Brasil

Aglomeração diária nos transportes públicos põe pessoas em risco

Devido ao alto risco de contágio pela covid-19, o sistema de transporte público é motivo de preocupação de infectologistas e autoridades de saúde. Empresas garantem que estão cumprindo medidas sanitárias, mas querem ajuda do governo para cobrir custos do serviço

Renata Rios
postado em 03/08/2020 06:00

Passageiros na Rodoviária do Plano Piloto: concentração de pessoas cria ambiente favorável ao vírusHá cinco meses, a pandemia do novo coronavírus impôs uma realidade inesperada para quem depende de transporte público. Devido à aglomeração de pessoas, o meio coletivo de locomoção é considerado um ambiente de alto risco de contágio pela covid-19. Em meio à emergência sanitária, o setor entrou em crise, ao perder cerca de 30 milhões de passageiros. Na média nacional, a redução de oferta do serviço é de 60%, tendo chegado a 80% nos primeiros meses de disseminação da doença.


De acordo com o presidente da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), Otávio Cunha, desde o início da pandemia no Brasil, o transporte público coletivo está adotando protocolos preventivos, que seguem as recomendações das autoridades sanitárias, da Organização Mundial da Saúde (OMS) ao Ministério da Saúde (veja Transporte público).

O setor, entretanto, passou a enfrentar situação delicada. ;Pelos parâmetros adotados pelos órgãos gestores antes da pandemia, o equilíbrio dos contratos era alcançado com uma concentração de até seis passageiros por metro quadrado nos horários de pico. Isso agora é impensável;, avalia Cunha.

Alternativas

Além de medidas para prevenir o contágio, a pandemia levou os governos a pensar em alternativas ao transporte coletivo de passageiros. Pesquisa feita por cientistas do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ) recomendou que houvesse incentivo ao deslocamento a pé ou de bicicleta. O estudo apontou, ainda, que seria necessário o aumento da frota de veículos, para evitar as aglomerações.

A infectologista Lívia Vanessa Ribeiro, membro da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, reforça a necessidade de mais veículos circulando. ;Deve haver uma sensibilização, por parte dos gestores públicos e das empresas, para aumentar o número de veículos em circulação, evitando aglomerações;, destaca.

Otávio Cunha, da NTU, concorda que é preciso manter uma oferta superior à demanda para evitar aglomerações de pessoas, mas diz que ;é necessário encontrar uma forma de pagar essa conta;. ;Para atender às necessidades impostas pelo combate à pandemia, o modelo baseado na tarifa tornaria o preço da passagem proibitivo ao usuário;, argumenta

Apesar das dificuldades, Cunha afirma que o setor está atendendo a todas as determinações do poder público sobre como deve ser feita a operação: ;Há locais no país onde a norma exige que o ônibus urbano circule só com passageiros sentados, como em Recife, assim como há outras determinações em cada município;.

;A principal medida é evitar a aglomeração de pessoas no interior dos veículos. Para isso, é preciso aumentar a quantidade da frota em circulação, limitar o número de indivíduos viajando em cada ônibus ou trem, bloquear alguns assentos para tentar aumentar o distanciamento entre as pessoas e manter os ambientes arejados;, diz a infectologista Lívia Vanessa.

Além disso, ela coloca como necessária a disponibilização de álcool em gel 70% para higiene das mãos e a manutenção da limpeza de todas as superfícies tocadas pelos passageiros. ;Outra medida que poderia ser viabilizada seria a compra eletrônica de bilhetes, antes do embarque, para evitar manipulação de dinheiro.;

Carona

Para quem tenta fugir de um possível contágio usando carona, a médica explica que, ;infelizmente, um carro cheio pode também favorecer a propagação de doenças, mesmo se todos os passageiros estiverem usando máscaras e os vidros, abertos, devido à maior proximidade entre as pessoas;. A infectologista afirma que, caso seja inevitável, deve-se levar o mínimo de passageiros no veículo, manter a circulação de ar natural e higienizar o automóvel após o transporte.

Sobre o vestuário utilizado no transporte público ser fonte de contágio, Lívia pondera que ainda não se sabe quanto tempo o vírus permanece no tecido. ;Entretanto, é sempre recomendável que a roupa não seja utilizada em outro ambiente, devendo ser lavada assim que possível. E é importante não sacudir (a roupa) ao despir-se para evitar eventual dispersão de partículas virais;.

