Os caipiras cantam a tradição do Brasil profundo na capital modernista

Demorou um tempo para que Brasília integrasse sua porção caipira sem pejo.Hoje a capital é referência em música de raiz

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postado em 21/04/2012 07:00 / atualizado em 19/04/2013 16:47

Tina Coelho/Esp. CB/D.A Press

A alma telúrica não esquece facilmente que Brasília é Goiás, miolo do país. Que, antes de o Plano esparramar as asas entre os paralelos 15 e 20 do Hemisfério Sul, ali vicejava cerrado. E nessa terra já tinha povo, que vivia, morria, amava, cantava. Planaltina (DF), por exemplo, somava pelo menos um século de história em 1960. Também Brazlândia (DF), Formosa (GO), Luziânia (GO), Pirenópolis (GO) e Anápolis (GO) desafiavam a vastidão rural e desenvolviam cultura própria.



Seria natural, portanto, que o brasiliense carregasse viva a lembrança dos reisados de janeiro e giros do Divino — folguedos de caráter religioso presentes em quase todo o Centro-Oeste. Mas o curso das coisas não quis assim. Demorou ainda um tempo para que a cidade modernista integrasse sua porção caipira sem pejo. Como um lençol d’água subterrâneo, a tradição correu incontáveis caminhos antes de aflorar no concreto. Hoje somos referência na chamada música de raiz — casa, entre outros, da dupla icônica Zé Mulato e Cassiano, e do violeiro erudito Roberto Corrêa.

As razões dessa rejeição inicial são complexas. “Talvez o povo do Plano Piloto e das cidades recém-criadas é que não observasse isso, mas, em Planaltina, no Gama, nas áreas rurais do Distrito Federal, sempre estiveram presentes as folias, a catira, as danças tradicionais. Na verdade, essas manifestações, como muitas outras coisas no DF, foram empurradas para o Entorno”, avalia Volmi Batista, músico, produtor cultural e presidente do Clube do Violeiro Caipira de Brasília, sediado na Candangolândia.

“Quando cheguei aqui, em 1969, ser violeiro era quase um sacrilégio. Quando nego via você no ônibus com a viola, já levantava de perto. Mas Brasília, naquela época, era realmente adolescente”, ameniza Zé Mulato, sem uma nota de ressentimento. “Nos ‘apaixonamo’ por Brasília e Brasília nos recebeu na qualidade de filhos”, emenda o coautor de Convite sincero. O que seu comentário revela é, antes de tudo, o embate entre o urbano e o agrário, incontornável em tempos de Brasil grande, pano de fundo ideológico do período militar.

Houve também uma questão de mercado fonográfico, que, a partir de fins dos anos 1970, moldou as rádios e contribuiu para reduzir a cultura do campo a mero folclore ou breguice. “Foi quando a influência da música estrangeira chegou forte. Com os filhos dos militares, vieram também os instrumentos eletroeletrônicos. Acabaram, pelo poder aquisitivo, criando esse rótulo de capital do rock — também isso foi um fator de descriminação para a música de raiz em geral”, confronta Volmi Batista.

Se o rock fez mesmo essa sombra toda, é assunto para uma prosa longa. O certo é que a árvore musical caipira prosperou vigorosa nos últimos 20 anos e, por sorte, os motivos estão bem à vista. O principal deles é o manhoso instrumento de cordas duplas, herança portuguesa, talvez trazido pelos jesuítas, e que ganhou uso inusitado na mão dos nativos. A viola carrega em seu bojo a tradição e, por isso, é o fio condutor dessa saga urbano-sertaneja.

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