Publicidade

Correio Braziliense

Entenda como é o lockdown em Goiás sugerido por Caiado a prefeitos

Cabe aos municípios acatar ou não a indicação do governador Ronaldo Caiado em consonância com previsões feitas pela Universidade Federal de Goiás


postado em 29/06/2020 13:38 / atualizado em 29/06/2020 14:20

Caiado e Bolsonaro durante cerimônia de inauguração do Hospital de Campanha de Águas Lindas de Goiás(foto: Alan Santos/PR)
Caiado e Bolsonaro durante cerimônia de inauguração do Hospital de Campanha de Águas Lindas de Goiás (foto: Alan Santos/PR)
A partir desta terça-feira (30/6), o estado de Goiás começa a viver uma série de medidas de isolamento radicais previstas para os próximos 14 dias. A medida foi sugerida por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) que estimaram a morte de mais de 18 mil pessoas até setembro caso não houvesse mudanças na forma de enfrentamento da covid-19 no estado.


Cabe aos municípios acatar ou não a indicação, que foi defendida pelo governador Ronaldo Caiado (DEM). “É momento que exige responsabilidade. Se tivesse sobre mim a  prerrogativa, eu decretaria (o lockdown), criando, também, o rastreamento dos portadores. A análise é compatível à realidade dos fatos e do crescimento de casos e óbitos, assim como de pessoas que recorrem aos leitos de UTI”, defendeu Caiado. 

 

A sugestão defendida pelos pesquisadores é de um lockdown intermitente até setembro, com fechamento total por 14 dias e abertura pelos próximos 14, de maneira intercalada. Para isso, estimaram três cenários: um caso sejam mantidas as atividades como estão, com taxa de isolamento em 36%; outra com lockdown absoluto por três meses, prevendo taxa de isolamento em 55%; e, por último, um cenário intermediário, intercalando a maior e a menor taxa. 

 

No primeiro cenário, a estimativa é que Goiás precisaria de ter 2 mil leitos de UTI funcionando até o início de julho apenas para atender casos de covid. No entanto, o governo destacou que, com todos os esforços, esse número seria impossível, já que a capacidade máxima seria de 600 leitos.

 

“Essa demanda deve praticamente duplicar nos próximos 15 dias. Assumindo que não conseguiria hospitalizar o dobro de pessoas, podemos ter um colapso hospitalar entre 8 e 15 de julho. Se isso de fato se concretizar, esse número de 18 mil mortes pode ser pequeno. Porque, a partir de um colapso, pessoas que necessitariam de um tratamento e poderiam ser salvas não vão ter oportunidade”, advertiu o o professor do Departamento de Ecologia da UFG Thiago Rangel, um dos responsáveis pelas análises. 

 

Lockdown total 

Se houvesse um lockdown total, 13 mil pessoas seriam salvas, o que representa salvar toda a população do município goiano de São João da Aliança. No entanto, os pesquisadores ponderam que uma rigidez teria um impacto sócio-econômico grande, com agravamento nas desigualdades e possível baixa adesão. 

 

“O lockdown é uma ferramenta extremamente importante e que deve ser usada com parcimônia porque é extremamente amarga, em casos e momentos específicos. Na prática precisamos sair dessa discussão polarizada entre lockdown e não fazer nada. Essa dicotomia, em que só se prevê dois lados, não é produtiva, porque essa não é a única ferramenta que nós temos”, ponderou Rangel. 

 

Para o pesquisador, a opção intermediária é exemplo de uma estratégia coordenada e inteligente de longo prazo para garantir que não colapse os hospitais e que pode e deve ser ponderada de acordo com a situação de cada município. “Haverá municípios que não precisarão passar por essa medida e outros que vão necessitar de um fechamento superior a 14 dias. Então isso precisa ser estudado caso a caso e coordenado de ponto de vista central, por parte do estado de Goiás, passando pelas secretarias municipais, para uma decisão planejada”, destacou. 

 

Nessa metodologia, um fechamento de 50% do tempo seria suficiente para  salvar 61,5% das pessoas, ou seja, 8.360 vidas poupadas. Implementar esse fechamento coordenado é o mesmo que salvar toda a população do município de Cachoeira Dourada, por exemplo.  

 

Além do lockdown intermitente, o grupo propôs fazer um rastreamento de contato mais efetivo, observando e isolando não só o infectado, mas toda a rede de contactantes. Dessa forma, a expectativa é quebrar a rede de contato que o vírus usa para se espalhar.

 

Com 50% de efetividade desse monitoramento, a estimativa é que um grupo de 10 pessoas contaminadas que tem potencial de transmitir a doença para outras 16 só infecte outras 8 ou sete. Ao combinar essa ferramenta com a testagem e a tecnologia, como aplicativos de rastreamento e telefonias mais constantes, a efetividade aumenta, podendo chegar à redução de 76,5% dos óbitos, ou seja, salvar 10.280 vidas, o que equivale a toda a população de Petrolina.

Reunião

As sugestões foram apresentadas durante a videoconferência, na manhã desta segunda-feira (29/6), que reuniu pesquisadores, frentes empresariais, prefeitos, parlamentares, secretários e o governador de Goiás. Para se fazer cumprir as determinações, Caiado chegou a propor o uso de forças policiais e disse que o estado iria, de acordo com a capacidade, auxiliar no envio de reforço aos municípios. 

 

Pediu, ainda, que os prefeitos informem possíveis estoques de medicamentos, respiradores e monitores não demandados para serem utilizados no enfrentamento à covid. “Temos feito a tarefa de casa e nesse período todo tentando aumentar a capacidade hospitalar. Se concentrarmos tudo em Goiânia, pacientes de municípios mais distantes não teriam acesso. Por isso, a priorização foi de equipar municípios mais distantes”, informou Caiado. 

 

O prefeito de Goiânia indicou que irá aderir ao fechamento intermitente o mais rápido possível. “Temos feito a tarefa de casa e nesse período todo tentando aumentar a capacidade hospitalar. Se concentrarmos tudo em Goiânia, pacientes de municípios mais distantes não teriam acesso. Por isso, a priorização foi de equipar municípios mais distantes”, adiantou íris Rezende (MDB). 

 

O secretário de saúde de Goiás, Ismael Alexandrino Júnior, alertou para a necessidade dos outros municípios impactados aderirem ao pedido. “Das conclusões atuais estão a alta taxa de ocupação dos leitos públicos e privados, dificuldade nacional de aquisição de equipamentos, medicamentos e mão de obra. Isso posto, sei que alguns aspectos fora da saúde são fundamentais, como o social e econômico, mas precisamos achar um equilíbrio”, defendeu. 

 

Alexandrino, destacou, ainda, que medidas como o uso de máscaras e distanciamento de um metro entre pessoas auxilia na contenção da disseminação e que, por mais que existam outros formatos de enfrentamento que não o lockdown intermitente, este é o mais viável para implementação coordenada.  

 

“Estudo de bandeiras até contemplaria mais a equidade dada a especificidade de cada município, mas é difícil de ser assimilado. Dada a diversidade, até implantar estaria no final de julho”, justificou o secretário de saúde. Até o último levantamento, Goiás acumulava mais de 22 mil casos e 435 óbitos confirmados pelo novo coronavírus. 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade