Com mais de 30 anos, orquestra sinfônica se consolida

Ensinamentos do fundador e um dos maiores compositores brasileiros, Claudio Santoro, ainda são aplicados

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postado em 21/04/2012 07:00 / atualizado em 19/04/2013 16:36

Tina Coelho/Esp. CB/D.A Press

Faço música como sapateiro faz sapatos.” A declaração de um dos maiores compositores brasileiros, Claudio Santoro, revela um traço de sua personalidade — a humildade, e uma das teclas em que mais bateu durante sua vida: a preocupação constante com a formação adequada das pessoas. Em outras linhas queria dizer que compositor é uma profissão, como qualquer outra, na qual é preciso ter conhecimentos para desempenhá-la. O músico, que deu nome ao Teatro Nacional de Brasília, foi responsável por fundar, em 6 de março de 1979, a Orquestra Sinfônica da capital.



A coreógrafa Gisele Santoro, viúva de Claudio desde 1989, ainda vive em Brasília. Como ele, acredita e defende a importância da formação de músicos e lamenta a situação em muitos teatros, sem sequer corpo de baile. Discreta e muito acessível, reservou um tempo do dia a dia agitado — ela é uma das maiores exportadoras de dançarinos do Brasil — para relembrar o início dessa trajetória. “No dia da inauguração, estavam presentes os ex-presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo. Lembro que foi um concerto de gala, não existiam corrimões e estava todo mundo de salto. O carpete estava novinho. Na hora de descer, todo mundo escorregava ”, conta. “A gente se segurava nas paredes”, completa. E, até que esse dia chegasse, foram muitos preparos.


A história do casal com Brasília é longa. Santoro veio à capital em 1962, para ajudar a fundar a Universidade de Brasília (UnB). “A vontade dele era ficar por aqui. Brasília era como uma filha para ele”, diz Gisele. “Aí veio o golpe e os projetos ficaram incompatíveis com a ditadura. Nosso projeto com a capital ficou como uma história mal resolvida, queríamos retornar, mas, com os anos, tudo muda. Só conseguimos realizar parte do que tínhamos idealizado”, lamenta. O casal voltou do exílio da Alemanha em 1978. Uma das missões em Brasília era inaugurar o teatro e dotá-lo de todo o corpo, desde a orquestra aos dançarinos próprios.

Contratado pela Instituição de Apoio e Fomento à Arte (Funarte), imaginou um teatro de médio porte. Queria aproveitar acordos culturais com embaixadas. A iluminação, por exemplo, seria feita em parceria com a embaixada belga. A maioria das ideias, no entanto, foram engavetadas. A orquestra foi uma das poucas que sobreviveu. O compositor aproveitou os contatos que tinha fora do Brasil e trouxe duas spallas (nome dado ao primeiro-violino de uma orquestra, responsável pela afinação do conjunto), — uma da Europa e outra da Argentina — e treinou músicos. A ideia de Claudio era dar as ferramentas para as pessoas crescerem.

“A proposta dele foi pegar os alunos do departamento de música da Universidade de Brasília (UnB), os professores e músicos de fora”, lembra. “Ele teve a paciência para contratar a garotada e explicar. Levou um ano para tocarem música francesa”, brinca. “Ele explicava acordes musicais específicos e mostrava o som. Com isso, fez o conjunto melhorar com o tempo e abriu oportunidades para os músicos. Foi difícil para o Claudio. Teve um trabalho triplo. Mas criou algo de que a cidade hoje tem orgulho”, afirma.

Evolução
Ao longo dos mais de 30 anos, a orquestra passou por altos e baixos, mas muito do que é hoje deve-se a Santoro. Um dos alunos do compositor, por exemplo, tornou-se mais tarde regente. O carismático Silvio Barbato morou, por uns tempos, no mesmo prédio do compositor e teve aulas gratuitas com ele. Gisele também ensinou baile, que Barbato julgava importante para a parte gestual da regência. Santoro lecionava sem impor estilos. Teve alunos de vanguarda e outros mais conservadores. O importante, para ele, era dominar a técnica. Nas temporadas de ópera, Santoro chamava músicos da cidade e recusou um cargo que permanecesse no tempo. Dizia que , para a orquestra, o melhor é que houvesse diversas concepções e diferentes maestros.

Embora muitas de suas ideias tenham sido arquivadas, Santoro deixou um legado e iniciativas que se repetem hoje com o atual regente da Orquestra, o Claudio Cohen, um dos membros fundadores que aderiu ao grupo quando tinha apenas 16 anos. “Era um garoto, lembro que foi uma emoção muito grande. Ainda é”, afirma Cohen. O atual regente lembra as lições aprendidas com Santoro. “Ele é um dos principais nomes da música brasileira. Foi uma experiência muito enriquecedora, nos passou muita coisa e experiências que ele adquiriu mundo afora”, explica.

» O longa

Em 1988, duas alunas da UnB procuraram Santoro e pediram para que contasse (e gravasse) a própria história. A intenção das estudantes era escrever um livro sobre o maestro. Ele topou. A obra nunca saiu, mas as nove fitas cassetes não foram desperdiçadas. Duas décadas depois, o cineasta John Howard Szerman teve contato com o material que servirá como narrativa para o documentário que finaliza. Santoro: o homem e sua música (nome provisório) deve ser lançado ainda este ano.

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