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Auxiliares de limpeza contam sua rotina em hospital durante pandemia

"Sempre que faço uma desinfecção, penso que podia ser um parente"

Agência Brasil
postado em 05/08/2020 08:22
Auxiliares de limpeza em hospitalMaria Berenice da Silva tem 39 anos e em 12 deles trabalha como auxiliar de limpeza hospitalar no Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), em Vila Isabel, na zona norte do Rio. Em toda a sua vida profissional sempre procurou fazer o serviço pensando que a pessoa atendida podia ser de sua família. Ficar na linha de frente no combate à pandemia de covid-19 significou ver de perto o sofrimento das pessoas, e aí o cuidado com a limpeza aumentou.

;Já lidei com CTI pediátrico de emergência, CTI coronariano, CTI adulto, mas nunca passei por essa situação de um vírus invisível fazer tudo que fez em pouco tempo. Por mais que a gente tome cuidado de fazer o procedimento normal, agora dobrou com relação à atenção;, disse Maria Berenice em entrevista à Agência Brasil. ;Sempre que estou fazendo uma desinfecção, penso que poderia ser um familiar meu;.

A auxiliar de limpeza contou que no começo da pandemia, a situação foi muito tensa. Atualmente, até ficou um pouco mais calma com a redução dos casos, mas, ainda assim, tudo inspira cuidado. ;Agora deu uma acalmada, a situação amenizou, mas no começo da pandemia foi tudo muito difícil. Um serviço muito cauteloso e com muito cuidado que fazemos. É paciente que entra, paciente que sai. Os profissionais da saúde também estão com a gente;.

O drama dos pacientes e das famílias que passou a assistir ao acompanhar quadros no hospital chegou bem perto. Em maio, depois de três dias sem paladar, sem olfato, com febre e falta de ar, fez o teste e deu positivo. Maria Berenice ficou 18 dias afastada do trabalho. ;Tudo muito novo, você se põe no lugar da pessoa que estava ali hospitalizada e teve que passar pelo processo de intubação. Graças a Deus não passei por isso, mas tive todos os sintomas;, afirmou.

;Teve um fim de semana em que passei tão mal que achei que naquele dia não voltaria mais. Dor no corpo, dor no pulmão, queria respirar, fiquei com o rosto de frente para o ventilador, com falta de ar. Foi um desespero;.

A profissional não ficou internada em hospital, mas precisou fazer isolamento em casa, período que passou na companhia dos filhos Gabriel, de 22 anos, e David Juan, de 20 anos. Se pôde ficar ao lado deles, isso trouxe também muita preocupação de que fossem infectados. ;Sempre pedia que não ficassem muito próximos a mim, porque o medo era contaminar meus filhos. Evitei qualquer tipo de aproximação com colegas, porque perdi várias pessoas conhecidas também e foi tudo muito complicado. Até você entender que tudo aquilo que estava acontecendo chegou até você também e se colocar novamente no lugar das outras pessoas, é muito difícil;, revelou.

Outro momento difícil foi ver o olhar de medo do filho Gabriel de perder a mãe. ;Eu chorava horrores quando meu filho saía de perto de mim. Eu vi o medo dele de me perder naquele momento. As pessoas conhecidas que a gente perdeu eram pai, mãe e colegas dele. Quando aconteceu na minha casa, eles ficaram muito assustados. Os meus filhos ficaram praticamente isolados comigo. Evitaram ir para a rua. Eles são jovens, mas o medo que tinham era o de perder a mãe. Quando testei positivo, o desespero foi maior;, contou.

Aglomeração

Quem teve a doença, sente muita tristeza ao ver tantas pessoas que não dão a devida importância ao novo coronavírus se aglomerar nas ruas, não usar máscara, nem álcool em gel e não pensar no próximo. ;É um sentimento de tristeza e, ao mesmo tempo, de perceber que não valorizam o nosso trabalho. Muitos não estão ligando, porque acham que isso não acontece dentro da sua casa. Esse sentimento a gente tem porque enquanto está ali se dedicando, tem gente lá fora não dando a mínima. Até que acontece dentro de casa, para entender que esse vírus não é brincadeira. Foi preciso perder a pessoa do seu lado para saber o quanto é séria a situação;, observou.

Vacina

Maria Berenice, que há mais de uma década está acostumada a higienizar unidades de terapia intensiva de diversas especialidades, espera o surgimento de uma vacina contra a covid-19, com a certeza de que, a partir da pandemia, a vida não será mais a mesma para ninguém. As medidas de proteção vão ter de continuar, ainda que a contaminação tenha diminuído. ;Esse nosso costume de usar máscara e álcool em gel vai ficar para sempre. A vacina pode ser positiva, mas antes da vacina não acredito muito não;.

