Brasília é a cidade onde a música nasce e se renova da miscigenação

É o local onde o ex-guitarrista de rock progressivo vira presidente do Clube do Choro, o filho do maestro se torna produtor de rap e o estudante de física teórica se distingue como pesquisador de viola caipira

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postado em 21/04/2013 07:00 / atualizado em 19/04/2013 16:10

Arquivo Pessoal/CB/D.A Press

A força da música moldada em Brasília é filha da esperança que marcou os primeiros dias da cidade. É uma música que nasce e se renova da miscigenação, de experiências coletivas e — por que não? — de uma nova maneira de enxergar o Brasil.



Os grandes êxodos da humanidade são geralmente precedidos e/ou acompanhados de grandes tragédias. Eclosões sociais, tragédias pessoais, tensões coletivas e vidas amargas costumam acompanhar essas procissões humanas onde quer que elas tenham acontecido.

A construção de Brasília foi diferente; não havia um povo em fuga, muito menos a promessa de uma pepita de ouro. O que atraiu tanta gente para o ermo sertão goiano foi a possibilidade de construir um mundo novo — era um povo movido a esperança.

E com o primeiro caminhão de candangos vieram os primeiros acordes de uma música que hoje se faz sentir com força, já que ela parece catalisar não apenas a cultura nacional, mas amplia o alcance de suas antenas para o mundo todo. E de formas variadas.

Para entender a música desta cidade é preciso saber algumas coisas:

Aqui, o ex-guitarrista de rock progressivo virou presidente do Clube do Choro;

O filho do compositor e regente da Orquestra Sinfônica virou artista e produtor de rap;

O sertanejo da Bahia profunda se descobriu e reinventou o reggae;

O estudante de física teórica deixa a teoria das cordas de lado e abraça a viola caipira;


O filho de migrantes nordestinos criou uma banda de rock hardcore;

O jovem vindo de Piracanjuba (Goiás) emocionou autoridades cantando boleros em castelhano;

O menino de ouro do chorinho se deliciava com a potência das bandas heavy metal.

Carlos Moura/CB/D.A Press


Ao contrário da cidade compartimentada, dividida em setores específicos, a produção musical não teve o menor respeito com o urbanismo e a arquitetura da cidade. Dessa cerimoniosa falta de limites nasceu uma música espontânea e criativa — embora criada à base de burocráticos decretos.

O fundador, que adorava dançar boleros, chamou dois bossa-novistas — Tom e Vinicius — para criarem uma sinfonia para a alvorada da nova capital.

O mesmo presidente também assinou decretos com a transferência centenas de funcionários públicos que vieram nos primeiros anos, muitos deles sambistas (especialmente portelenses).

Foi o mesmo caso da criação da Rádio Nacional, que logo começou a montar seu “cast” artístico local — naquele tempo quase tudo era ao vivo —, promovendo concursos para descobrir talentos.

Chorões já consagrados, como Avena de Castro, Waldir Azevedo e “seu” Bide da Flauta, encontraram nova seara no cerrado. E as safras se renovam com riqueza.

Os eruditos Santoro e Nobre, talvez por falta de tempo, deixaram menos sementes. Ainda assim, claudicando, vamos em frente.

E o rock, esse rebelde, floresceu graças aos discos que a aduana não confiscava nas malas diplomáticas.

A tolerância e a curiosidade sempre foram mais fortes do que as cercas de cada gênero. Músicos de todas as tendências se frequentavam, trocavam respeitosas impressões e seguiam em frente — cada um na sua. É assim ainda hoje: tribos que não falam a mesma língua, mas não estão em pé de guerra; ao contrário, se juntam em celebrações constantes.


A música parece ser a mãe da harmonia da cidade. Em nenhuma outra atividade artística Brasília se encontrou tanto. Hoje, Brasília é uma sinfonia a céu aberto.

Fonte inspiradora

Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press


>>Conceição de Freitas


É um livro de grande porte, tanto no volume (367 páginas), quanto no peso (pouco mais de meio quilo) e no conteúdo. Da poeira à eletricidade, de Severino Francisco, percorre toda a história da música de Brasília e, portanto, toda a história da cidade. Trata-se, como diz o autor, de “um dos capítulos mais preciosos e fascinantes de Brasília”. Já no nascimento, entre os anos 1956 e 1960, a nova capital inspirou mais de 70 obras musicais, numa inesquecível e divertida contenda musical em defesa e contra Brasília, inédita na história brasileira. Desde então, a sina se repete, seja no rock, no chorinho, no rap, na música instrumental, na música caipira de raiz. Toda e qualquer tentativa de delinear a alma da capital dos brasileiros terá de considerar a forte identidade musical dos brasilienses. Portanto, há mais do que motivos para dedicar este caderno especial de 53 anos de Brasília a contar, a partir do livro, essa sonora e inacreditável aventura, da qual às vezes a gente nem se dá conta. (Da poeira à eletricidade faz parte de uma coleção de dez títulos sobre a memória da arte e da cultura em Brasília, lançada no fim do ano passado pelo Instituto Terceiro Setor-ITS).

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