Brasília é capital do choro com nova geração dedicada a esse gênero musical

A nova leva de talentos envolvidos com o gênero vem, em grande parte, da Escola de Choro Raphael Rabello

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postado em 21/04/2013 07:00 / atualizado em 19/04/2013 16:41

Tina Coelho/Esp. CB/D.A Press

Tiago Tunes nasceu para o choro. Aos 4 anos, ganhou uma bateria que perdeu a graça em questão de meses. Pouco depois, dedilhou uma guitarra que teve o mesmo fim. Quando completou 7, descobriu que queria mesmo um bandolim. Dedicou-se, estudou e, aos 10, fez a primeira apresentação para uma plateia de 80 pessoas. Ficou nervoso. Errou alguns acordes. Não desistiu. Hoje, com 16 anos, tem uma certeza: o som harmonioso que combina com fundo de quintal e roda de amigos é o seu futuro.



A convicção e o talento do garoto reforçam a máxima de que, depois de meio século de história, Brasília virou a capital do choro. Assim como Tiago, surgem inúmeros jovens artistas dispostos a tocar e difundir um dos gêneros mais tradicionais da música popular brasileira. E eles estão por toda parte, dos corredores do Clube do Choro aos pavilhões da Escola de Música e às salas da Universidade de Brasília (UnB). Muitos conquistam espaço nos quatro cantos do país e se preparam para ganhar o mundo.

Se na década de 1980 a cidade vibrava com o som pesado dos baixos e das baterias, está claro que, nos anos 2000, chegou a vez da melodia formada por cordas, flautas e pandeiros. “Até gostava de solar na guitarra, mas acho o rock um pouco agressivo e os músicos tendem a ser mais performáticos”, analisa o jovem Tiago. “A harmonia do choro é diferente. Passei a entender melhor o que quero com a música e há muita gente que quer o mesmo”, emenda o rapaz.

A nova geração de brasilienses envolvidos com o gênero vem, em grande parte, da Escola de Choro Raphael Rabello, fincada no mesmo local do Clube do Choro, no vasto canteiro entre as duas pistas do Eixo Monumental. Vencida uma verdadeira batalha contra a burocracia e a falta de interesse político, o centro de formação de músicos começou a funcionar em 1998, com apenas 23 alunos. Agora, o lugar é reduto de mil bandolinistas, flautistas e afins de todas as partes do país.

Funcionou no espaço provisório por vários anos. A sede definitiva, projetada por Oscar Niemeyer, ficou pronta somente em 2011. No prédio que esbanja as marcas das linhas e curvas do arquiteto funcionam 10 cursos de música. Mais de 1,5 mil shows com um público total de 500 mil pessoas fazem parte desses 15 anos de história. “Aqui, o trabalho é colocar o choro no patamar dele, à altura da posição que ele ocupa na cultura do país”, resume Reco do Bandolim, fundador da escola e presidente do Clube.

Saíram de lá pelo menos 40 grupos de choro. O brasiliense Márcio Marinho, 28 anos, aprendeu a dominar o cavaquinho no clube, formou trios, quartetos, participou de festivais e ganhou um concurso nacional que tinha, entre os jurados, o músico Francis Hime. A vitória foi em nome do Cai Dentro, trio formado com dois amigos.“O interesse pelo choro está mudando muito. Pessoas de todas as idades querem tocar.”

Para preservar a tradição que alimenta quem faz a música de hoje, será construído o Centro de Memória e Referência do Choro, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB). Reco do Bandolim adianta que festivais internacionais do gênero também estão por vir. “Há um potencial enorme e um grande interesse por parte de quem está tocando na cidade”, justifica.

A força do gênero atinge outros pontos da cidade. O movimento começa a alcançar espaço em pontos de tradição e qualidade inquestionáveis, como a Escola de Música de Brasília. Todas as semanas, o pátio dá lugar a uma roda de choro formada por professores e alunos. “Estamos na fase de antropofagia, de absorver o máximo possível”, explica Yann Rocha Fleury, 22 anos, estudante de violão de seis cordas.

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