Brasil

Com o objetivo de denunciar racismo, perfil acusa indígena de fraudar cota

Perfil expõe indígena como falsa cotista e ela rebate o racismo: "Índio não pode pintar o cabelo?"

Ana Carolina Guerra/Diário de Pernambuco
postado em 05/06/2020 10:17
Perfil expõe indígena como falsa cotista e ela rebate o racismo: As redes sociais têm sido uma ferramenta utilizada para expor diversos tipos de denúncias e que, atualmente, demonstram o poder e o grande alcance no número de visualizações de uma postagem em um curto espaço de tempo. Apesar de desfrutar de livre expressão e se tornar um território onde há circulação de opiniões, críticas, exposições de fatos e acontecimentos, as mídias sociais se tornaram um perigo quando não utilizadas de forma responsável.

Em uma semana onde houveram diversas manifestações e denúncias sobre racismo, uma conta no Twitter foi criada para denunciar estudantes que se autodeclararam pretos, pardos ou indígenas e que conseguiram ingressar em universidades públicas através do sistema de cotas raciais, mas que não fazem parte do perfil.

Na manhã da última quarta-feira (4), a conta intitulada ;Fraudadores de Cotas Pernambuco; divulgou uma lista destas pessoas, mas com uma falsa informação. O perfil na rede social informou que a estudante Larrissa Sá, de 19 anos, que está no segundo semestre do curso de medicina na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), teria fraudado a sua inscrição e mentido ao se autodeclarar indígena. A estudante é de origem do povo Tikum-Umã, da região de Carnaubeira da Penha, no Sertão de Pernambuco.

[SAIBAMAIS]Em desabafo, Larissa conta que, ao acordar, recebeu inúmeras mensagens de ódio e xingamentos através da sua conta pessoal no Instagram e pelo perfil que havia denunciado a estudante.

"Eu sempre falo sobre filtrar as pessoas que a gente segue, mas eu também queria falar sobre filtrar as coisas que a gente posta", contou a jovem através da sua conta no Instagram. Após algumas falas, Larissa compartilhou as mensagens de ódio que recebeu durante o dia.

"Eu sempre falo sobre filtrar as pessoas que a gente segue, mas eu também queria falar sobre filtrar as coisas que a gente posta", contou a jovem através da sua conta no Instagram. Após algumas falas, Larissa compartilhou as mensagens de ódio que recebeu durante o dia.

;No começo do ano eu passei no vestibular e aí eu fui fazer a minha matrícula. Fiz minha entrevista e não me deram o resultado. Eu voltei para a minha cidade e alguns dias depois saiu uma lista de espera e tinha uma pessoa na minha vaga. E aí eu liguei para a faculdade e perguntei o que estava acontecendo porque eu queria acreditar que tinha aberto outra vaga. A mulher [da universidade] falou que a minha matrícula tinha sido indeferida porque a banca avaliadora, que não tinha nenhum indígena, chegou a conclusão de que eu não era indígena. Minha família ficou destruída, eu fiquei destruída;, conta.

Importância das cotas para estudantes
Apesar sofrer com estereótipos, Larissa Sá acredita que as cotas são de grande importância para todas as raças.

;É por motivos como esse que devemos defender as cotas. Precisamos de voz, precisamos ser ouvidos e melhores interpretados. Não só a cota indígena. Ser indígena é questão de pertencimento e não de fenótipo. As pessoas precisam se educar intelectualmente para assim educar o coração e parar de espalhar ódio;, conta.

A conta ;Fraudadores de Cotas Pernambuco; foi desativada. Entretanto, muitos outros casos foram denunciados na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A reportagem entrou em contato com a universidade, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

A estudante de jornalismo, Samantha Oliveira, ingressou na UFPE através do sistema de cotas, e explica que este ainda é um recurso de extrema importância.

;O sistema de cotas ainda é um sistema emergencial. Ainda não encontraram outras medidas de conceber o acesso igualitário aos negros nas universidades. Nós vemos a importância disso através de uma base histórica e social porque nós negros, mesmo sendo libertos, não tivemos essa democracia racial que as pessoas dizem que existe. Não tivemos o mesmo acesso à educação, qualidade de vida, o que fosse; relata.

Samantha informa que a falta de representatividade dos negros em cursos de ampla concorrência também deve ser motivo para questionamentos.

;Ainda é muito difícil de ver pessoas negras em cursos como medicina, engenharia, direito. Então, a partir disso, precisamos nos perguntar porquê é tão difícil de ver essas pessoas ocupando estes espaços. A cota é para que esta parte da população esteja nestes locais. Lembrando que é por capacidade. É uma forma dos negros competirem entre si;, explica.

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