Alívio

Para Fabiano Paulino de Souza Nunes, de 44 anos, colega de Maria Berenice há dois anos e seis meses, foi radical a mudança no trabalho antes e após o surgimento da pandemia. Embora não tenha se infectado, apesar de terem aparecido alguns sintomas, como febre, dor de cabeça e tosse, o sentimento de estar diante de uma doença desconhecida causa temor, principalmente porque mora com a mulher Carla e os três filhos, João Vitor de 17 anos, Kauan, de 13, e Rebeca, de 6 anos. ;Quando veio o resultado foi um alívio. Ninguém quer pegar isso na verdade. Ninguém sabe o que pode acontecer, como a doença se comporta no nosso corpo;, afirmou.

Fabiano lembrou que a sua categoria é essencial, como os médicos e enfermeiros, no combate ao novo coronavírus. O trabalho, que já era conjunto, se transformou em união desses profissionais. ;Sentimento agora de total união, temos que estar mais próximos. Tanto médicos, quanto enfermeiros, a gente da limpeza é que entra primeiro quando ocorre algum óbito. A gente está diretamente junto;.

Mortes

De acordo com o auxiliar de limpeza, é muito difícil acompanhar a evolução de um paciente que não resiste ao vírus e morre. ;Quando a gente vê um paciente morrendo, pensa logo nos nossos familiares, nossos amigos e no próximo. É muito difícil. É choque para nós. A verdade é que a gente faz de tudo para salvar essas vidas. Tem que fazer a higienização total do ambiente;.

Empresa

A empresa de limpeza hospitalar Mais Verde, em que Maria Berenice e Fabiano são contratados, informou que o trabalho diário é acompanhado por supervisores que organizam as tarefas, tiram dúvidas e conversam com os auxiliares sobre os procedimentos que devem ser seguidos e sobre suas demandas pessoais. Os profissionais também têm equipamentos de proteção e a assistência diária de um técnico de segurança do trabalho e de um enfermeiro especializado em desinfecção hospitalar, que também acompanha o quadro de saúde dos funcionários.

;Os funcionários seguem as diretrizes de ação da Coordenadoria de Controle de Infecção Hospitalar do próprio hospital, que determinam como a limpeza deve ser feita, os produtos a serem usados, entre outros aspectos;, completou a empresa.

Com o início da pandemia, os profissionais fizeram treinamento específico para o trabalho na linha de frente. ;Tivemos que reforçar o uso de EPI, os cuidados com os uniformes, o protocolo a seguir quando chegam e quando saem do hospital. Antes da pandemia, por exemplo, o uso do capote não era obrigatório para todos os funcionários em todos os setores do hospital, e agora passou a ser;, explicou.

No caso de empregados infectados, a orientação, após a avaliação da médica que faz o atendimento inicial, dependendo da gravidade, é ficar em casa. O afastamento dos profissionais levou a empresa a fazer remanejamento de equipes reservas e providenciar novas contratações. ;Tivemos casos de pessoas que desistiram do trabalho ao saber que atuariam em hospitais, pelo receio de se contaminar, completou a empresa que tem cerca de 370 funcionários no Hupe e em outras unidades de saúde do Rio.

Recomendações

O conselheiro Técnico da Associação Brasileira do Mercado de Limpeza Profissional (Abralimp), Alessandro Fernandes Araújo, disse que a entidade recomendou ao setor as normas que deveriam ser seguidas pela categoria, uma delas com relação aos equipamentos de proteção que devem ser usados. ;O mais importante neste momento não é só a paramentação, mas também a desparamentação, que é tirar o uniforme. Isso pode ter um risco maior de contaminação das pessoas. Por isso, intensificar treinamento é uma parte importante;, disse, destacando que a pandemia causou surpresa e todos os processos de segurança dos profissionais foram intensificados conforme os padrões da Organização Mundial da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Araújo acrescentou que todos os profissionais foram orientados a informar quando notassem alguma possibilidade de contaminação. ;Hoje, estamos cada vez mais especialistas em higienização, em desinfecção. Isso vai ficar pós-pandemia;, completou.

[SAIBAMAIS]A Abralimp informou que é a única entidade que representa toda a cadeia produtiva do setor de limpeza profissional, formada por fabricantes e distribuidores de máquinas, equipamentos, químicos, descartáveis e EPI, além dos prestadores de serviços especializados de limpeza profissional.

A associação tem mais de 230 associados e representatividade nacional. O mercado de limpeza profissional movimenta atualmente mais de R$ 18 bilhões ao ano e gera mais de 760 mil empregos.

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