Brasil

Covid-19: Brasil tem 2 milhões de infectados e nenhum sinal de alívio

A dez dias de completar cinco meses de pandemia, o Brasil tem 2.012.151 casos confirmados; foram 45.403 mil nas últimas 24 horas. Com ritmo acelerado e interiorização do vírus, o número de mortes aumentou 1.322 de quarta para quinta, totalizando 76.688

Maria Eduarda Cardim, Bruna Lima
postado em 17/07/2020 06:00

cama de um hospitalMais de dois milhões de confirmações do novo coronavírus no Brasil. Na ponta do lápis, isso representa o recorde de turistas que passaram o Carnaval no Rio de Janeiro este ano, pouco antes de a doença dar os primeiros sinais no país; ou o número total de pessoas que assistiram à última virada do ano na Paulista. Quatro meses e 20 dias após o registro do primeiro caso de covid-19 no Brasil, o país chegou hoje a 2.012.151 cidadãos infectados. A marca demonstra a rapidez com que a curva brasileira subiu nas últimas semanas. Em 19 de junho, o país alcançava 1 milhão de positivos confirmados; agora, o número dobra em menos de um mês. Isso significa que o novo milhão deve vir 4,4 vezes mais rápido do que o primeiro, iniciado em 26 de fevereiro, quando foi registrado o primeiro caso no Brasil.

ilustração de dados


Em relação ao cenário mundial, apenas os Estados Unidos superam o total de casos e fatalidades pelo novo coronavírus. Segundo levantamento do site de estatística Our World In Data, mais de 138 mil norte-americanos perderam a vida em meio à pandemia e mais de 3,5 milhões foram infectados. Por outro lado, é o Brasil quem lidera na atualização de novas mortes atualmente. Enquanto os EUA registraram menos de mil novos óbitos, ontem, em território nacional foram contabilizados mais 1.322 brasileiros mortos pela covid-19, totalizando 76.688 vidas perdidas.


Para especialistas, os números mostram a gravidade da pandemia no Brasil, apesar da subnotificação. ;Não há dúvidas de que estes números não refletem a triste realidade do país, consequente à notificação decorrente do pífio número de testes aplicados na população;, critica a médica e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Tânia Chaves. ;Poderíamos estar contando e vivendo uma realidade menos dolorosa se as estratégias assertivas tivessem sido adotadas no lugar da negação da ciência brasileira e da simplificação da gravidade que o Sars-Cov-2 representa;, completa a infectologista.


De acordo com as estimativas do Portal Covid-19 Brasil, iniciativa liderada por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade de São Paulo (USP), há até seis vezes mais infectados no país do que o revelado oficialmente, com variação entre 12,2 milhões e 8,6 milhões de positivos para o vírus.


No mais recente levantamento do Imperial College de Londres, a taxa de contágio (Rt) brasileira está em 1,03. Isso quer dizer que um grupo de cem doentes tem capacidade de transmitir a covid-19 para outras 103 pessoas. Taxas acima de 1 significam que a doença ainda está descontrolada. Assim, o Brasil está há 12 semanas entre os países com o vírus ativo.

Platô

Para o diretor médico da Dasa, grupo do Laboratório Exame, Gustavo Campana, os dados indicam que atingimos um platô (estabilização) do número de casos e mortes, mas ainda não é possível saber quanto tempo ele vai durar. Segundo o especialista, esse é o comportamento esperado da doença. ;Você sobe, atinge um platô, fica durante um tempo nesse platô e começa a cair. Então, a gente acredita que está nesse platô, mas a gente não sabe quanto tempo ele vai durar;, afirma.


Com o avanço da infecção para o Centro-Sul do país, as taxas começam também a migrar, o que aponta que não há previsão para um declínio significativo de mortes e casos. O presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), José Luiz Gomes do Amaral, vê o avanço com preocupação: ;Tais números continuam a crescer sem sinais de arrefecimento. E não há, portanto, solução à vista.;

O que dizer do atual estágio da covid-19 no Brasil?


;Esse número de casos é mais do que o bastante para refletir com clareza a extensão da pandemia em nosso país e a gravidade do desastre sanitário que nos aflige. Ainda pior é a constatação de que tais números continuam a crescer, sem sinais de arrefecimento. Não há, portanto, solução à vista. Ao mesmo tempo e paradoxalmente, o assunto em pauta é a flexibilização do isolamento e o ;pós-covid;. Fala-se isso como se houvéssemos alcançado o controle da situação. Parece que renunciamos ao combate à covid-19. Rendemo-nos. Simplesmente jogamos a toalha.;, José Luiz Gomes do Amaral, presidente da Associação Paulista de Medicina (APM).

;Os números significativos devem ser vistos como pessoas, famílias, brasileiros. Não há dúvida de que esses números não refletem a triste realidade do país, consequente ao pífio número de testes aplicados na população. O Brasil possui um sistema de saúde robusto e capilarizado, o SUS, que é universal e, a despeito de tudo, está salvando vidas todos os dias. É preciso trazer soluções e esperanças para a população e para todos os profissionais envolvidos na linha de frente. Os caminhos são longos, é preciso que as autoridades do Brasil assumam suas responsabilidades.;, Tânia Chaves, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia.

;Nesses quatro meses de epidemia no Brasil e dois milhões de casos, nós aprendemos algumas coisas boas e outras, ruins. A primeira é que conseguimos nos mobilizar com o isolamento social, que funcionou na maior parte do país, e conseguimos ter uma curva de ocorrência da doença que minimizou os impactos da epidemia. Por outro lado, observamos com tristeza como as diferenças do Brasil ficaram escancaradas. E também o quanto há de dificuldade de prevenção de tratamento, que acaba impactando e também prejudicando os menos favorecidos.;, Renato Grinbaum, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia.


;A gente vai ter a certeza de que atingiu um pico depois de passar por ele, porém tudo indica que a gente está em um platô. Mas é importante lembrar que a queda é mais lenta do que a subida. Essa queda do número de casos por dia é uma queda mais lenta do que a subida porque você passa a ter um número de casos acumulados, então potenciais transmissores, maior. É preciso continuar investindo para aumentar a capacidade do número de testes e dos atendimentos. O teste é uma fonte de dados e dados são importantes para uma tomada de decisão.;, Gustavo Campana, diretor médico da Dasa, grupo do Laboratório Exame, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia.


;Nesses quatro meses de epidemia no Brasil e dois milhões de casos, nós aprendemos algumas coisas boas e outras, ruins. A primeira é que conseguimos nos mobilizar com o isolamento social, que funcionou na maior parte do país, e conseguimos ter uma curva de ocorrência da doença que minimizou os impactos da epidemia. Por outro lado, observamos com tristeza como as diferenças do Brasil ficaram escancaradas. E também o quanto há de dificuldade de prevenção de tratamento, que acaba impactando e também prejudicando os menos favorecidos.;, Renato Grinbaum, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia.


;A gente vai ter a certeza de que atingiu um pico depois de passar por ele, porém tudo indica que a gente está em um platô. Mas é importante lembrar que a queda é mais lenta do que a subida. Essa queda do número de casos por dia é uma queda mais lenta do que a subida porque você passa a ter um número de casos acumulados, então potenciais transmissores, maior. É preciso continuar investindo para aumentar a capacidade do número de testes e dos atendimentos. O teste é uma fonte de dados e dados são importantes para uma tomada de decisão.;, Gustavo Campana, diretor médico da Dasa, grupo do Laboratório Exame.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação