Jogo mostra verdades e mentiras sobre a composição da Sinfonia da Alvorada

A canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes foi composta durante estadia de 10 dias da dupla no Catetinho

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postado em 21/04/2013 07:00 / atualizado em 19/04/2013 15:38

Arquivo/Manchete

Muito já se falou sobre a célebre passagem de Tom Jobim e Vinicius de Moraes por Brasília para compor a Sinfonia da Alvorada, espécie de poema sinfônico ou hino modernista para celebrar a nova capital. No entanto, a estada da dupla ainda está envolta em mitos ou meias-verdades. Por isso, vale a pena recorrer ao clássico jogo de certo e errado no sentido de esclarecer algumas versões transformadas em verdades absolutas de tão repetidas. Vamos lá.



1) Tom e Vinicius vieram a Brasília em 1959 para compor a Sinfonia da Alvorada, visando a inauguração da nova capital em 21 de abril de 1960. Errado.

Na dúvida, vamos aos documentos. A coluna “Close up”, do Correio Braziliense, de 4 de setembro de 1960, publicou a seguinte nota: “A iluminação da Praça dos Três Poderes ficará pronta, com todos os refletores assentados, até o dia 12. O sistema de som, contudo, só será inaugurado dois meses depois que a dupla Vinicius de Moraes e Tom Jobim concluír sua composição”. Ou seja: a data correta da vinda de Tom e Vinicius a Brasília é setembro de 1960 e não setembro de 1959.

2) Tom e Vinicius compuseram a Sinfonia da Alvorada para atender uma encomenda do presidente Juscelino Kubitschek. Meia-verdade.

Em várias reportagens do arquivo do Instituto Tom Jobim, o compositor e o poeta reiteram o entusiasmo em compor uma sinfonia para celebrar a criação da capital moderna “em plena selva”. Tom e Vinicius enfatizavam o fato de a Sinfonia da Alvorada não se prender a objetivos políticos, mas apenas ao resultado “do fascínio ante uma cidade que nasce, conquistando florestas e sintetizando o despertar de um mundo novo nas Américas.” Em depoimento publicado no livro Brasília: o nascimento de uma cidade ou como se fez um poema sinfônico, Vinicius conta que a ideia da sinfonia partiu de Oscar Niemeyer, em 1958. Ele queria uma festa no estilo das que acontecem na França, em Versailles, Fontainebleau e outros castelos. Tom ficou animado e começou a compor os primeiros temas em 1958, mas interrompeu o trabalho, pois ficou muito magoado com as insinuações de que estava fazendo um trabalho de “encomenda para JK”. Ficou à espera de “dias mais inteligentes”, nas palavras de Vinicius. Eles chegaram a 1960.

3) Tom e Vinicius se queixaram, naquela época, da falta de esquinas de Brasília. Errado.

Para começo de conversa, os dois vieram no épico Fusquinha do Tom, vencendo 1.300km de estradas precárias porque, embora fossem cariocas clássicos, queriam experimentar a aventura da capital modernista a partir da poeira e da conquista do Oeste. No texto que escreveu para a contracapa da Sinfonia da Alvorada, Tom diz que o Planalto era “o lugar mais antigo da terra”. E Vinicius vislumbrou em Brasília “uma proximidade com o infinito”. Vinicius gostou tanto do Catetinho que pediu ao amigo Oscar Niemeyer para desenhar uma casa no mesmo estilo em Petrópolis, nos tempos em que estava casado com Maria Lúcia Proença. Tom se embrenhou pela mata do Catetinho para conversar com jaós e perdizes por meio de assobios e declarou em depoimento ao Museu da Imagem e do Som que a experiência brasiliense foi marcante em sua vida.

Trecho

Brasília: o nascimento de uma cidade ou como se faz um poema sinfônico


Depoimento de Vinicius de Moraes No livro Samba falado (Editora Azougue)

A ideia não era nova. Já há cerca de dois anos e meio Oscar Niemeyer me falara do assunto, e sonhamos juntos a possibilidade de criar um espetáculo “Som e luz” para Brasília, à maneira dos que se fazem na França, em Versailles, Fontainebleau e outros castelos.

O espetáculo, como muitos deve saber, consiste em iluminar um determinado monumento histórico, para o turista e para as grandes datas, e descrevê-lo em termos de texto e música, por intermédio de projetores de luz e alto-falantes colocados em posições previamente estudadas, de modo a que dêem um máximo de rendimento luminoso e sonoro.

(…) Por outro lado, numa tarde de fevereiro de 1958, eu, num hospital de Petrópolis, todo arrebentado por um desastre de automóvel, animava meu amigo e parceiro que me for a visitar, Antonio Carlos Jobim, a tocar para diante a ideia de escrever uma sinfonia sobre Brasília. Eu faria um coral para a última parte.

Jobim mostrava-se animado e, pouco mais tarde, em seu apartamento em Ipanema, eu ouvia os primeiros temas surgirem do seu piano: belos temas que o compositor fora criando à medida que a ideia lhe brincava na cabeça. Mas logo surgiram as primeiras vozes da reação: — Vai ganhar um cartório. Antonio Carlos Jobim, que não é de cartório nem nada, arrefeceu. (…)
E o tempo passou. Mas no subconsciente de três homens que já haviam trabalhado juntos numa peça de teatro chamada Orfeu da Conceição, no ano de 1956, e que por sinal estreou no Teatro Municipal justo um mês e pouco antes da construção, em dez dias, do Catetinho, em pleno Planalto Central, junto a um capão de mato onde brota um lindo olho d’água — os fios dessas ideias continuaram a ser tecidos.

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