. Há um pesquisa gde do Washington Post (viés esquerdista) sobre isso. Vc encontra nesse livro.



E também: “Sim, há racismo, mas não é sistêmico como querem empurrar”.

De acordo com a brasileira, em dez milhões de prisões, 19 pessoas brancas foram mortas pela polícia, contra 9 mortes de negros.

Questionada na rede pelo jornalista Anselmo Caparica, da Rede Globo, ela não esclareceu o que quis dizer com os percentuais publicados e preferiu atacar.

“O tuíte vem de uma thread longa, Anselmo. Bem longa. Vc me conhece e não precisa pagar pedágio ideológico. Lamentável é a sua falta de honestidade”, declarou a ex-jogadora.

E completou: “Não há absolutamente nada racista na thread, muito pelo contrário, eu concordo com o rapaz e mostro apenas as estatísticas que ajudam a entender uma abordagem maior dos policias, tentando trazer o debate para o campo social, onde mora (sic) muitos dos problemas dessas comunidades”.

Mineira de Lavras, Ana Paula defendeu o Minas e o Mackenzie, dois dos principais clubes de Belo Horizonte. Pela Seleção Brasileira, ganhou medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996.

Ana Paula está certa?


Analisando apenas números absolutos citados por Ana Paula, as mortes de brancos em ações policiais foram maiores – 19 – contra nove de negros. A fonte dos dados não é informada pela brasileira.

Contudo, Ana Paula desconsidera um dado importante, apesar de citá-lo. A população negra nos Estados Unidos é de apenas 12,8%. Brancos somam 79,8% (hispânicos: 15,4%; asiáticos: 4,5%; nativos: 1,2%; e multirraciais 1,7%, segundo o Censo americano de 2008).

Outras fontes também podem ser utilizadas para ampliar a visão sugerida por Ana Paula, de que não há um olhar de preconceito por parte da polícia contra pessoas negras.

Também é necessário destacar que, felizmente, nem toda abordagem policial resulta em morte.

De acordo com a obra As prisões da Miséria (1999), do francês Loïc Wacquant (também branco), aproximadamente 80% dos jovens homens negros e latinos da cidade foram detidos e revistados pelo menos uma vez pelas forças da ordem em Nova York naquele ano.

À época da publicação do livro, 60% da população carcerária era de negros e latinos. O artigo The Color of Justice: Racial and Etnic Disparity in State Prisons (A Cor da Justiça: Disparidade Étnica e Racial nas Prisões Estaduais), publicado em 2016 pela Organização não Governamental The Sentencing Project, demonstra que o número de afro-americanos encarcerados em prisões estaduais é 5,1 vezes maior que o de brancos.

Esta proporção pode alcançar uma taxa acima de 10 para 1, em cinco Estados (Iowa, Minnesota, New Jersey, Vermont e Wiscosin). No Estado de Maryland, 72% da população carcerária é constituída de negros.

Significa que pessoas dessas etninas cometem mais crimes, como quis fazer crer Ana Paula? Não necessariamente.


“A grande maioria das queixas de ‘incidentes com a polícia’ diz respeito a ‘incidentes por ocasião de patrulhas de rotina’ – em oposição às operações de polícia judiciária –, cujas vítimas são residentes negros e latinos em três quartos dos casos. Só os afro-americanos realizaram 53% das queixas, ao passo que representam apenas 20% da população da cidade (Nova York). E 80% dos requerimentos contra violências e abusos por parte dos policiais foram registrados em apenas 21 dos 76 distritos entre os mais pobres da cidade”, afirma Wacquant em sua publicação”.

O próprio livro utilizado pela ex-jogadora brasileira contém trecho que cita levantamento realizado pelo jornal Washington Post em 2015, demonstrando que à época, pessoas negras desarmadas tinham sete vezes mais chances de morrer pelas mãos da polícia do que brancas.

Georde Floyd, morto pelo policial branco Derek Chauvin – fato que desencadeou toda a onda recente de protestos – estava desarmado e pediu clemência durante os oito minutos em que foi asfixiado. Em vão.

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