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Correio Braziliense

Brasil tem 38,45% de perda de água potável no sistema de distribuição

O Distrito Federal mantém a taxa abaixo da média nacional


postado em 05/06/2020 20:20 / atualizado em 05/06/2020 21:23

(foto: Governo do Paraná/Divulgação)
(foto: Governo do Paraná/Divulgação)
Brasil tem 38,45% de perda de água potável, de acordo com estudo realizado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a organização Water.org, e os motivos vão desde vazamentos e roubos por meio de “gatos” a erros de leitura dos hidrômetros. Se a taxa fosse minimizada para 20%, o volume economizado abasteceria quase 33 bilhões de brasileiros por um ano ou todas as favelas do país por dois anos. 

As taxas de desperdício ao longo da distribuição da água significa que para cada 100 litros de água captada, tratada e potável, 38 litros não chegam oficialmente a ninguém. De acordo com os índices divulgados, as perdas nos sistemas de distribuição brasileiros estão piorando com o passar dos anos. Em 2014, o país registrou perda de 36,7%, quatro anos depois, o indicador subiu 1,75 ponto percentual, chegando a 38,45%. A redução dessas taxas permitiria que mais pessoas tivessem acesso ao recurso, já que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 31,1 milhões de brasileiros não têm acesso a água fornecida por meio da rede geral de abastecimento. 

A falta de acesso à água tratada também reflete na saúde de grande parte população brasileira que, ao mesmo tempo que enfrenta uma pandemia, não tem recursos para a higienização correta, conforme recomendado pelas autoridades médicas. “Os brasileiros sem acesso à água estão justamente nas áreas mais vulneráveis, nas favelas, nos semiáridos, na área rural. São pessoas que já ficariam doentes naturalmente pelo esgoto que corre a céu aberto”, pontua Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil.

A pesquisa, que tem como base os dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), constatou perda de 6,5 bilhões de m³ no ano de 2018 (ano base para o estudo), o que equivale a 7,1 mil piscinas olímpicas por dia. Isso significou perda de R$12 bilhões dos recursos investidos em saneamento básico no Brasil. Segunda a análise de cenários desenvolvida pelo Instituto, caso o país reduzisse a perda de água para 20%, teria um ganho líquido de R$30,9 bilhões. 

De acordo com Édson Carlos, o desperdício de água ao longo da distribuição impacta o país em pelo menos três frentes, são elas ambientais, econômicas e sociais. Primeiro, requer a retirada de mais água da natureza para cobrir a ineficiência da distribuição, mesmo em momentos de crise hídricas como passaram as regiões Sudeste, Nordeste e Sul do país. Além disso, o custo de transformação da água in natura em água potável, que envolve energia elétrica, produtos químicos e funcionários, por exemplo, não é suprido pela tarifa cobrada do consumidor final. Por fim, os problemas sociais, referentes às periferias do país. 

O diretor-presidente da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal Adasa), Paulo Salles, reforçou, na última quarta-feira (3) em um encontro virtual, que a pandemia escancarou a desigualdade social brasileira, inclusive no acesso à água. “Temos que encontrar novas abordagens para velhos problemas como a diarréia e a dengue”, pontuou o diretor. 

O Instituto Trata Brasil afirma que 100 milhões de pessoas vivem em localidades sem acesso à coleta dos esgotos, estando vulneráveis em relação a doenças como diarreia, leptospirose, dengue, malária e esquistossomose que comprometem o sistema imunológico e, sobretudo, o desenvolvimento de crianças. Em 2018, números do DATASUS mostram que o país contabilizou mais de 233 mil internações por doenças de veiculação hídrica, sendo quase 50% em crianças de 0 a 5 anos. 

Distrito Federal

A Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) mantém uma taxa de perda de água abaixo da média nacional. Em 2016, antes da crise hídrica vivenciada no DF, o índice era de 35,21%, baixando para 34,49% em 2018, ano base do estudo realizado pela Trata Brasil. Em 2019, a Caesb diminuiu essa taxa para 32,1%. De acordo com Paulo Salles, a companhia realizou ações com foco de diminuir essa média, dentre elas, a troca de hidrômetros velhos. Ainda assim, o volume de água desperdiçado chega a mais de 155 milhões de litros por dia, o que bastaria para atender 1.167.408 pessoas diariamente, tendo em vista o consumo médio de 140 litros por habitante.  

O diretor-presidente da Adasa coloca que a perda na distribuição se dá em dois tipos. “Uma é perda real, é água que sai por vazamento, é água que se perde nos ramais e nos próprios reservatórios. Têm ainda as perdas aparentes, a água que eles retiraram, eles entregaram, mas eles não conseguiram faturar. Ou seja, essas perdas incluem outros problemas, ligações clandestinas, fraudes no hidrômetro”, comenta. Da taxa de perda de água da Caesb, de acordo com Salles, apenas 23% equivale à perda real, a companhia trabalha para que essa taxa caia ainda mais.  

Paulo Salles complementa que em meio a pandemia a Caesb tem feito “vista grossa” para a população que vive de ligações clandestinas de água, “já que são áreas que não tem como tirar as pessoas e levar para outro lugar” e a população não poderia ficar sem acesso ao recurso nesse momento. “Não tem ninguém sem água, ninguém consegue sobreviver em um lugar que não tem água. Quem não tem água, está perto de uma área que tem água e faz ligação clandestina. A Caesb tem um programa de combate às ligações clandestinas, nesse período de emergência eles não estão fazendo essas ações”, fala o presidente.

Assim, a falta de água tem ligação direta com as periferias do Distrito Federal. “São áreas recentes, têm também áreas em processo de regularização, por exemplo o Sol Nascente que é uma extensão da Ceilândia” e que recentemente virou uma Região Administrativa. “Não tem dúvida de que os mais pobres são os mais vulneráveis”, afirma Salles que reforça a importância do uso racional de água. “Neste momento nós estamos com o reservatório a 100%, mas vem aí a seca e a gente não sabe como vai ser o fim do ano”. 

* Estagiária sob supervisão de Vicente Nunes

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