Créditos

Ainda no início da pandemia, entidades ligadas ao transporte público levaram uma proposta ao governo federal para minimizar os prejuízos do setor. ;A sugestão é criar um programa de aquisição mensal de créditos eletrônicos de passagens, enquanto perdurar a crise da covid-19, em volume suficiente para cobrir a diferença entre receita e despesa das empresas. O transporte público é atividade essencial e precisa continuar rodando, mesmo com baixa demanda;, diz Cunha.

O presidente da NTU explica que cada crédito eletrônico de passagem seria equivalente a um bilhete. ;Assim, o governo poderia usar os créditos do programa Transporte Social como um estoque a ser distribuído, agora e depois da crise do coronavírus, entre os beneficiários dos seus programas sociais;, complementa.

A crise, que eliminou o emprego de milhões de brasileiros, atingiu em cheio o setor, que mantinha 405 mil trabalhadores. Com a pandemia, foram suspensos 9.235 contratos de trabalho e outros 2.708 empregados demitidos, segundo números contabilizados até 17 de junho.

;Usando o benefício da Medida Provisória 936, os prejuízos foram parcialmente amortizados. Com a prorrogação da antiga MP, agora Lei n; 14.020, o setor terá mais 30 ou 60 dias de benefício às empresas, dependendo do caso, até somar 120 dias de suspensão de contrato ou redução de jornada e salário;, informa Cunha. Ele destaca, porém, que as medidas só trazem alívio temporário, mas não resolvem a situação.

A Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) sustenta que, se nada for feito, ;haverá quebra dos sistemas organizados de transporte público, com perdas para a sociedade da ordem de R$ 320 bilhões por ano;, alerta Cunha. Ele explica que o montante corresponde ao custo da substituição do sistema público coletivo por alternativas individuais.

;É importante ressaltar que a migração para o transporte individual vai promover um retrocesso, do ponto de vista urbano, social e ambiental, com aumento da poluição, dos congestionamentos. E deixará desassistida a camada da população que depende do transporte coletivo para chegar ao trabalho, por exemplo;.

;Deve haver uma sensibilização, por parte dos gestores públicos e das empresas, para aumentar o número de veículos em circulação, evitando aglomerações;

Lívia Vanessa Ribeiro, infectologista

Cuidados redobrados

O músico Sávio Lobato é deficiente visual e enfrentava dificuldades com o transporte muito antes de o novo coronavírus aparecer. Agora, o risco de contágio está em cada passo de Sávio. ;Como não enxergo, meu maior desafio é que tenho de pedir auxílio nas paradas para identificar meu ônibus;, afirma. Segundo a oftalmologista Glaucia Matos, do Visão Hospital de Olhos, ;durante a pandemia, essas particularidades cotidianas do deficiente visual, tal qual a exploração tátil, os deixam mais vulneráveis ao risco de contaminação. Além disso, nem sempre eles sabem se estão mantendo uma distância segura das outras pessoas na rua;.

Lobato conta que passou a evitar os ônibus, sempre que possível. ;O isolamento também diminuiu o número de pessoas nas ruas e, para a gente conseguir ajuda no transporte ou mesmo atravessar a rua está bem mais difícil;, lamenta. Como forma de se proteger, o músico tem lançado mão de aplicativos para pedir carros com motorista. ;Estou fazendo, por exemplo, para ir ao trabalho, que é perto de minha casa;, conta.

Corrente do bem

Com ou sem pandemia, pessoas com deficiência precisam contar com a solidariedade de desconhecidos para atravessar a rua ou embarcar no transporte público. ;Daí a importância de todos manterem as precauções e higiene;, pontua a oftalmologista Glaucia Matos.

Logo que a pandemia começou, as redes sociais encheram-se de bons exemplos de pessoas se oferecendo para ajudar os idosos. Aproveitando o gancho, Fernando Rodrigues, deficiente visual, professor de braile e presidente do Instituto de Promoção das Pessoas com Deficiência Visual, teve a ideia de tentar ampliar a solidariedade.

;Observei que não tinha nenhum grupo para ajudar pessoas com deficiência visual. Aí, resolvi criar uma rede de voluntários e comecei a divulgar. As pessoas começaram a se inscrever para ajudar deficientes a ir ao mercado, à farmácia, levar ao hospital e fazer algumas transações bancárias virtuais, já que a maioria dos serviços virtuais não é acessível (aos deficientes);, relata. ;Cada vez aparece mais gente para contribuir;, diz Fernando. ;Temos voluntários em cada cidade do DF e até no Entorno, como em Formosa e em Águas Lindas.;

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